sábado, 12 de julho de 2014

Conversando sobre o ciclo da vida

Enquanto eu estudava na sala, minha pequena brincava no quarto com as bonecas e cantava:

"Mãezinha do céu
eu não sei rezar
eu só sei dizer
que eu quero te amar..."

E por aí vai. Uma música que minha avó cantava para nós e que canto para ela quando dormir é uma tarefa difícil. De repente, depois de uns segundos de silêncio, ela perguntou:

- Mãe, você vai pro céu?
- Sim, um dia mamãe vai pro céu.
- E eu vou te ver lá?
- Não sei... acho que sim, filha... um dia você vai também, então acho que a gente pode se encontrar lá.
- E quando você for pro céu... não vai mais voltar pra casa? Eu quero que você fique aqui comigo.

Então me levantei e sentei perto dela:

- Meu bem, todos vamos pro céu um dia. Quando eu era do seu tamanho, a minha vovó foi pro céu, tem muita gente legal lá. Todo mundo vai depois que cresce, mas isso não é ruim. Não é pra ficar triste, quem vai pro céu vira um anjo e protege todo mundo que precisa. Quando a mamãe for pro céu, vai ficar sempre com você, ajudando a dormir, a ter sonhos bons, a se proteger. Não fique pensando nisso, mas se pensar, não fique triste. Certo?
- Certo. Agora eu tenho que escovar os dentes, mãe.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Entre os prazos e o prazer

Férias escolares já virou sinônimo de dor de cabeça. Não que seja ruim, desagradável ou algo parecido o fato de seu filho ficar mais tempo em casa. Ao contrário, é uma oportunidade de dormir juntinhos até mais tarde, assistir mais animações com pipoca, passear um pouco mais, conhecer uns lugares, revisitar outros, conversar mais etc. O problema é que, como diz meu sobrinho de 8 anos, os pais não tiram férias ao mesmo tempo que os filhos.

Minha filha ficou de férias por um mês e exatamente no último mês que tenho pra preparar o texto da qualificação de mestrado. Exatamente no mês de provas do papai na faculdade. Resultado: renovação do estoque de desenhos e animações, enquanto a mamãe passa mais horas que o de costume no computador, tentando se concentrar em meio ao caos de uma criança de 3 anos que fica o dia todo em casa.

Me sinto mal por não conseguir cumprir os prazos de leitura e escrita como eu gostaria, me sinto mal por não ter tempo/dinheiro pra tirar minha filha da rotina em plenas férias, ir à praia, ao cinema, ao oceanário, visitar os amigos que têm filhos da mesma idade etc. Enfim, pedimos desculpas aos filhos por não presenteá-los com uma viagem de férias ou uma programação divertida no mês de julho, mas no fundo sabemos que cumprimos prazos, obrigações, compromissos, regras e cobranças que não estão ao nosso alcance.

Muitas vezes agimos como o personagem Guido, do filme "A vida é bela", tentando camuflar a realidade pra que eles não percebam as dores e os dilemas da vida real, as pressões do mundo adulto. É frustrante perceber a dificuldade entre conciliar os compromissos de estudo e trabalho e os desejos e demandas dos nossos filhos. Parece até pedir demais, porque aprendemos desde cedo que o "natural" é trabalhar 10 horas por dia e reservar os finais de semana para o prazer, o lazer.

Quando eu era criança, meu pai sempre estava trabalhando. Quando estava em casa, estava cansado do trabalho e tínhamos que deixá-lo em paz. Não conversávamos, não brincávamos, não interagíamos. Interagíamos aos domingos, nos jogos do Flamengo. Era a oportunidade de receber um pouco de atenção. Era ótimo assistir ao jogo do Flamengo, porque ele me explicava tudo e até vibrávamos juntos. Era o momento de ver meu pai sorrindo e conversando. Minha mãe sempre tinha muitos pratos pra lavar, roupas pra cuidar e, quando se sentava pra assistir à novela, dormia. Dormia de tão cansada. E pra não levar bronca, era melhor deixar dormir.

Desde que minha filha nasceu, sempre pensei que poderia fazer diferente. O mercado de trabalho me consumia, eram 12 horas entre um emprego e outro. Por alguns meses, ela passava mais tempo com o pai e com a avó do que comigo - não estamos falando de um ranking, mas via o tempo passar e não queria perder o crescimento de minha filha, momentos que não voltam. "Vou parar de trabalhar e tentar um mestrado, assim volto a estudar e fico mais tempo em casa". Apesar do aperto financeiro, foi a melhor decisão. Pessoalmente, estou realizada de voltar à universidade e perceber que posso passar menos tempo sendo robô e mais tempo aprendendo, lendo, estudando, sentindo que a caminhada segue para algum lugar. Passei a estudar para concurso e os frutos já estão brotando - algo impensável em outras épocas.

Mas é muita coisa pra ler, muita coisa pra estudar e escrever. Na primeira semana de férias, eu surtei. Logo vi que não conseguiria cumprir os prazos e fazer o que tinha estabelecido como meta pra mim mesma. Estressei e acabei colocando as mãos na cabeça. Quer saber de uma? Dane-se. Separei quatro horas por dia pra estudar tudo o que tinha que estudar e, como vi que não era possível ainda assim cumprir a meta, elenquei prioridades e agilizei meu próprio ritmo.

E assim estamos, dormindo até mais tarde, almoçando tarde, passando mais tempo no parquinho, conversando bastante, passeando de bicicleta e fazendo bobagens. Dessas que sonhamos em ficar fazendo om os filhos quando trabalhamos 10 horas por dia. Sei que poderia estar mais avançada na pesquisa, mas não parei de escrever. Apenas parei de me cobrar tanto. Próxima semana as férias acabam e é hora do "intensivão". Tenho duas semanas sozinha em casa. E já me sinto como Demi Moore em "Além do Limite da Honra" - me preparando pra guerra.


quinta-feira, 26 de junho de 2014

"Podem o que quiserem"

Sempre que alguém pergunta "como será que fica a cabeça de uma criança criada por casais gays" ou "como elas vão lidar com o fato de verem seus coleguinhas na escola com pais e mães", eu penso que seria adequado responder-lhes com outra pergunta: "em que mundo você vive?" 

Pois bem, eu posso dizer o mundo em que vivo. Eu e Rafael temos 29 anos e somos pais de uma menina de 3. Desde que ela nasceu, foi inserida naturalmente no nosso círculo de amizades e convivência, que inclui militantes de esquerda, grupos feministas, movimentos negros, praticantes de religiões de presença africana, professores e colegas universitários, casais gays, mães e pais solteiros, famílias com crianças adotadas, entre outros perfis e estilos de vida que servem de rótulo constante para quem tem prazer em estigmatizar.

