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sábado, 2 de agosto de 2014

Sobre a fantástica amizade de criança

Amizade de criança é a coisa mais fantástica que existe na humanidade. Não precisa de muito: elas se encontram, se olham e basta a primeira correr. Pronto, uma não sabe o nome da outra, nem endereço, telefone, escola... não precisa perguntar nada. Basta aquele olhar cúmplice do tipo: "Brinca comigo?" na fila do supermercado, e dali a pouco uma já está chamando a outra pra continuar a brincadeira em sua casa. Às vezes nem isso: quando o pai ou a mãe, com a pressa esmagadora da rotina, chama: "Bora, filho", um tchauzinho com a mão termina de selar o momento, como se fosse um: "Foi bom, adorei, mas agora tenho que ir, a gente se encontra qualquer dia pela vida, ou quem sabe nunca, mas não tem importância. Fui!".

Não há olhares tortos para a roupa da outra, uma não quer saber se o chinelinho da outra é velho ou se a sandália está fora de moda, se a outra é gorda, se o cabelo está assanhado, se aquela calcinha bunda-rica (tem coisa mais fofa que essa calcinha?) foi comprada na C&A ou na Farm, não há julgamentos voltados às compras no carrinho, não acontece o famoso olhar "de cima para baixo", cuja principal função é tentar atribuir um status social àquela pessoa que se olha, acompanhado de comentários do tipo: "Você viu? Acho ridículo quem sai de casa com uma roupa daquela".


E então crescemos. Se não pudermos ficar com o cabelo mais bonito que o da vizinha, a vida não serve pra nada. Tudo só tem graça se pudermos ter o corpo da capa da Playboy, com direito a desqualificar a outra pra se sentir melhor: "Você viu quantas celulites ela tem? Nem é essas coisa toda". Divididas em "mulher pra casar" e "mulher pra pegar", aprendemos que o sucesso de uma vida depende do quanto conseguimos nos encaixar em padrões estabelecidos, em preparar a aparência de forma tal pra conseguir um homem, um emprego, ser 'a mais desejada' do condomínio, 'causar inveja' às outras da universidade, 'arrasar' na festa em que fulaninha vai estar. Aprendemos que relacionamento é troféu e, além de ser ostentado como objeto de felicidade e realização, também deve ser disputado a tapas com a "primeira biscate que se aproximar".

Torna-se impensável estabelecer qualquer relação de amizade e solidariedade com qualquer mulher, ainda mais a desconhecida na fila do banco. Por que será que as coisas mudam tanto? A partir de que momento deixamos de ser aquela pequenina simpática que se afeiçoa a qualquer outra que quiser partilhar um bom momento e passamos a nos degladiar, nem que seja "com os olhos"? E se fizéssemos um exercício de autocrítica, de reflexão, pra tentar entender o porquê de mudarmos tanto nesse sentido? E se a gente tentasse fazer diferente?


E se simplesmente passássemos a observar nossos filhos interagindo com outras crianças? Quanto será que poderíamos aprender com eles? Não, não estou dizendo que todos devem sair correndo com um desconhecido pela fila do banco - a não ser que você e o desconhecido queiram. Mas acho que seria interessante observarmos a facilidade que nossos filhos têm de sorrir, conversar, brincar, interagir de forma positiva com qualquer outro ao lado, sem razão alguma. Apenas sorrir, trocar um bom momento de conversa, de risada, de solidariedade, mesmo que você nunca mais veja aquela pessoa, mesmo que nem saiba o que ela faz da vida, com quem ela transa, se é casada, qual tipo de roupa ela usa e o que gosta de fazer nos finais de semana.

Apenas viver, partilhar a vida, tornar um momento chato como a fila, o engarrafamento, as pesquisas da feira, a meia-hora de caminhada na esteira da academia, o jantar de família que você não pode faltar, naquela lembrança que você sempre vai ter, de uma mulher tão simpática que contou uma história tão interessante que você nem viu as horas passarem. Percebemos que nossos filhos têm muito a nos ensinar quando nos sentimos "forçados" a interagir com os pais do amiguinho que tá brincando com eles.

sábado, 19 de julho de 2014

"Os vestidos de Frida" chegaram

A primeira vez que vi uma pintura da Frida Kahlo, fiquei paralisada. Não sabia o que a pintora queria transmitir, mas a primeira interpretação que fiz foi a de um corpo feminino aprisionado em uma espécie de dor. 

"Coluna Rota", de 1944, foi a primeira
obra de Frida com a qual tive contato
Desde então, fui tendo contato com outras pinturas até finalmente ler algo sobre sua vida e obra. Encaro Frida como um símbolo - uma pessoa que teve a rara capacidade de transformar a dor física e emocional em arte, poesia e transformação. Com atitudes aparentemente individuais, como usar uma roupa e arrumar o cabelo de uma determinada forma, Frida refletiu seu estilo em em significativos impactos sobre o conceito de belo e sobre sua própria identificação com a cultura de seu país. 

Tudo o que fazemos no nosso corpo se reflete em uma maneira de nos apresentarmos socialmente e foi isso que Frida fez ao optar pela exaltação da cultura mexicana, de suas concepções de vida, amor, felicidade e feminino através de suas vestimentas. Transformou a dor em inspiração, o sofrimento em arte. Uma mulher admirável que rompeu barreiras morais de uma época.

E esse é foco de um projeto belíssimo de financiamento coletivo do qual tenho orgulho de ter participado: "Os vestidos de Frida", escrito por Christine Ferreira Azzi e com ilustrações de Juliana Fiorese. De maneira lúdica e voltado ao público infanto-juvenil, o livro traz a vestimenta de Frida como o fio condutor de uma viagem pelo mundo da arte, da moda e da reafirmação cultural. 

Capa do livro "Os vestidos de Frida"
O projeto me encantou por três razões: primeiro pela oportunidade de apresentar à minha filha a história e a obra de Frida, estimulando assim o interesse das novas gerações em não deixar se apagar essa história - as ilustrações da Juliana são belíssimas e chamam a atenção de qualquer criança para o colorido da arte. 

Segundo, por abordar a moda de uma maneira diferente e criativa, priorizando a simbologia e o significado daquelas roupas em detrimento de padronizações estéticas. Peço licença para reproduzir abaixo um trecho emblemático sobre o assunto:

"Para Frida, as roupas vestiam não apenas seu corpo, mas também sua alma. Elas eram uma forma de expressar sua opinião e sua maneira de ver o mundo. Os vestidos que ela usava são inspirados nas mulheres indígenas mexicanas, e representavam seu vínculo com a cultura da sua nação"

Ilustração da capa, por Juliana Fiorense.
Nesse sentido, a moda transpassa a noção de um padrão estético a ser supostamente seguido e nos mostra que a roupa se materializa em ideais de vida nos quais acreditamos. E essa é uma visão de moda muito interessante a passar aos nossos filhos, que nascem numa geração tão preocupada com o espetáculo da imagem.