Nunca precisamos ensinar a nossa filha que ela deve ter orgulho do cabelo cacheado e volumoso, porque grande parte de nossos amigos ostentam grandes blackpowers, dreadlocks (inclusive o pai) e outros penteados afro. Ela se recusa a amarrar ou "domar" o cabelo, mesmo sob a insistência gritante de vários parentes em eventos de família. "Não, obrigada", ela responde a quem brada: "Ajeite o cabelo dessa menina". É claro que Maria Joana não sabe ainda a importância do cabelo para a reafirmação de uma identidade historicamente oprimida, ela quer simplesmente usá-lo como muitos ao seu redor usam: livremente. Mas isso já é um grande passo para poder viver na "geração chapinha".

Da mesma forma, nunca precisamos ensiná-la o que é um casal gay. Não é preciso criar explicações para o que é natural. Casais são casais e ponto, não há rotulações. Então, ela nunca fez nenhum questionamento, nunca demonstrou tabu ou estranhamento ao ver um casal gay, porque para ela é uma relação como qualquer outra - assim como para nós. Durante um ano, moramos em uma república estudantil e no quarto ao lado do nosso, dormia um casal homoafetivo. Ela tinha entre 1 e 2 anos nessa época e sempre soube que eles eram companheiros. 

Ana Cláudia e Cecília, com os filhos adotivos:
Laura, Ezequiel e André.

Ao contrário do que prega o senso comum, ela nunca presenciou pornografia, palavras obscenas, gestos sexuais ou algo do tipo. Éramos uma família e ninguém nunca precisou explicar para ela: "Olha, sabe fulano e cicrano? São gays, eles são namorados". Quando um chegava, ela perguntava pelo outro. Gostava dos dois, assim como gostava de brincar com os dois. Quando meus pais se separaram, ela passou a ouvir conversas paralelas na casa dos avós e um dia perguntou a meu pai: "Vovô, cadê seu namorado?". Meu pai se ofendeu e todos reagiram com estranhamento. Mas, ao contrário do que pediam os olhares indignados da família, não briguei com ela. Expliquei que o vovô não gostava de ser questionado sobre seu namorado ou sua namorada. Meu pai é desses senhores que jamais aceitariam um casal gay, quanto mais ser um. Mas, para mim, é perfeitamente normal que ela pense que o vovô possa ter um namorado e eu não queria dizer a ela que de alguma forma ela estava errada em perguntar isso. 

Da mesma forma, estávamos um dia chegando ao ponto de ônibus, quando duas amigas se despediram com um abraço e uma delas subiu no ônibus. Ela se virou para a moça que ficou no ponto e perguntou: "Sua namorada vai pra onde?". A menina respondeu que eram amigas, e que a amiga estava indo para casa. Expliquei que não são só namorados ou namoradas que trocam carícias e o ponto positivo dessa cena um pouco constrangedora foi perceber que ela tinha em sua mente um conceito de naturalidade que incluía relações homoafetivas, ou seja, que ver e conviver com casais gays era algo completamente natural para ela. 

Mas não podemos colocar nossos filhos na bolha do nosso estilo de vida. Na escola, no parquinho do condomínio, ela aprende que "o certo é homem casar com mulher" e já chegou ao ponto de pedir insistentemente que eu e o pai nos casássemos, porque "ela quer muito". Mesmo explicando para ela que mamãe não gosta de se casar e não vai se casar, ela responde que "vocês têm que se casar". Eu chamo isso de "ofensiva moral". É o processo através do qual os nossos filhos chegam em casa "contaminados" pelo bombardeio moralista que tanto criticamos. Isso vem de espaços institucionais de moral conservadora, como a escola, a família etc. Não há como evitar, mas combatemos. 

E aqui assumo um erro: por ter percebido em algum momento que, para ela, não havia tabus, "baixei a guarda" e paramos de mostrar exemplos, de conversar sobre isso... deixamos as águas do rio correrem e nos esquecemos que sempre vai existir a ofensiva moralista para desconstruir tudo aquilo que ensinamos. Mas somos insistentes. Mamãe e papai nunca vão se casar e homens podem se casar com homens e mulheres podem se casar com mulheres. Ou podem namorar, sem casar. "Podem o que quiserem", é uma frase que procuro usar sempre em diálogos que envolvem relações de gênero. 

segunda-feira, 16 de junho de 2014

De qual lado está o assustador?

O corpo humano é tão frágil e tem seus limites como qualquer tecido que a qualquer momento pode desfiar ou se romper. De modo que, a todo tempo nos deparamos com situações e histórias que envolvem pessoas tentando se reerguer e normalizar suas vidas depois de acidentes ou tragédias - ou tentando adaptar seus corpos para isso. Supõe-se que esse tenha sido o pensamento de Kelly Mullins ao levar sua filha de 3 anos, Victoria, para jantar em um restaurante alguns dias depois de a menina ter sido submetida a várias cirurgias para recuperar o máximo possível de sua face após ela ter sido mordida por três cachorros na cidade onde mora, no Mississipi, EUA.

Depois do acidente, a garotinha "perdeu a visão do olho direito, quebrou a mandíbula, o queixo e o nariz e teve cortes profundos na bochecha". Depois de uma tragédia como essa, o que resta à família de uma criança de três anos além de acompanhar os tratamentos e procedimentos cirúrgicos necessários à recuperação física e psicológica da menina? Retomar aos poucos a rotina, suponho. O cotidiano de uma criança de 3 anos, que está fortalecendo vínculos com a família, parentes e amigos, começando a descobrir o mundo, as pessoas, a maneira como as coisas funcionam e o que pode lhe trazer prazer, suponho eu como mãe.

A pequena Victoria
Então, o que faz uma mãe retirar de casa sua filha recém-operada, mesmo se alimentando apenas por um tubo, para ir comer em um restaurante? Por que ela não pediu a comida por telefone? A meu ver, a resposta é muito simples: proporcionar à filha o direito de retomar a sua vida, a sua rotina, os seus hábitos, ajudá-la a perceber que é possível se recuperar de um acidente e de várias cirurgias mantendo programas familiares ou hábitos de lazer que se mantinham antes ou até mesmo coisas novas. Mas parece que é muito difícil para alguns terem a sensibilidade de perceber isso.

Segundo matéria de O Globo, "Victoria saiu com a sua mãe para jantar em um restaurante da rede de fast food KFC. Após ter de tomar chá gelado e ingerir purê de batata por um tubo, a menina foi interpelada por um funcionário do estabelecimento, que pediu para que as duas se retirassem do local. O motivo, segundo ele, era que a cena estava "incomodando" outros clientes".

Eu não estava lá para ver a cena, mas duvido que existisse ali algo além de uma cena familiar, em que uma mulher ajuda a sua filha de 3 anos recém-operada a comer, porque é óbvio que isso requer mais cuidado do que o usual. Pode até ser uma cena inusitada ou que chame a atenção, mas o olhar "assustado" que se parece direcionar a uma criança recém-acidentada e operada denuncia a maneira como boa parte de nós ainda vê outros seres humanos com limitações físicas - de maneira inquisidora, como se estivesse diante de uma "aberração", uma coisa "abjeta", "não-humana". E que por tudo isso, "deve estar longe de meus olhos e da minha presença".

Quem de nós pensa o quanto é duro para uma mãe ter que explicar à sua filha que as pessoas querem ela longe dali porque é assustador que ela tente retomar a sua rotina e seus hábitos na frente daqueles que se acham perfeitos ou livres de qualquer limitação física, de qualquer deformação que possa vir a ocorrer após um acidente? Assustador é que, ao invés de a empresa, através do funcionário, ter ido interpelar a família para expulsá-la do local, não tenha questionado se havia ali a necessidade de um atendimento especial ou personalizado, ou se elas precisariam de mais alguma coisa além o que já havia sido oferecido como atendimento.

Então vemos questionamentos do tipo "Se a menina estava com o rosto daquele jeito, por que a mãe não pediu comida por telefone e comeu com ela em casa?". Será que é essa a pergunta que devemos nos fazer? Quando vejo esse tipo de reação a um episódio como esse, constato que é cada vez mais difícil a luta de quem tenta viver e criar filhos em meio a uma humanidade tão desumana e tão desanimadora.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Não foi você

Pela primeira vez em dois anos, caímos da bicicleta eu e Maria Joana (em sua cadeirinha). Tinha ido buscá-la na escola e, ao desviar de um carro parado na rua, o peso da mochila dela forçou a cestinha para o lado e eu acabei perdendo o equilíbrio. O guidom entortou e então ficou difícil levantar a bicicleta e tirá-la da cadeirinha ao mesmo, enquanto ela chorava. Mas deu para verificar rapidamente se havia algum machucado mais sério. Apenas alguns arranhões de leve.

Estávamos próximas a um ponto de ônibus com várias pessoas esperando, e ninguém saiu da sua rotina milimetricamente calculada para nos ajudar. Meu nervosismo diminuiu quando vi dois adolescentes correndo da esquina para nos ajudar. Eles então seguraram a bicicleta para que eu a retirasse da cadeirinha, enquanto uma senhora com duas crianças pequenas nos ajudou a recolher as coisas do chão.

Pedi para que eles encostassem a bicicleta e peguei ela no colo, tentando acalmá-la. Com muito esforço, consegui engolir o choro de medo e ao mesmo tempo de alívio, porque eu sabia que se ela me visse chorando, ficaria nervosa. Estávamos perto do ponto de ônibus e por ser uma rua onde costumam passar cavalos também, fiquei com medo de ela ser atropelada no momento da queda, mas felizmente isso não aconteceu. Após alguns minutos, ela já estava tranquila, então a coloquei de volta na cadeirinha, garanti que a queda não iria se repetir e seguimos adiante, enquanto eu empurrava a bicicleta de lado.

No meio do caminho, parei a bicicleta e pedi desculpas pela queda e por tê-la machucado. Ela então tirou os dedinhos da boca e respondeu: "Não foi você não, mãe, foi a bicicleta", enquanto esticava a mãozinha pra me alisar. Naquele momento, era eu que estava sendo consolada e o choro que eu tinha engolido antes acabou descendo. Voltamos para casa enquanto eu me perguntava como cabia tanta compreensão, tanta paciência e sabedoria em um ser tão pequenininho... assunto encerrado, voltamos para casa.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

(Não) era só uma pedra

Maria Joana brincava na grama da UFS enquanto eu participava de uma roda de conversa sobre proibicionismo e feminismo. Pedras, plantas, folhas e os gatinhos são a junção de tudo o que ela gosta quando vamos à universidade. Então ela elegeu uma pedra um pouco grande e guardou consigo. Disse que iria levar como presente de aniversário para a prima - que realmente aniversariava no mesmo dia.

Acabada a roda, voltávamos para casa de bicicleta quando, antes mesmo de sair da universidade, percebi que ela mordia alguma coisa. Perguntei o que era e ela permaneceu calada, disfarçando. Parei a bicicleta e, quando olhei para trás, percebi que ela estava com a pedra toda dentro da boca. Num misto de nojo e reprovação, peguei a pedra e joguei longe: "Minha filha, eu não acredito que você colocou isso na boca. Não faz mais isso, vamos pra casa". E voltei a pedalar, embalada pelo choro desesperador dela em busca da pedra - durante todo o percurso, que dura cerca de 15 minutos.

Ouvi a mesma frase incontáveis vezes: "Nós temos que voltar pra pegar aquela pedra, que é a pedra da minha vida e de todo o mundo que eu vou dar pra Caquinha", enquanto eu pedalava fingindo que não ouvia nada e respirando fundo. Voltei o caminho todo calada, enquanto ela gritava muito e repetia a mesma coisa. Se eu disser que não fiquei com raiva, estarei mentindo. É óbvio que qualquer pai e qualquer mãe respira bem fundo pra não agir por impulso e gritar ou bater numa hora como essas. Que pessoa gosta de ter nas suas costas a responsabilidade de controlar uma crise de choro de uma criança, ao mesmo tempo em que fica constrangida no meio de uma cruz inquisidora, com todos ao redor olhando com ares de julgamento?

Mas tentei seguir calada, tranquila e esperando chegar em casa para que enfim pudéssemos conversar. Mas ao chegar em casa, ela deitou na cama e chorou até dormir. É nesses momentos que a gente começa a refletir sobre a situação, pensa se poderia ter agido diferente em algum momento, se pergunta se havia alguma decisão correta a tomar, se não seria melhor ter sido mais rígida na autoridade... um misto de culpa, cobrança e autopunição que só nós conhecemos bem.

Então me lembrei das inúmeras vezes que chegamos em um lugar e ela sempre estabelece uma relação de amizade com as pedras, sai catando todas possíveis e quer levar pra casa. Sempre quer presentear alguém com uma pedra e guarda com carinho até encontrar a pessoa que ela quer presentear. Certa vez, fomos a um cinema da cidade que tem várias pedrinhas coloridas no chão e ela ficou encantada com aquilo. Uma amiga minha então perguntou se eu já tinha ouvido falar nas crianças cristais e disse que minha filha parecia ser uma dessas. Depois compreendi que a criança cristal é um anjo de luz que irradia sensibilidade com relação a tudo em seu meio: plantas, animais, cheiros, conflitos etc. São sensitivas e estão em eterna comunhão com a natureza. Claro que não estamos falando em ciência, pediatria ou algo empírico-positivista, mas numa questão de fé ou algo igualmente subjetivo.