Por fim, e como pode ser percebido pelo trecho acima citado, a delicadeza do texto chama atenção. Christine consegue falar sobre a Frida de uma maneira que não é triste, não nos reforça todo aquele sofrimento físico e emocional pelo qual a artista passou. É inevitável falar sobre isso ao lembrar de Frida, mas ela o faz de uma maneira excepcional, destacando a força de uma mulher que encontrou na moda, na poesia e na pintura uma maneira de viver, de se reafirmar. 

Trechos do livro "Os vestidos de Frida"
Em uma linguagem acessível tanto para crianças como para adultos - pode-se ler essa história para uma criança de quatro anos com a maior naturalidade, sem camuflar palavras ou expressões e sem ter que explicar sobre o que está escrito.

Ajudamos a financiar "Os Vestidos de Frida" e recebemos três exemplares aqui em casa - um para cada um. O de Maria Joana está embaladinho para quando ela aprender a ler. Mas é uma fase perfeita para que ela conheça essa história - sabe aquela fase da sua filha que ela só quer usar vestidos inspirada nas princesas que ela vê nos desenhos animados? É isso, chegou a hora de ampliar esses horizontes. Não tinha momento melhor para entrarmos em contato com essa obra. Vamos disseminar?   

Produtos do projeto "Os vestidos de Frida"


sexta-feira, 23 de maio de 2014

(Não) era só uma pedra

Maria Joana brincava na grama da UFS enquanto eu participava de uma roda de conversa sobre proibicionismo e feminismo. Pedras, plantas, folhas e os gatinhos são a junção de tudo o que ela gosta quando vamos à universidade. Então ela elegeu uma pedra um pouco grande e guardou consigo. Disse que iria levar como presente de aniversário para a prima - que realmente aniversariava no mesmo dia.

Acabada a roda, voltávamos para casa de bicicleta quando, antes mesmo de sair da universidade, percebi que ela mordia alguma coisa. Perguntei o que era e ela permaneceu calada, disfarçando. Parei a bicicleta e, quando olhei para trás, percebi que ela estava com a pedra toda dentro da boca. Num misto de nojo e reprovação, peguei a pedra e joguei longe: "Minha filha, eu não acredito que você colocou isso na boca. Não faz mais isso, vamos pra casa". E voltei a pedalar, embalada pelo choro desesperador dela em busca da pedra - durante todo o percurso, que dura cerca de 15 minutos.

Ouvi a mesma frase incontáveis vezes: "Nós temos que voltar pra pegar aquela pedra, que é a pedra da minha vida e de todo o mundo que eu vou dar pra Caquinha", enquanto eu pedalava fingindo que não ouvia nada e respirando fundo. Voltei o caminho todo calada, enquanto ela gritava muito e repetia a mesma coisa. Se eu disser que não fiquei com raiva, estarei mentindo. É óbvio que qualquer pai e qualquer mãe respira bem fundo pra não agir por impulso e gritar ou bater numa hora como essas. Que pessoa gosta de ter nas suas costas a responsabilidade de controlar uma crise de choro de uma criança, ao mesmo tempo em que fica constrangida no meio de uma cruz inquisidora, com todos ao redor olhando com ares de julgamento?

Mas tentei seguir calada, tranquila e esperando chegar em casa para que enfim pudéssemos conversar. Mas ao chegar em casa, ela deitou na cama e chorou até dormir. É nesses momentos que a gente começa a refletir sobre a situação, pensa se poderia ter agido diferente em algum momento, se pergunta se havia alguma decisão correta a tomar, se não seria melhor ter sido mais rígida na autoridade... um misto de culpa, cobrança e autopunição que só nós conhecemos bem.

Então me lembrei das inúmeras vezes que chegamos em um lugar e ela sempre estabelece uma relação de amizade com as pedras, sai catando todas possíveis e quer levar pra casa. Sempre quer presentear alguém com uma pedra e guarda com carinho até encontrar a pessoa que ela quer presentear. Certa vez, fomos a um cinema da cidade que tem várias pedrinhas coloridas no chão e ela ficou encantada com aquilo. Uma amiga minha então perguntou se eu já tinha ouvido falar nas crianças cristais e disse que minha filha parecia ser uma dessas. Depois compreendi que a criança cristal é um anjo de luz que irradia sensibilidade com relação a tudo em seu meio: plantas, animais, cheiros, conflitos etc. São sensitivas e estão em eterna comunhão com a natureza. Claro que não estamos falando em ciência, pediatria ou algo empírico-positivista, mas numa questão de fé ou algo igualmente subjetivo.


O fato é que sempre admiro a relação que minha filha estabelece com a natureza e refletindo sobre aquele momento, penso que poderia ter agido diferente. Para mim, era uma pedra nojenta que ela havia colocado na boca. Para ela, era mais que uma pedra: ela já tinha estabelecido a relação dela com aquela pedra específica e já havia se tornado um presente para a prima. Continuo achando que agi corretamente ao retirá-la da boca, mas poderia ter guardado na cestinha da bicicleta. Pode parecer uma bobagem, mas acho que poderia ter tido uma atitude menos brusca.

Não tínhamos compromisso, não estava com pressa, estávamos indo pra casa e tínhamos o resto do dia livre. Não seria nada de mais parar a bicicleta, conversar numa boa e ter mais paciência. A gente sempre quer ter paciência, mas penso que a maternidade é um exercício diário. Erramos, aprendemos e talvez mudamos. Sempre penso que posso ter mais paciência e melhorar o diálogo. Depois que ela se acalmou e tirou um cochilo, a chamei para conversar e pedi desculpas, disse que não queria ter jogado a pedra fora, mas agi meio nervosa ao vê-la com a pedra na boca. Ela também pediu desculpas, disse que não ia mais fazer, mas pra cortar meu coração, perguntou: "E agora, o que vamos fazer sem a pedra?".

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Resolvendo os conflitos do seu jeito

Há poucos dias conversava com dois amigos sobre a mania que nós, adultos, temos de 'infantilizar' as crianças - por vezes, as enxergamos como incapazes de pensarem por elas mesmas ou de relacionarem as coisas ao seu redor. Tendemos sempre a resolver os problemas por elas, facilitar todos os obstáculos para que ela sofra o mínimo possível ou tenha menos trabalho do que poderia ter.