O fato é que sempre admiro a relação que minha filha estabelece com a natureza e refletindo sobre aquele momento, penso que poderia ter agido diferente. Para mim, era uma pedra nojenta que ela havia colocado na boca. Para ela, era mais que uma pedra: ela já tinha estabelecido a relação dela com aquela pedra específica e já havia se tornado um presente para a prima. Continuo achando que agi corretamente ao retirá-la da boca, mas poderia ter guardado na cestinha da bicicleta. Pode parecer uma bobagem, mas acho que poderia ter tido uma atitude menos brusca.

Não tínhamos compromisso, não estava com pressa, estávamos indo pra casa e tínhamos o resto do dia livre. Não seria nada de mais parar a bicicleta, conversar numa boa e ter mais paciência. A gente sempre quer ter paciência, mas penso que a maternidade é um exercício diário. Erramos, aprendemos e talvez mudamos. Sempre penso que posso ter mais paciência e melhorar o diálogo. Depois que ela se acalmou e tirou um cochilo, a chamei para conversar e pedi desculpas, disse que não queria ter jogado a pedra fora, mas agi meio nervosa ao vê-la com a pedra na boca. Ela também pediu desculpas, disse que não ia mais fazer, mas pra cortar meu coração, perguntou: "E agora, o que vamos fazer sem a pedra?".

sábado, 10 de maio de 2014

Não deseje Feliz Dia das Mães para mães sem direitos

Esqueça as mães da C&A, Renner, Boticário, Natura e similares. Aquelas mulheres brancas, bem maquiadas, de cabelos alisados, roupas claras, sempre meigas e emocionadas com o presente mais caro das lojas nem de longe representam o sofrimento de tantas mães que vivem em um país economicamente desigual, machista, racista, preconceituoso e penal como o Brasil.

Charge de Carlos Latuff.
Enquanto as mães de classe média destacadas pelas colunas sociais como "bem nascidas" publicam fotos alegres com suas famílias em fartos almoços do Dia das Mães, outras mães continuam chorando e lutando para que os preconceitos de uma classe média "bem nascida" parem de pedir mais polícia que matam seus filhos e suas mães, para que mega eventos e projetos de desenvolvimento bem alardeados pela mídia parem de expulsá-las de suas casas e para que um dia possam simplesmente viver.

Manifestantes no ato "A paixão de Cláudia", em homenagem
a Cláudia Ferreira no dia 18 de abril, em São Paulo. 
Enquanto defendermos a luta armada contra as drogas e a ação policial militarizada nas favelas, não temos o direito de desejar Feliz Dia das Mães aos filhos de Cláudia Ferreira da Silva e à mãe de Douglas Pereira (DG). Enquanto ensinarmos aos nossos filhos noções de intolerância religiosa como a ideia de que religiões de presença africana são "coisa do demônio", seremos eternamente cúmplices de mitos e boatos preconceituosos que motivam a "caça às bruxas" que culminou na morte de Fabiane de Jesus, acusada de praticar "magia negra". Uma cultura que é intolerante às diversas formas de crença e alimenta boatos como esse para criminalizar outras religiões não terá nunca o direito de desejar Feliz Dia das Mães às filhas de Fabiane.

Maria de Fátima (mãe de Douglas Pereira) e Deize Carvalho (mãe de André Luiz)
perderam seus filhos pela violência do Estado.

Jaílton e as filhas Yasmin e Ester - família de Fabiane Maria de Jesus,
assassinada por um mito que cerca a intolerância religiosa.
Foto: Marcos Alves/O Globo.
Enquanto fecharmos os olhos para o extermínio da juventude negra nas periferias, não temos o direito de desejar Feliz Dia das Mães a nenhuma mulher negra e pobre, que todos os dias dorme e acorda com medo de seu filho ser linchado, "confundido com um bandido" e não voltar mais para casa. Enquanto defendermos que "bandido bom é bandido morto", sem que as pessoas tenham o direito de se defender legalmente, seremos eternamente cúmplices da violência urbana e estatal, contra culpados e inocentes.

Mãe tenta defender seu filho da ação policial nas favelas.
Foto: Eduardo Naddar/Agência O Dia
Uma nação que toma Rivotril para dormir, mas acha que maconha é droga e que seu uso deve continuar sendo crime, não tem o direito de desejar Feliz Dia das Mães a Selma Ferreira, que perdeu seu filho Vitor Hugo, de 12 anos em Cuiabá, Mato Grosso. Com crises sucessivas de epilepsia, Vitor dependia de um medicamento feito à base de canabidiol (CBD), substância encontrada na cannabis sativa (popularmente conhecida como maconha) para sobreviver. Mas, depois de percorrer consultórios em busca de médicos que aceitassem prescrever o remédio e órgãos jurídicos em busca de liberação para a compra do medicamento, Selma teve que enterrar seu filho na semana passada. Selma não teve o direito de medicá-lo porque vive em uma sociedade que se julga no direito de dizer a ela que o uso da maconha é crime. Mas essa mesma sociedade, cheia de valores e de "cidadãos de bem preocupados com a lei", não tem o direito de desejar a ela Feliz Dia das Mães.

Selma Ferreira não conseguiu a liberação do medicamento a tempo de salvar seu filho.
Foto: Anselmo Carvalho Pinto
Essa mesma sociedade que apoia a ação militar contra as drogas não tem o direito de desejar Feliz Dia das Mães a nenhuma das mulheres guerreiras que dão a cara pra bater e levam seus filhos à Marcha da Maconha, porque querem ter o direito de viver em uma sociedade livre e poder medicar seus filhos, para evitar a próxima convulsão.

Ala das mães na Marcha da Maconha do Rio de Janeiro.  
Foto: Fernanda Rouvenat/G1
Enquanto defendermos as ações de desenvolvimento econômico que esbarram em direitos sociais, não temos o direito de desejar Feliz Dia das Mães às Mães da Maré, às Mães de Itaquera, às Mães do Pinheirinho, às Mães Quilombolas, às Mães indígenas e todas aquelas que lutam pra ter um pedaço de terra pra plantar e uma moradia decente. Mas são ignoradas pela "necessidade" de modernização e de megaeventos como a Copa do Mundo.