Mas confesso que, apesar de acreditar nessa premissa, sempre tive dificuldade de deixar minha filha resolver suas próprias situações de conflito com outras pessoas. Quando alguém falava ou fazia alguma coisa que ela não gostava pra testar os limites e as reações dela, eu imediatamente pedia pra parar. Ficava com raiva por ela, respondia por ela, resolvia por ela - só que do meu jeito. 

Quando nos mudamos para um apartamento, ela passou a conviver mais com crianças de diversas idades e os conflitos sempre foram inevitáveis. Brigas por brinquedos, pela descida na escorregadeira, e por aí vai. Passei a ficar apenas observando e vi que ela tinha capacidade própria de responder coisas do tipo "não, agora é minha vez", "não quero brincar com você", "vamos brincar disso e daquilo", "não faz isso senão você me machuca", e por aí vai. Me recolhi ao papel de observadora e depois perguntava a ela sobre as sensações, sobre seus pensamentos naquele momento e nada mais.

Mas persistia no hábito de responder por ela quando as pessoas em conflito se tratavam de adultos. Nem todos têm uma idade mental compatível com sua idade cronológica, então as crianças não estão livres daquelas que as perturbam para testar seus limites ou vê-las irritadas. Minha filha sempre odiou apelidos e um parente seu a chamava de 'menininha'. Ela nunca respondia e eu sempre mandava ela cumprimentar, dizia que era falta de respeito ignorá-lo. Até que um dia ela disse para toda a família, em alto e bom som: "Eu não gosto que ele me chame de menininha e toda vez que ele me chamar, eu não vou falar com ele". 

Então eu percebi o quanto estava ignorando os sentimentos dela ao dizer que ela tinha que cumprimentar, mesmo sem gostar da maneira como estava sendo tratada. Passei a não me intrometer mais e apenas observei o mesmo ritual de sempre: ela entra na casa, ele diz "oi, menininha" e ela passa direto. Não me intrometi mais e quando alguém comenta o assunto, eu apenas ressalto que ela já deixou clara a sua posição e que é um direito seu.

Mas ontem ela me surpreendeu ao se situar em uma situação na qual um adulto a importunava de maneira crescentemente invasiva. A rejeição dela foi muito clara do início ao fim e, ao invés de ela se irritar, a outra pessoa é que ficou angustiada com sua rejeição. A maneira como ela agiu naquela situação me mostrou duas coisas muito importantes. Em primeiro lugar, que ela era mais capaz de resolver seus problemas do que eu imaginava. Mais do que isso, me mostrou uma forma particular de controlar os impulsos com a qual eu deveria aprender. 

Fiquei surpresa e ao mesmo tempo super orgulhosa da grande mulher que ainda se forma. Diante da situação, a pessoa em questão, irritada, se virou para mim e disse: "Ela agiu como você nunca vai ser capaz de agir". Realmente, não seria capaz de agir como minha filha em uma situação como a de ontem. Mas aprender com as crianças é uma questão não só de humildade, como também de autocrítica, e esse é o primeiro passo para mudar. Se minha filha ainda tem três anos, então temos muito tempo pra que ela realmente me ensine a agir como ela em vários momentos. Estou pronta, de peito aberto e muito grata por ter uma grande professora de vida ao meu lado.

  

domingo, 20 de outubro de 2013

Desculpas pra não pedir desculpas

Sempre foi difícil convencer minha filha a pedir desculpas. Ela cruzava os braços, fazia bico e nada. Eu brigava, gritava e até cheguei a bater nela por conta disso. Chegamos em uma etapa em que eu não sabia o que fazer, mas de uma coisa eu tinha certeza: algo que eu fazia estava aumentando a recusa dela em pedir desculpas a outras pessoas. Mas quando somos mães ou pais, parece que temos dificuldade de admitir que estamos errando e que aquela estratégia não está dando certo. Às vezes preferimos persistir no erro e piorar a situação do que voltar atrás e "perder a autoridade".

O clima entre nós duas estava piorando e ela sempre me enfrentava. Mas a partir do momento em que pude tirar dois minutos pra refletir francamente sobre a situação, lembrei que, desde criança, eu também tinha dificuldades de pedir desculpas. Se entrava em conflito com alguém, eu simplesmente excluía aquela pessoa do meu convívio e pronto. Quando não queremos admitir os próprios erros, é mais simples desprezar quem magoamos do que encarar as coisas de frente.

Como em vários aspectos da personalidade e do jeito de falar de minha filha, essas atitudes dela só estavam refletindo a minha conduta. Como é que eu posso exigir dela que tenha humildade e sensibilidade pra pedir desculpas a alguém, se nem eu mesma consigo ter autocontrole e admitir meus erros? Eu gritava com ela, eu ameaçava e por vezes batia. Como ela vai agir diferente em um momento de conflito? Essas e outras reflexões apareceram na minha cabeça tão rápidas como um raio de luz em um dos nossos momentos de conflito. Em questão de segundos, me toquei da gravidade do meu comportamento quando vi a forma como ela me olhava - com raiva, com vontade explícita de sair de perto de mim.

Ora, pedir desculpas é uma questão de sensibilidade, e não de imposição ou obrigação. Que importância tem ela repetir a palavra "desculpa" sem estar plena do sentimento de arrependimento, de autocrítica e, mais importante, de humildade? Foi no meio dessa briga que parei tudo o que estava falando, me abaixei na altura dela e pedi desculpas. Disse que queria conversar com ela, que se a gente continuasse gritando, iria se magoar e a peguei no colo. 

Enquanto ela soluçava, eu disse que estava arrependida de ter gritado tanto e que queria que a partir desse dia nós pudéssemos conversar como amigas sempre que houvesse um problema. Ela me confessou que ficava chateada quando eu gritava com ela, mas também deixei claro que o comportamento dela não estava me agradando. E propus um pacto: eu evitaria ser grossa e gritar daquele jeito e ela prometeria me ouvir e me respeitar. É óbvio que ela tem que me respeitar, mas procurei uma maneira de enfatizar isso não com imposições, mas sensibilizando-a de que mães também têm sentimentos, mães também erram e que somente juntas poderíamos encontrar as soluções dos conflitos que não poderíamos evitar - como as divergências.

Somos ensinadas a não admitir os erros, a não falar sobre eles, não pedir desculpas aos filhos, porque seria uma espécie de "dar o braço a torcer" e "perder a autoridade". Eu pensava muito assim até perceber que isso é só mais um dos elementos de nossa criação que reproduzimos sem refletir. Por incrível que pareça, em um momento em que eu já estava angustiada por não conseguir ensinar minha filha a pedir desculpas, ela me mostrou de uma maneira muito simples que eu é que precisava aprender a pedir desculpas. E a partir do momento que eu dei essa abertura e me abri pra ela, as desculpas dela passaram a sair com mais facilidade.

Então procurei colocar menos imposições e mais explicações, menos ordens e mais argumentos, menos dedos na cara e mais compreensão. E foi só a partir do momento em que eu aprendi a pedir desculpas a uma criança de 3 anos é que ela passou a pedir desculpas a outras crianças, como uma corrente do bem se espalhando numa grande ciranda. 

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Questões de morte, etnia e gênero em "O Rei Leão"

Nunca me conformei com a morte de Mufasa. Sempre achei que se a gente pudesse falar com os criadores do 'Rei Leão' e dizer a eles o quanto aquela cena nos marcou, eles teriam voltado atrás e teriam deixado o Mufasa vivo - apenas ferido depois da debandada. Pensava o quanto era injusto Simba perder um pai tão bom e companheiro sendo tão pequenininho e depois ainda ter que se virar sozinho.

Depois de muitos anos e já mãe, me lembrei do Rei Leão e decidi baixar pra Maria Joana assistir. Na primeira vez que ela viu, observei atentamente sua reação à morte de Mufasa e percebi que ela ficou muito sentida. Mas não falou nada. A partir de então ela queria ver 'O Rei Leão' dia e noite. Mas, depois de algumas repetidas vezes, quando começava a fatídica cena, ela dizia: "Mamãe, não gosto mais desse filme". Então eu adiantava o DVD para a cena em que Pumba e Timão encontram Simba desacordado e perdido. E até hoje é o mesmo processo: ao começar a cena, ela já me chama com cara de choro pra que eu corte a tragédia do imaginário dela.

A fatídica cena da morte de Mufasa
Sempre acho que as animações e suas representações são grandes aliadas da pedagogia e do diálogo com as crianças. Conversando com elas sobre o que elas enxergam nas cenas, podemos perceber melhor sobre suas visões de mundo, de relações etc. Entre os desenhos a que ela assiste, o Rei Leão se destaca por conseguir transmitir a ela uma série de valores riquíssimos: a relação de amizade e admiração entre Simba e o pai, a coragem de lutar pela sua terra, a união das leoas num momento de fome e miséria, o respeito mútuo entre os animais (o maior ensinamento de Mufasa a Simba), a cadeia alimentar etc. E, claro, o estilo de vida Hakuna Matata.

No entanto, em se tratando de animações, precisamos ir um pouco além do fácil aparente e refletir sobre elementos mais subjetivos. Na trilogia do Rei Leão, outras coisas também me deixam inquieta, mas não consigo ainda dialogar com minha filha sobre isso: o que mais me incomoda é a relação de etnia com os conceitos de bem e mal. Enquanto Mufasa é claro, Scar, o malvado, é o único leão negro (no Rei Leão II, o filho dele é um leão negro, vivendo na terra dos exilados e proibido de entrar nas terras do reino). Enquanto o território é regido por Scar, tudo vive na escuridão; já quando Simba retorna para assumir o trono, "o reino dos bons" é bastante iluminado pelo sol. Seja como cor do pelo (ou da pele) ou do ambiente de vida, a dicotomia bem x mal está bastante associada a outra dicotomia: o claro x o escuro.

Cenas protagonizadas por Scar são escuras e sombrias

As cenas de Mufasa são claras e bem iluminadas pelo sol
Outro ponto que me inquieta é a questão de gênero. Todos sabemos que são as leoas as responsáveis pela caça (no mundo real). Já no desenho, é Mufasa quem ensina Simba a caçar, enquanto as leoas têm um comportamento dócil, submisso e permissivo - muito diferente de qualquer cena que vemos em canais como o Discovery Channel. Contraditoriamente, apenas no reino de Scar, às leoas é delegada a tarefa da caça. Um filme não são apenas representações de mundo - são representações imaginárias das pessoas que o criam, com suas visões de mundo inseridas nesse processo.

Além disso, se pensarmos que os leões claros e bem alimentados vivem num reino próspero e amplamente iluminado, enquanto os leões escuros (como o filho de Scar e sua mãe) vivem na terra dos exilados, afastados das terras dos reinos e sem tanta possibilidade de alimentação, será que essa relação não tem nada a ver com a relação entre pobreza e a marginalidade? Existe uma diferenciação de classes na história do Rei Leão e ela é relativamente nítida.

Já o Rei Leão II traz uma nova roupagem. Além de ter uma fêmea na sucessão do trono (Kyara), a filha de Simba constroi uma relação de união com Kovu (o filho de Scar), dissolvendo assim a fronteira simbólica que separa as terras do reino e a terra dos exilados - mostrando talvez que homens e mulheres, branco e negros, ricos e pobres podem dissolver suas fronteiras e viver em harmonia. Será? Para que as diferenças sejam dissolvidas, uma das partes há que ceder. Em uma relação desigual de forças, quem sempre cede em prol da harmonia?

Kyara conhece Kovu na sombria terra dos exilados
Para que Kyara e Kovu pudessem ficar juntos, Kyara foi morar na terra dos exilados ou Kovu teve que se submeter a ser aceito nas terras do reino? Os desenhos animados não são apenas imagens e sons coloridos que usamos para que nossos filhos se distraiam. São representações ideológicas subjetivamente inseridas em cada cena, em cada cor, em cada relação, em cada música tocada em determinado momento. Se nos preocupamos com a forma como as crianças se relacionam e vivem em sociedade, é preciso refletir sobre os valores e ideias que eles apreendem através das animações e de que forma podemos dialogar com eles sobre isso.

Acho que ainda não é tempo de falar sobre esses elementos menos perceptíveis com minha filha, que tem apenas 2 anos. Procuro apenas observar a compreensão dela através do que ela fala sobre situações parecidas etc. E então vamos conversando.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

"Os animais são nossos amiguinhos"

Hoje à tarde, saíamos do condomínio e, de dentro do carro avistamos a uma certa distância uma porca que parecia estar prenha e um filhote ao lado dela - há um criadouro próximo ao condomínio e de vez em quando eles saem para passear. Pedi a Rafa que fosse mais devagar pra que Maria Joana pudesse observar melhor a mãe porca e seu filhinho passeando. Ela ficou encantada, deu boa tarde, acenou e depois deu tchau. E, como sempre fala quando vê um bicho na rua: "Cuidado, amiguinhos...". 

Fiquei impressionada com o tamanho da porca e não pude conter o bom e velho comentário carnívoro - já sei, tem gente pegando as pedras pra jogar em mim, mas na verdade saiu como um espirro. "Imagine quanta calabresa daria pra um churrasco...". Foi apenas uma questão de minutos para o arrependimento. 