Famílias montam barraca na Ocupação "Copa do Povo", em Itaquera.
Foto: Peter Leone/Futura Press.
Enquanto você defender a ação militarizada da polícia contra os jovens pobres e negros, enquanto defender que a diversidade religiosa é coisa do demônio, que as mulheres que usam roupas curtas merecem ser estupradas, que o uso de maconha deve continuar sendo crime, que os cabelos crespos são "ruins" e devem ser alisados, eu e minha filha seremos eternamente estigmatizadas pelo seu preconceito. Por isso, não me deseje Feliz Dia das Mães com um sorriso racista, machista, preconceituoso e elitista. Você não tem esse direito.


segunda-feira, 21 de abril de 2014

As dores do parto no Brasil

As inúmeras denúncias de descaso no atendimento ao parto no Brasil e de violência obstétrica, além de dados alarmantes, são o fio condutor da reportagem de capa do jornal Brasil de Fato desta semana - 16 a 20 de abril de 2014. A série As dores do parto no Brasil elucida, através de seis matérias, mitos, medos, absurdos e o sinistro panorama do ato de parir em hospitais e maternidades públicas de todo o Brasil.

"Nos últimos 60 ou 70 anos, o que será que aconteceu para que nós, mulheres, deixássemos de acreditar que somos capazes de parir sem grandes intervenções externas?", engata a enfermeira obstétrica Edymara Medina, da Casa de Parto David Capistrano Filho, no Rio de Janeiro.


Foto: BBC
Dados

Os dados divulgados pela série de reportagens são assustadores:

- Entre 70% e 80% das brasileiras que passaram pela cesárea desejavam, na realidade, partos vaginais, segundo o artigo Unwanted caesarean sections among public and private patients in Brazil;

- O Brasil possui a maior taxa de cesarianas do mundo - 52,3%, sendo 38% no setor público e 80% no setor privado. A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera que a taxa razoável é de 15%.

- 25% das brasileiras relataram ter sofrido algum tipo de violência durante o atendimento ao parto - atitudes que incluem xingamentos, gritos, realização de procedimentos dolorosos sem aviso ou consentimento e o impedimento da presença de acompanhane, garantida pela legislação brasileira.

- A mortalidade materna no Brasil é de 78 para cada 100 mil nascidos vivos, segundo dados do Ministério da Saúde (MS) - na Suécia, esse número é de 4 para cada 100 mil.

- A mortalidade neonatal no Brasil é de 10 mortes para cada mil nascidos vivos - número de 2011 -, segundo a Revista Poli - Saúde, Educação e Trabalho).

As "desnecesáreas" e a situação no Brasil



Foto: Zanone Fraissat/Folhapress
Em uma das matérias, intitulada "O problema das 'desnecesáreas", os relatos dos médicos são claros quanto às razões pelas quais o Brasil é campeão tanto no tocante à realização de partos cesareanos desnecessários quanto à concretização da chamada violência obstétrica. "Sabemos que um trabalho de parto pode levar mais de 12 horas. Em geral, os planos pagam R$ 300, R$ 400 ou até menos para o médico acompanhar um parto, enquanto, na cesárea, ele ganha praticamente o mesmo valor para no máximo duas horas de trabalho", afirma a obstetra Vera Fonseca, conselheira do Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro (Cremerj).

Mas a questão financeira não é o único combustível que move os médicos e sua relação com os pacientes. A comodidade e a praticidade também têm seus valores embutidos no pacote. "Uma gestante normalmente terá seu bebê entre as 37 e 42 semanas de gravidez. Se o médico tem quatro gestantes por mês - e, normalmente, há muito mais que isso -, não tem um fim de semana em que pode tomar uma cerveja, viajar, porque qualquer uma delas pode entrar em trabalho de parto. E o médico é um ser humano: come, dorme, viaja, tem família. É claro que, mesmo sendo uma conduta errada, ele vai acabar tentando acomodar o parto dentro de sua agenda", reflete a também obstetra Carla Polido, professora na Faculdade de Medicina da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

Modelo hospitalizado e intervencionista



É incontestável que o sistema de atendimento médico no Brasil reflete um modelo altamente intervencionista, hospitalocêntrico e medicalizado. A obstetra Carmen Diniz (autora da tese de doutorado Humanização: os muitos sentidos de um movimento) explica que a execução desse modelo no Brasil inclui uma série de usos 'irracionais' da tecnologia no parto - isto é, o uso abusivo de intervenções de alto custo e que não melhoram em nada os resultados. Por sua vez, a também obstetra e professora da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), Melania Amorim, admite que o intervencionismo é a base da formação médica no Brasil.

"Tive uma formação intervencionista, como a maioria dos colegas. Quando entrei no mestrado, comecei a estudar profundamente práticas que vinha exercendo há muito tempo. Precisei 'sair' um pouco da medicina e estudar antropologia e filosofia para entender isso", diz a obstetra, que cita a episiotomia (corte realizado no períneo da mulher, com a justificativa de facilitar a saída do bebê) como uma dessas práticas. "Fui estudar como esse procedimento surgiu e me assustei ao descobrir que ele nasceu de forma arbitrária, sem nenhuma evidência de que fosse efetivo, e passou a ser difundido no século 20 com base na crença de que nosso corpo é essencialmente defeituoso e há a obrigatoriedade da intervenção", completa Melania.


Episiotomia

Menos intervenções


Países como o Canadá, a Alemanha, a Suécia e a Holanda apresentam indicadores que, de longe, são melhores do que os do Brasil no que se referem ao parto e à assistência médica. Mas, o que há de diferente entre cada território? Segundo a reportagem intitulada "Experiência internacional", são países com modelos menos intervencionistas nos cuidados com o corpo e a saúde da população - o que se reflete na hora de parir.

"Uma pesquisa publicada na British Medical Journal analisou 150 mil holandesas que pariram entre 2004 e 2006 e mostrou que, em casa (com partos assistidos por profissionais), ocorreu uma complicação a cada mil nascimentos, enquanto, no hospital, foram 2,3 por mil. A assistência obstétrica no país é realizada por parteiras - cuja formação, no Brasil, corresponderia à de obstetrizes ou EOs - que só encaminham a parturiente para o cuidado médico em caso de complicações. A taxa de cesariana no país e de 15%".

Segundo a obstetra Melania Amorim, a diferença principal entre os médicos e as enfermeiras obstetrizes (pelo menos no Brasil) está na formação. Enquanto o médico é formado para encarar a gestante como um corpo patológico e que necessita de intervenções extremas, a obstetriz tem uma visão do parto mais fisiológica e estuda disciplinas como Antropologia, História e Sociologia na sua formação básica. "Essa base faz toda a diferença", diz Melania.