- Nãããããooooo, mãe.... - sacudindo negativamente a cabeça.
- Não o quê?
- Você não pode comer a porquinha no seu churrasco, ela vai ficar com medo.
- É mesmo? 
- É sim! Não pode. Ela não vai gostar que você coma ela, porque ela tá com o filhinho dela, porque ela vai ter medo, porque ela é nossa amiguinha. Os animais são nossos amiguinhos.. e você não pode fazer isso.
- Tudo bem (segurando o riso). Me perdoe, não vou mais comer a porquinha. 

Rafa sorriu e disse que todas as crianças de certa forma eram vegetarianas porque, se aquelas que comem carne, soubessem associar o alimento ao bicho que elas tanto idolatram, deixariam de comer a carne. E, fingindo não estar prestando atenção na conversa, ela ainda fechou com chave de ouro esse momento tão revelador de minha desumanidade. 

- Tá vendo, mãe? Não pode... são nossos amiguinhos. Né, pai?
- É sim...

Lembrei daquele vídeo em que o garotinho se recusa a comer a moqueca de polvo porque diz que os animais são amigos e que ele os prefere "felizes e em pé". A diferença é que Maria Joana é a criança mais carnívora que conheço, sabe o que é carne de boi, frango e porco e mesmo assim come. Mas agora eu aprendi que uma coisa é ela ver a carne pronta no prato, e outra é ela ver o animal vivo e se mexendo.

Por coincidência (ou não), li há alguns dias um texto do Marshall Sahlins, onde ele busca abordar a cultura norte-americana a partir do papel central da carne em sua alimentação e o tabu dos animais domésticos americanos. Para ele, a comestibilidade está inversamente relacionada com a humanidade - ou seja, quanto mais próximo um animal está da nossa condição de sujeito, teremos menos vontade de comê-los. Cachorros e cavalos, por exemplo, são domesticados e ganham nomes, então não são comestíveis. Mas os bois, frangos e porcos não são "membros da família", todos já aceitam sua condição de "comida". Uma reflexão interessante...

Óbvio que eu não iria falar nada disso a Maria Joana. Limitei-me apenas a me retratar diante do seu olhar fuzilador e da sua lição de moral. E não se toca mais no assunto. 

segunda-feira, 8 de julho de 2013

"Você não é minha mãe!"

Quando minha filha nasceu, tive medo de várias coisas. Entre vários mais sérios, um deles era ouvir "Você não é minha mãe" ou "Não gosto mais de você" em um momento de raiva. Achava que, quando isso acontecesse, iria sofrer horrores uma possível rejeição. Eis que ontem, pela primeira vez, ouvi essas mesmas palavras. Depois de uma maratona de desenhos animados, já estava tarde quando a chamei pra dormir. Ela se recusou e então desliguei a televisão e não dei mais chance de escolha.

Foi quando ela abriu o berreiro e em meio ao choro disse essas mesmas palavras. E não quis me dar boa noite. Ao contrário do que eu imaginava, não sofri nada. Até achei engraçado. Comecei a rir e perguntei:

- Então eu não sou sua mãe?
- Não!
- E você saiu da barriga de quem?
- De ninguém! Ninguém é minha mãe!
- Tá bom. Então quando você tiver com fome, faz sua comida sozinha, já que não tem mãe, né...
- Eu peço a meu pai. Sou filha só dele! E não gosto de você nunca mais!

Tive dificuldade de conter o riso, quando ela pegou uma revistinha e disse:

- E leia essa história pra mim! Agora!
- Não leio histórias pra quem não pede por favor e com carinho. Além disso, não sou sua mãe mesmo... 
- Leia, por favor...
- Mas eu não sou sua mãe. Você nem tem mãe... leia sozinha.
- Eu não sei ler sozinha... você é minha mãe, sim. Leia pra mim, mãe. Por favor.
- E voltou a gostar de mim? 
- É, mãe.. eu te amo.

E como toda criança interesseira, abriu um sorrisão, deu um grande beijo e ficou esperando a história. Lembrei de quando eu falava essas mesmas coisas com a minha mãe. Mas acho que não fui tão precoce quanto Maria Joana, que ainda vai fazer três anos.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Novo espaço, nova rotina

Nas últimas semanas têm acontecido diversas mudanças na nossa rotina. Nos mudamos de uma casa enorme para um apartamento de dois quartos. Dessa forma, tento substituir o amplo quintal da casa onde Maria Joana se divertia pelo parquinho do condomínio. E até que ela tem aproveitado bastante e, no sentido de espaço, não cria grandes questionamentos.

Ainda estamos sem televisão, mas colocando os fatores positivos e negativos na balança, tendo a pender para os primeiros. Apesar de sentir falta de assistir ao jornal de manhã cedinho, me desvinculei da programação "aberta" e consigo me concentar muito mais nos estudos. Além disso, aproveitar o silêncio é outro ponto positivo que eu destacaria - tem me feito conversar bastante comigo mesma (mas isso é um assunto que rende vários outros posts). Quanto a Maria, ela também não pede pra assistir TV, mas sempre coloco alguns DVDs no notebook para ela assistir. E acho que, pelo fato de ela ter se desacostumado com a "onipresença" da TV, os DVDs conseguem fixar mais atenção dela, e então aproveito as brechas pra ler mais.

Sei que posso ser taxada de estimular o individualismo, mas reservei um quarto só para ela - pela primeira vez ela tem um cantinho pra chamar de 'seu'. Na verdade, ainda dormimos juntas no meu quarto. O que eu quero mesmo é mostrar pra ela a sensação de termos um espaço para brincar à vontade e que tenha a imagem do mundinho dela. Organizei os brinquedos numa estante, improvisei uma banquinha para apoiar seus livros, coloquei um quadro de giz na parede e compramos uma mesinha de plástico com duas cadeirinhas, para ela comer e fazer as atividades da escola. Assim, tendo seu próprio espaço, sinto que posso transmitir a ela a importância de mantê-lo organizado após as brincadeiras.

Tudo bem, nem sempre ela arruma tudo, mas percebo que até mesmo as brincadeiras mudaram. Com o quadro no lugar e a mesa no quarto, ela agora brinca bastante de escolinha. Os "alunos" são os bonecos e bichos de pelúcia da estante e ela criou até o "cantinho da reflexão", para onde direciona quase toda a "turma" toda ao final da tarde. Peço para tirá-los do "castigo", mas ela me diz que um bate, o outro morde e que ninguém quer pedir desculpas. Enfim, não vou me intrometer na 'pedagogia' dela. Mas o que eu percebo é que o novo espaço, configurado com "a cara" dela, tem dado mais autonomia e liberdade, além de privacidade relativa (sim, às vezes a criança quer sentir que não está sendo observada, mesmo que estejamos olhando atrás da parede).

No início, achei que as mudanças não seriam assimiladas tão facilmente por ela, mas me surpreendi. Durante uma semana (antes da mudança), conversamos bastante e expliquei que iríamos para uma nova casinha, com novos vizinhos e que as mudanças fazem parte da vida, mas que a gente continuaria sendo feliz no novo espaço. Ela simplesmente respondia: "Tá bom...". E depois que nos mudamos, ela encarou o novo espaço com uma naturalidade surpreendente para uma criança de dois anos. Entrou, observou os cômodos e adorou o quarto novo. Sem grandes problemas ou questionamentos.

terça-feira, 23 de abril de 2013

"Mãe, cadê Deus?"

Depois de duas semanas de molho em casa, por conta da catapora, percebi que Maria Joana estava ávida por passeios na rua. Só o fato de voltar à escola já era motivo de empolgação para ela, que já me chamava até para comprar pão. Então, numa dessas tardes em que fui buscá-la, decidi passar na praça pra dar uma volta e demos de cara com um pula-pula - R$ 2,00 a cada oito minutos. Deixei ela pulando por 16 minutos e então, a muito custo, consegui convencê-la a ir para casa.

No meio do caminho, passamos por uma igreja e ela imediatamente começou o diálogo:


- Mãe, o que é isso?

- É uma igreja, meu bem...
- E o que é uma igreja?
(Silêncio de 2 segundos)
- É a casa de Deus, minha filha.
- Eu queria tanto entrar na casa de Deus...

A porta estava aberta... pensei: "Não custa nada, né".


- Vamos, podemos entrar sim. Deus é bonzinho, ele deixa.


Entramos. Não satisfeita,


- Mãe, eu quero me sentar.

- Tá certo, vamos sentar.

Maria Joana então juntou as mãos como se fosse rezar, fechou os olhos, mas logo em seguida abriu. Olhou para os lados com ar de estranhamento e perguntou mais uma:


- Mãe, quem se senta aqui?

- Ora, todo mundo. Qualquer pessoa que quer conversar com Deus vem à casa dele, se senta aqui e conversa com ele.

Novamente ela olhou para os lados, olhou para o chão, levantou os pés e olhou para baixo do sapato e continuou procurando eternamente alguma coisa...


- Deus... Deus... Deus? DDEEEEEUUUUUUUSSSSSSS!!!!

- Minha filha, o que é isso? Você não pode gritar aqui, tem que falar baixinho...
- Mãe... eu tô procurando Deus. Cadê ele? Eu quero conversar com ele e não tô vendo ele...

Depois de uma crise de riso, eu realmente não sabia o que dizer e disse que estava na hora de irmos pra casa. A única coisa que me passou pela cabeça foi dizer a ela que ela realmente não podia ver Deus, mas sempre que ela quisesse conversar com ele, seria ouvida. Mas acho que não adiantou muito. Durante todo o caminho de volta, ela procurou por Deus em todos os lugares, em cada árvore, nas esquinas... 

sexta-feira, 12 de abril de 2013

As representações das relações e da vida

A correria do dia a dia raramente nos permite observar e compreender as impressões que as crianças adquirem do mundo ao seu redor e as diferentes maneiras com que elas representam e exprimem essa realidade. Há algum tempo, Maria Joana anda com o hábito de 'trocar os papéis'. Quando ela brinca com as bonecas, sempre se comporta como se fosse eu, pede pra ser chamada de 'mãe Priscila' e fala com as bonecas da mesma forma que eu falo com ela.

Dá comida, dá remédios, acalma o choro das bonecas, coloca para dormir... tudo como manda o roteiro materno diário. Então, passei a fazer parte dessa troca de papéis e comecei a agir como ela. Pedia à 'mamãe Priscila' para comer e, quando ela chegava com a comida, eu fazia um escândalo e dizia que não queria as batatas, gritava quando ela queria me dar remédios e sempre enrolava quando ela ia me colocar para dormir.

'Minha mãe' me colocando pra dormir
No início, eu achei que ela iria se chatear e não querer mais brincar. No entanto, me surpreendi. Até nos momentos mais 'críticos', ela procurava lidar com 'meus escândalos' da mesma maneira que eu falava com ela. Sempre que eles estão perdidos em meio à birra, achamos que eles não ouvem o que a gente fala na tentativa de acalmá-los, mas percebi que eles não só ouvem, como representam a cena.

Era difícil conter o riso quando ela dizia comigo:

- Calma, Maria Joana.. tem que tomar tudo pra melhorar.

Passei então a exercer essa inversão de papeis para que ela pudesse compreender as emoções, os dilemas e até mesmo o estresse que permeiam a nossa relação. Acho que é saudável para exercitar o 'se colocar no lugar do outro', para ambas.

No entanto, essa semana eu me surpreendi. Com a chegada da catapora e o molho de vários dias em casa, ela demonstrou bastante inquietação. Me chamava pra ir à escola, pra andar de bicicleta, passear etc. É difícil distrair uma criança de 2 anos e meio quando ela está em casa entediada e agoniada para voltar à rotina de antes.

'Tia Renata' dando aula
Quando eu entregava alguns livrinhos, cadernos e materiais de pintura pra ela brincar, ela então encarnava a representação das relações escolares - claro que no papel da autoridade. Ela me dizia que era a 'tia Renata' (a pedagoga da turminha dela) e que eu era Clarinha (uma das colegas de turma que ela mais gosta).

Passei horas sendo cobaia das vontades da 'tia Renata'. Ela me mandava fazer fila para o lanchinho - sempre atrás dela -, tomar remédios, fazer corações e estrelas, pintar na linha, escrever meu nome etc. É claro que eu não simplifiquei. Me recusei a fazer as atividades, a tomar os remédios, a todo momento dizia que queria falar com a minha mãe, que queria ir embora e cheguei a 'bater no coleguinha' - um sapo verde que estava ao meu lado na turma.

Que pena que eu não consegui filmar. A 'tia Renata' era realmente uma pedagoga. Me chamou pra conversar num canto e disse que eu não podia bater no coleguinha, me fez pedir desculpas e dar um abraço. Disse pacientemente que não era o momento de eu falar com a minha mãe e que ela iria me pegar depois do almoço. Quando eu me recusei a fazer a atividade,  forcei um choro e propositalmente disse:

- Tia, eu não consigo, eu sou uma burra.

E, para meu espanto, ela realmente havia encarnado a pedagoga:

- Não, não diga isso... (balançando a cabeça para os lados). Você não é burra, você vai conseguir. Vamos, eu te ajudo.