Parto extra-hospitalar


Foto: Kalu Brum
Para muitos médicos brasileiros, o parto realizado fora do hospital é considerado perigoso, segundo a matéria intitulada "Conselhos de Medicina contra as evidências". Os depoimentos de alguns médicos são, inclusive, assustadores: "A OMS [...] dá essas ordens porque lá na África eles estão longe de ter um médico para cada milhão de habitantes. Então a OMS acaba falando isso, que pode ter qualquer um para ajudar no parto. [...] Ela não está preocupada com países ricos, desenvolvidos, mas com o que acontece na África", afirma a obstetra Vera Fonseca.

A jornalista (Raquel Torres) questiona se ela conhece a atuação das parteiras em países considerados ricos e desenvolvidos, ao que ela responde: "Sim, mas não podemos comparar Finlandia e Suécia com o Brasil. Primeiro pela própria quantidade de nascimentos, que é menor. E segundo, porque as estruturas dos lugares onde se faz isso [Casas de Parto ou domicílios] é muito melhor, tem o fator da proximidade do hospital. [...] No Brasil tem engarrafamento. Como é o trânsito na Suécia?", questiona a obstetra.

Sem a presença de médicos, as Casas de Parto recebem as gestantes através das enfermeiras obstetrizes e das obstetrizes - são consideradas uma das alternativas possíveis para a humanizacao do parto no Brasil. Segundo a tese de Carmen Diniz, há estudos que comprovam que as Casas de Parto são um recurso seguro, com boa aceitação pelas mulheres e os desfechos são bastante positivos - cerca de 10% das gestantes precisam ser transferidas durante o trabalho de parto.

Desapossamento
As mulheres sempre foram protagonistas dos cuidados com o seu próprio corpo. Até poucos anos (a geração de nossas avós, por exemplo), a maioria dos partos eram realizados em casa, com a ajuda de parteiras e sem nenhuma intervenção médica/hospitalar - foi assim que nossas mães nasceram. No artigo intitulado "Os silêncios do corpo da mulher", Michelle Perrot explica o processo de desempossamento do próprio corpo para a medicina e, mais especificamente, a medicina ginecológica e obstetrícia.

"Primeiramente, elaboram-se novos saberes sobre o corpo. Nesse aspecto, a mulher tinha vastos conhecimentos empíricos dos quais era depositária, ela se encarregava dos cuidados do corpo, da saúde e da doença, do nascimento à morte. Exercia um poder médico considerável, por vezes temido, a ponto de ser uma das acusações apresentadas contra as feiticeiras, objeto de verdadeiras perseguições na França e na Europa, sobretudo no século XVII."



Foto: Zanone Fraissat/Folhapress

Medidas para conter o declínio da natalidade em países como a França, o disciplinamento do exercício da maternidade por parte de uma nova pediatria (principalmente no quesito amamentação) e o recuo da mortalidade infantil e materna são novos fatores considerados vantajosos e benéficos à coletividade. No entanto, a mão da medicina interventiva retirando da mulher o poder sobre seus próprios cuidados tem outros fatores por trás de si.

"[...] elas (as mulheres) provaram uma sensação de desapossamento e de submissão a uma ordem médica masculina que também se propunha a controlá-las."

Empoderamento do corpo

Casos mais recentes, como o de Adelir Carmem Lemos de Góes, 29 (moradora de Torres, no Rio Grande do Sul, que foi obrigada pela Justiça a realizar uma cesárea), são sintomáticos no tocante ao nível de intervenção médica e hospitalar sobre o corpo da mulher e, principalmente, da mulher grávida. A Justiça, o Estado e o corpo médico apropriam-se de uma maneira inquestionável sobre "a vida" e "os direitos" do nascituro de maneira a invadir os desejos, vontades, anseios e direitos da própria parturiente.

Foto: Avener Prado/Folhapress
Ao mesmo tempo, outro caso mais recente ainda, uma jovem procurou o Hospital Maternidade de Santo Amaro, na cidade de mesmo nome, no interior da Bahia, e encontrou as portas fechadas. Sem opção, teve que parir na calçada, enquanto outras pessoas batiam na porta da maternidade, sem êxito.  A grande contradição do sistema hospitalocêntrico no Brasil é essa disparidade de assistência: ao mesmo tempo em que obriga as mulheres - e, principalmente, as parturientes - a se adequarem ao modelo intervencionista de parto atualmente em vigor, apresenta uma das piores estruturas e inegável precariedade no atendimento médico.

Por isso, ao contrário de uma época em que a maternidade era negada como pauta necessária de diversos movimentos feministas, hoje o parto humanizado e a luta contra a violência obstétrica são centrais em vários coletivos de mulheres, mães e feministas. Apropriar-se do próprio corpo, retomar o protagonismo do conhecimento e dos próprios cuidados com a saúde hoje são bandeiras do feminismo contemporâneo. Não é à toa que o questionamento quanto às desnecessárias intervenções no parto têm partido de obstetras mulheres - totalidade das fontes de informação da série de reportagens do jornal Brasil de Fato divulgada essa semana. Também não é à toa que o movimento de formação de doulas tem se tornado cada vez mais forte no Brasil e rodas de gestantes, realizadas em vários estados, têm se encarregado de cumprir um trabalho que, infelizmente, ainda é considerado exclusividade médica: disseminar informações e estimular o conhecimento sobre o próprio corpo.



Foto: Zanone Fraissat/Folhapress
E, para esclarecer, não se trata aqui de negar a importância da medicina nos cuidados com o corpo e com a saúde, mas de minimizar a medicalização desnecessária que tem caracterizado a atenção à saúde nos tempos atuais. Como afirma a própria enfermeira obstetriz Edymara Medina na série de reportagens do Brasil de Fato, "não se trata simplesmente de voltar ao passado e deixar que as mulheres tenham seus filhos sem assistência adequada ao parto, mas sim rever certos procedimentos que se mostram ineficazes e desnecessários".

Obs.: As imagens de protesto foram registradas no ato "Somos todas Adelir - Ato contra a violência obstétrica", realizado em frente à Faculdade de Direito da USP, no Largo do São Francisco, após o caso Adelir, forçada a fazer uma cesariana na cidade de Torres, no Rio Grande do Sul.
 
 

quinta-feira, 27 de março de 2014

Quando a "boa" intenção pode perpetuar opressões

Está rodando pelo mundo livre da internet um ensaio fotográfico realizado pela russa Irina Popova na casa e no cotidiano da família de Lilya, em São Petersburgo. Ela teria encontrado a mulher embriagada pelas ruas empurrando a filha Asfina em um carrinho de bebê. Não tive acesso ao ensaio completo, que teria virado um livro chamado "Another Family", apenas a uma seleção de fotos que está sendo disseminada pela internet.