'Tia Renata' ensinando a atividade.
Logo atrás, a fila do lanche
Pegou na minha mão e fez um coração comigo no papel (meio torto, claro).

Mas o que mais me espantou foi a maneira como ela falava e os gestos - totalmente iguais aos da tia da escola. A partir de então eu compreendi o quanto é saudável esse exercício de trocar os papéis, até mesmo para perceber de que maneira a criança está percebendo o mundo e as pessoas ao seu redor. É nessa brincadeira que ela se expressa e expressa os acontecimentos à sua maneira. 

Além disso, é uma oportunidade para conhecer melhor também as relações que seu filho mantém fora de casa - na escola, com os amigos etc. Não sei o que os psicólogos infantis dizem com relação a isso, mas estou gostando dessa experiência e sempre que brincamos, interpretamos personagens ao nosso redor. E tem sido muito bom para as duas.


sexta-feira, 1 de março de 2013

A atuação do enfermeiro na Educação Infantil

Os berçários e hoteizinhos têm sido importantes aliados na educação infantil das crianças. Enquanto os pais trabalham, estudam ou realizam outras atividades, têm a confiança de que há profissionais não apenas tomando conta, trocando fraldas ou colocando para dormir, mas principalmente desenvolvendo atividades pedagógicas capazes de estimular a coordenação motora e cognitiva das crianças. 

Enfermeira mostra primeiros cuidados em casos de acidente
Para que o projeto pedagógico implementado na instituição atenda às necessidades das crianças, é necessário que o berçário ofereça uma equipe multidisciplinar, composta por pedagogos, monitores, nutricionistas que elaborem um cardápio saudável e outros profissionais adequados para atuar na educação infantil. Por isso, os berçários que possuem em seu quadro funcional profissionais da área de saúde se destacam por transmitir segurança e tranquilidade aos pais. 

Quando os familiares não estão por perto, são esses profissionais que promovem atividades realmente benéficas à mente e ao corpo da criança e previnem acidentes e machucados. E, mesmo quando os acidentes ocorrem, estão perfeitamente qualificados para tratar dos primeiros cuidados. Esse é o caso do Berçário Hotelzinho Primeiros Cuidados, fundado e gerido por uma equipe de enfermeiras. Para a enfermeira e gestora da instituição, Vilma Pereira, a presença desse profissional na equipe é fundamental não só para cuidar da saúde da criança, mas também para coordenar, orientar e supervisionar os outros profissionais que estão em contato direto com as crianças. 

“Nessas instituições, o enfermeiro executa treinamento com as cuidadoras - que no nosso caso são todas auxiliares de enfermagem -, capacitando-as a avaliar a criança sob um olhar profissional direcionado, avaliando sua frequência respiratória, cardíaca, sinais vitais e se o desenvolvimento está condizente com a idade cronológica. Em caso de qualquer alteração, administramos os primeiros cuidados, prevenindo assim uma maior complicação, com base nos conhecimentos de puericultura”, afirma Vilma.


Profissionais de saúde atuam na Educação Infantil
Em sua grade curricular, o enfermeiro tem conhecimentos técnicos e científicos a respeito de cuidados com crianças saudáveis e hospitalizadas. Por isso, nos berçários, eles têm autonomia para aplicar cuidados de enfermagem em todas as circunstâncias que se fizer necessário. Além disso, a orientação direcionada aos pais e o esclarecimento de suas dúvidas são elementos fundamentais para que eles se sintam tranquilos e seguros com relação aos seus filhos. 

No entanto, Vilma enfatiza que os cuidados frequentes com a criança não devem ser deixados de lado por conta disso. “A presença do enfermeiro no berçário não substitui outros papeis. Não isenta os pais, por exemplo, das consultas periódicas e/ou emergenciais com os pediatras de seus filhos e outros profissionais quando necessário”, destaca a enfermeira.


Aula de massagem shantala com mães e profissionais
Por todas essas e outras razões, instituições que têm em seu quadro equipes de enfermagem vão além de um bom lugar para as crianças passarem o dia. O diferencial é notório, graças ao olhar clínico do enfermeiro, capaz de identificar qualquer alteração a tempo de tomar as devidas providências. “O espaço deixa de ser um lugar onde a criança tem seus cuidados de higiene e sono preservados para ser algo muito além disso. Parece chiclê, mas antes prevenir do que remediar”, acrescenta Vilma. 

*Texto originalmente publicado na coluna sobre maternidade, no Jornal da Cidade de domingo, 24/02. 


sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

As contradições na hora de educar

Ontem não foi a primeira vez que minha filha me deu uma lição de moral, mas foi uma das que me deixaram mais reflexiva. E me fez sentir mal. Enquanto nos arrumávamos para ir ao teatro, ela não parava quieta. Parecia um surto daqueles que a criança quer mexer em tudo, derrubar tudo, bagunçar o cabelo já pronto, se esfregar no chão com o vestido novo... aquela velha novela.

Então eu fui me irritando e disse que ela já poderia parar de 'encher o saco'. E ela disse que quem estava enchendo o saco era eu. Na hora, me senti desrespeitada na autoridade de mãe e disse que ela parasse de me responder, senão ela iria apanhar antes mesmo de sair de casa. E ela novamente respondeu, dizendo que eu é quem merecia apanhar - e dela! Então eu disse que ela estava passando dos limites e dei um tapa no ombro - desses que a gente já dá com pena.

Pelo escândalo que ela fez, tenho certeza que ela estava muito mais ofendida pela falta de autoridade em revidar do que pelo tapa em si. E então o clima ficou tenso. Ela não parava de chorar e eu não conseguia me acalmar com os gritos dela, que continuava tentando chamar a minha atenção.

Enfim, quando ela parou de chorar e de gritar, fui conversar com ela num tom mais calmo, sem deixar de ser ríspida. Disse que o comportamento dela era muito feio, que ela estava agindo como uma menina boba e que isso me deixava muito chateada. Ela ficou calada, olhando nos meus olhos com cara de ofendida (como sempre faz). E depois que eu terminei de falar, ela disse:

- Eu também fiquei chateada! 

Eu ressaltei que ela estava chateada por uma situação que ela havia começado, por não se comportar e nem me ouvir na hora que eu falo. Disse que havia ficado chateada com a forma como ela tinha falado comigo e que é muito feio gritar com a mãe. E perguntei:

- Você promete que não vai mais gritar com a mamãe?

E ela respondeu, para meu espanto:

- Certo. E você também, né mãe?