O que parece ser a intenção de Popova é mostrar os dilemas e sofrimentos de uma pequena garotinha que vive em meio a pessoas viciadas - mesmo que ela não deixe claro de que vícios estamos falando. Em primeiro lugar, quando nos referimos a usuários de drogas que não as usam por lazer e sim, por dependência, chamamos de dependentes químicos, e não de viciados, uma palavra historicamente pejorativa. As palavras têm poder e a nomenclatura utilizada pra classificar os personagens que ela retrata já reflete a visão de mundo dela sobre o assunto.

O estigma da nudez


Sem compreender a que tipo de droga a fotógrafa se refere, fica difícil fazer qualquer interpretação acerca do cotidiano da família e da criança. Mas, atendo-se à análise das fotos, o ensaio pode soar um tanto estigmatizante. A foto que mais me chocou é uma em que o casal está deitado e o homem está nu com a criança por perto, observando. Então eu penso: em uma sociedade onde, por um lado, o corpo humano despido é cada vez mais erotizado e muitos, por outro lado, tentam naturalizar a nudez, em que medida essa foto contribui para o estigma daqueles que buscam viver à vontade e mostrar um corpo natural ao seu filho, sobrinho ou enteado? Qual a diferença entre as fotos abaixo? Será que a diferença está mais na maneira como os adultos se despem na frente das crianças ou na maneira como essas condutas são retratadas pela fotógrafa? Ou nas técnicas de embelezamento ou "poética" do momento captado? Há alguma diferença entre a luz utilizada na foto criticada e nas outras, consideradas bonitas e poéticas?

Foto de Irina Popova para o livro "Another Family"
Foto de Anastasia Chernyavsky com os filhos.

Foto de Andrea Lima para o projeto "Nu cotidiano"

O estigma do "diferente"


Foto de Irina Popova para o livro "Another Family"
Maria Joana e o pai, brincando no chão.
Ele tem um piercing na língua e usa dreadlocks.
Se você tem tatuagens, muitos dizem que você é "diferente". Se você usa o cabelo colorido ou rastafari, quantos dizem que você é "diferente"? Se você tem um hábito alimentar vegetariano, que é algo tão simples, comum e compreensível, as pessoas já dizem que você é "diferente". O que é ser "diferente"? A princípio, aquilo que não é igual. Mais ainda, aquilo que foge aos padrões convencionais do que "deve ser" uma pessoa ou uma família em determinada cultura. Ao chamar o livro de "Another Family" - "Outra família", na tradução literal -, a fotógrafa já está deixando claro o seu próprio julgamento acerca de uma família que ela considera fora dos padrões "normais" de uma família.

Será que uma família que usa drogas é tão "diferente" assim? De que família estamos falando? Essa família é "diferente" em relação a que tipo de família? Será que não conhecemos nenhuma família aparentemente "normal" na qual a mãe ou o pai usa álcool ou rivotril, ou até mesmo maconha e cocaína? Isso lhes retira a condição de ser uma família?

A única foto em que é possível ver claramente alguma droga, vemos um cigarro, legalizado e vendido livremente em farmácias, padarias e supermercados.

Foto de Irina Popova para o livro "Another Family"
 E mais, nas fotos vemos claramente pessoas tatuadas, com cabelos coloridos e estilos considerados "diferentes". Em que medida esse ensaio contribui também para a estigmatização das pessoas consideradas "diferentes" por seguirem outros estilos de vida? Na foto abaixo, vemos claramente uma parede pixada e uma mãe com cabelos coloridos, tatuada e com roupas consideradas "diferentes" do que uma mãe "deveria usar" segundo a nossa cultura. O último aspecto que vemos é um gesto de carinho que ocorre na foto.

Foto de Irina Popova para o livro "Another Family"
Por fim, em uma das fotos o casal troca carinhos enquanto a menina olha. Isso é tão estranho assim? É absurdo um casal trocar carinho na frente da criança? Ou alguém consegue ver alguma conotação sexual na imagem abaixo?

Foto de Irina Popova para o livro "Another Family"
E mesmo as fotos onde não há nada de aparentemente "cruel" ou "degradante", a fotógrafa optou por utilizar uma luz baixa, que claramente perpetua o estigma do "sujo", "obscuro", bem característico dos lugares que usuários de drogas frequentam - no imaginário de muita gente, que isso fique claro.

Foto de Irina Popova para o livro "Another Family"

Foto de Irina Popova para o livro "Another Family"
Além do mais, uma foto claramente recortada busca mostrar a mãe voltando de uma festa de madrugada empurrando o carrinho da filha. Será que não existem casais que voltam de madrugada de festas na casa dos amigos com os filhos nos braços? Quantos de nós voltam de madrugada com a criança dormindo no carro e depois levam no braço até a cama? Qual a diferença das fotos abaixo?

Foto de Irina Popova para o livro "Another Family"
Eu e minha filha numa festa de Reveillon,
na porta da casa de uma amiga. Estamos na calçada.

Embora a foto esteja desfocada, vê-se claramente a mesa cheia de bebidas,
os amigos ao redor e eu e minha filha lá no canto.
Em outra foto, vê-se a menina pendurada na janela correndo o risco de cair, mesmo que a janela contenha uma rede de segurança. Supostamente, a intenção da fotógrafa é mostrar a desatenção dos pais viciados quanto à criança. Será que desatenção e perigos são exclusividade de "pais viciados" ou nenhum de nós, no exercício de pai e mãe, teve um momento de distração que expôs a criança a um risco? Será que nenhum de nossos filhos têm marcas, cicatrizes e feridas de momentos nossos de distração em que eles se arriscaram a ir descobrir mais longe do que o usual? Qual a diferença entre as fotos abaixo?

Foto de Irina Popova para o livro "Another Family"




A diferença é que as últimas são compartilhas pela internet com risos.


É possível ainda ver uma imagem retratando um momento de conflito do casal. Sem nenhuma hipocrisia, nenhum de nós têm conflitos com parceiros?

Foto de Irina Popova para o livro "Another Family"
Julgamento não é observação

Por fim, precisamos ter cautela ao observar 'o outro'. Antes que nossos dedos insistam em se hastear rigidamente contra aquele que consideramos "diferente", "errado", "cruel", "dregadante", alguns questionamentos devem ser colocados. De maneira alguma defendo que as crianças vivam em ambientes impróprios ao seu desenvolvimento e/ou insalubres. Muito pelo contrário. No entanto, antes de reivindicar que a família retratada usuária de drogas (mas não fica claro que drogas são e isso faz toda a diferença), por que não se reivindica a oportunidade de um tratamento digno àqueles que querem ter a criança ao seu lado? Será mesmo que vamos defender a segregação de famílias, o isolamento forçado pelo Estado e essa quebra brusca na rotina da criança que é a ausência repentina de qualquer contato com a sua família? Antes de lutar para que a criança não mais veja os pais, que independente do que usarem, fornecem um laço afetivo e emocional, será que não pode-se pensar na possibilidade de um acompanhamento profissional com todos juntos, reforçando laços e a própria sociabilidade?

As fotos divulgadas na internet finalizam com uma imagem da criança em uma escola e sob a guarda do pai. Mas não se fala quem é o pai, o que ele usa, qual a sua rotina e que tipo de relação e acompanhamento ele tinha com a filha quando ela morava com a mãe. Será que isso não faz diferença? Por outro lado, será que a fotografia abaixo não apresenta uma diferença com relação às outras com relação a uma luz mais "clara", a um recorte mais amplo e outros recursos fotográficos disponíveis para reproduzir a visão de mundo do fotógrafo? Não há uma diferença técnica (ou ideológica) entre as fotos abaixo, ambas de momentos aparentemente felizes e de integração?

Foto de Irina Popova para o livro "Another Family"
Foto de Irina Popova para o livro "Another Family"


quarta-feira, 5 de março de 2014

"Coisa de menino" e "coisa de menina": remando eternamente contra a maré

Não é nada fácil criar uma criança. Mais difícil ainda é exercer a pedagogia do que você acredita quando se rema contra a maré. Criticar, questionar e combater relações de gênero que consideramos opressoras ou humilhantes é um desafio diário, principalmente porque são os nossos ensinamentos em contraponto às observações da criança sobre outras pessoas a todo momento. Por mais que às vezes pensemos nisso, não dá pra criar os filhos numa bola de cristal e tudo aquilo que combatemos ou queremos evitar no caminho deles inevitavelmente aparecerá em vários momentos da vida. Portanto, melhor que evitar o embate é ensiná-los a lidar com isso e fazer suas próprias observações a partir das contradições que aparecem.

Há algumas semanas, venho percebendo que minha filha cria diálogos com as bonecas soltando frases como "isso é coisa de menina", "mulher não conserta nada" e, o mais grave de todos, "quero comer menininhas", com um fantoche do Visconde de Sabugosa na mão (logo o Sabugosa, gente). Entre as relações que ela desenvolve na escola, no parquinho do condomínio e com outras crianças da família, essas frases são mais do que comuns - são o reflexo do que muitas crianças aprendem em suas casas e em outros ambientes sobre o que seria a atribuição de tarefas "para mulher" e "para homens". Aquelas frases típicas que ouvimos na rua ou em eventos de família e não retrucamos para não criar mal estar.

Quando eu ouvi essa máxima colocada na boca do Sabugosa, parei o que estava fazendo no computador e me virei para ela. Olhos nos olhos, eu perguntei se ela acha que as "menininhas" são comida e se alguma vez na vida ela já viu uma pessoa comendo a outra. Expliquei que o que a gente come é o que se coloca na boca, como arroz, feijão, macarrão, tomate etc. As pessoas não são comida, elas brincam, amam, sorriem, vão à praia, mas não comem outras pessoas. Não tenho dúvidas que, ao soltar a expressão, ela não tinha noção do que significa a expressão "comer" nesse contexto, mas a conversa é válida para que ela não repita e exerça o combate sempre que a ouvir - com argumentos.

A velha questão das bonecas


A fotógrafa canadense Arlle Sebryk divulgou fotos de seus filhos brincando de boneca e diz que isso pode torná-los pais mais participativos
Por duas vezes, ela tentou brincar com dois amigos no parquinho dividindo suas bonecas com eles. Um deles, de cinco anos, se animou, propôs brincar de pai e mãe e saiu animado empurrando o carrinho da boneca. A mãe dele logo gritou e advertiu que quem brinca de boneca é menina, mas ele insistiu que queria. Não gosto de me intrometer na pedagogia alheia, mas pela proximidade que eu tinha com ela, me atrevi a opinar. Disse que achava isso uma bobagem, que ele não ia mudar em nada por brincar de boneca e que um dia ele poderia ser pai também, ou seja, a representação da paternidade na brincadeira não era absurda. Evangélica extremista, ela se limitou a dizer que não gostava. Respondi apenas que era uma pena cortar bruscamente a criatividade da brincadeira por algo que não valia à pena.


"A boneca de William", um livro de Chatlotte Zolotow,
fala sobre os dilemas de um menino que só queria ter uma boneca

Na outra oportunidade, com outro menino, ainda saíamos do apartamento, quando ela disse: "Vou pegar duas bonecas, uma pra mim e outra pra fulano". Eu já sabia a resposta que ela iria receber, mas não disse nada. Achei que ela tinha que receber a resposta e sentir a frustração para depois se indignar - algo que eu também sabia que iria acontecer. E aí sim, eu conversaria com ela. E foi exatamente assim: ela chegou animada chamando o menino de longe e falando que havia levado a boneca só pra brincar com ele. Ele olhou com cara de desdém e disse que não podia brincar de boneca. Como eu previa, ela ficou com raiva e veio falar comigo: "Mãe, fulano não quis pegar minha neném, não disse obrigado e não quer brincar comigo". Então lhe expliquei que as pessoas às vezes deixam de brincar com outras por motivos bobos, mas elas é que estão perdendo a oportunidade de viver bons momentos de diversão com pessoas tão generosas como ela. Que ela jamais se convença de que brincar de boneca é coisa de menina, porque não existe "coisa de menina" e "coisa de menino". E disse que ela poderia responder dessa maneira sempre que alguém dissesse o contrário.

A fotógrafa canadense Arlle Sebryk divulgou fotos de seus filhos brincando de boneca e diz que isso pode torná-los pais mais participativos

No livro "A boneca de William", de Chartlotte Zolotow, o personagem principal sofre um dilema porque gosta de brincar de bonecas. Se ainda hoje essa ideia incomoda tanta gente, imagina quando o livro foi escrito, em 1972. Em um país de ranço ainda tão machista e racista, por que não caminhamos no sentido de transformar certas práticas e alguns discursos pra finalmente promover algum elemento de igualdade? Questionamos a conduta de muitos homens que são desatenciosos, frios e não participam das tarefas domésticas, mas na hora de criar nossos filhos ensinamos que valores como carinho, sensibilidade e atenção são coisas de mulher.

Desconstruir essas relações enraizadas que criam caixinhas para encaixar "coisas de mulher" e "coisas de homem" é um exercício permanente. Mas a única 'arma' que temos contra toda essa opressão ideológica é o nosso próprio combate ideológico. E temos que ir até o fim!