Na hora pensei em dizer que eu tinha o direito de gritar o quanto eu quisesse, porque eu era a mãe, e ela uma criança de apenas dois anos. Mas ela estava certa. A minha posição de mãe não me eximia de me controlar e tratá-la da forma como ela se sente respeitada. Na hora do nervosismo, dificilmente pensamos bem antes de falar, e acabamos exagerando na rispidez e no tom de voz. E não nos perguntamos o quanto isso pode ofendê-los. Me arrependi de ter dito que 'ela estava enchendo o saco', porque percebi que foi isso que a havia magoado. E então eu percebi que eu estava procurando um motivo para me eximir da culpa por ter causado a briga, que se inflamou não pela inquietação dela, mas pela minha reação. Então eu disse:

- Tá certo... nenhuma de nós duas pode gritar com a outra, vamos sempre conversar com calma, né?
- É...
- Certo. Mas você tem que me pedir desculpas, porque eu fiquei chateada com a maneira como você falou comigo.
- Desculpa, mãe... 

Nos abraçamos e eu refleti sobre como de certa forma eu também estava sendo autoritária e arrogante com ela. Confundindo autoridade com autoritarismo. Mas, depois de alguns segundos, ela disse:

- Você também me 'peda' desculpas, mãe... 

E então eu pedi, segurando o riso. Achei e sempre acho impressionante o quanto ela não se submete, nem sob pressão. O interessante é que ensinamos as coisas de uma forma para a criança e nos comportamos de outra. Em vários outros momentos, eu já havia dado algumas broncas nela e quando eu subia o tom de voz, ela sempre dizia:

- Mãe, fale baixo... não precisa gritar.

Sempre achei uma ousadia da parte dela, mas dessa vez eu percebi que ela enxerga a nossa relação com os olhos da coerência e da igualdade. O que vale para uma, também vale para a outra. E que, antes de exercemos nossa autoridade, a gente tem que pensar mais em nossos erros também. Pais e mães falham, isso é normal. E temos dificuldade de mostrar isso aos filhos, de pedir desculpas e se retratar. Mas exigimos isso deles. Eu exigi que ela me pedisse desculpas, mas na cabeça dela eu também tinha que pedir. E ela estava certa. 

Na hora nos sentimos invadidos e desautorizados, mas é preciso educar com coerência. E logo eu, que sempre fui contra a máxima de "eu posso porque sou sua mãe", me flagrei diante de uma contradição. Mas nós conversamos, pedimos desculpas uma à outra, nos abraçamos e depois saímos. E prometemos mudar, claro. 


quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

A primeira vez no teatro

Depois de vencer a insegurança, decidimos levar Maria Joana pela primeira vez ao teatro. Decidimos de última hora assistir à peça musical "As mulheres de Hollanda", baseada nas obras de Chico. Meu receio era o de ela não gostar do ambiente, chorar, gritar ou não se comportar de alguma forma que incomodasse o resto da plateia.

Mas essa semana vi a foto de um casal amigo junto com o filho - de idade semelhante à de Maria Joana - no teatro. Então, antes de sairmos, eu a chamei, mostrei a foto no Facebook e disse: 

- Olha só como Arthur ficou comportadinho no teatro... a mamãe dele me disse que ele adorou e nem chorou, porque ele já é mocinho.  

Ela ficou olhando, sorriu e pediu pra ver mais fotos. Mostrei mais fotos de outras crianças dizendo que elas estavam no teatro, sentadinhas e comportadas, sem medo de nada - mentirinhas como essa não levam ninguém ao inferno. E antes de sair expliquei que no teatro as luzem seriam apagadas para que a gente pudesse ver melhor a peça, mas que ninguém tinha medo disso. Ela ficou empolgada, me prometeu que não choraria e então saímos.

Lá, percebi que ela ficou intimidada com a quantidade de pessoas e com o tamanho do ambiente, observando tudo calada e de olhos arregalados. Na hora que as luzes se apagaram, ela deu um pulinho e se assustou, mas expliquei novamente que era normal, que isso acontecia no teatro. Ao contrário do que pensávamos, ela se comportou divinamente, aplaudindo quando todos aplaudiam e observando a peça com tanta atenção, que me perguntei o que estaria se passando na cabeça dela naquele momento.

Mas, em uma cena que retratava a repressão da ditadura, ela se virou para mim, apontando para os atores, e balbuciou, indignada:

- Mãe, olha pra ele...

Eu não sabia o que dizer... fui pega de surpresa. E acabei dizendo que eles estavam brincando, que ninguém machucaria ninguém. Mas acho que não expliquei muito bem o contexto. Vamos ver se na próxima eu me saio melhor nas respostas.

Pena que ela dormiu no meio da peça, mas na próxima tentarei levá-la mais cedo. Hoje pela manhã, perguntei novamente se ela havia gostado do teatro e ela disse que sim. E perguntou pelas músicas..

- Cadê as músicas, mãe?  

=)



quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Senso de coerência e justiça

Quem nunca se preocupou em exercer de fato a coerência no seu dia a dia, com certeza entra em crise quando a criança da casa chega na casa dos 2 anos. Não é apenas no Facebook que as pessoas te julgam por praticar atos diferentes do que você posta na sua timeline. Em casa, um ser de meio metro já sabe apontar o que você faz de certo ou errado de acordo com os valores que ele acabou de aprender.

Crianças reproduzem as situações à sua maneira
Você manda ela calçar os pés, mas anda descalço? Não se surpreenda se ela chegar com a sua sandália nas mãos, mandando você calçar. Você diz que é feio gritar? E se, no meio de uma bronca que você estiver direcionando a ela, você ouvir que o que está fazendo é feio? Você ensina ela a pedir desculpas e assumir os erros? Então se acostume a pedir desculpa aos outros na frente dela, senão ela vai mandar você fazer isso quando perceber uma situação de conflito. Deixou comida no prato? Jogou alguma coisa no chão? Ihhh... é bronca! 

Há poucas semanas estou aprendendo a lidar com isso - e segurar o riso quando a situação exige concentração. Nas pequenas ações do dia a dia, minha filha me cobra a mesma postura que eu cobro dela. E a memória desses pequenos não é fraca não, viu?! O seu erro de hoje é o mesmo de duas semanas atrás, na concepção deles.

Não acho que uma criança de 2 anos deva saber o que é coerência. Mas sabe praticar muito bem no dia a dia o senso de justiça. Se eu tenho que fazer isso, por que você faz diferente? E não adianta exercer a máxima da autoridade repressiva que você aprendeu: "Por que eu sou sua mãe...". Ela pode até ficar caladinha na hora, mas percebe que, pelo menos na sua casa, as situações não são justas. 

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Aprendendo o ritmo natural das coisas

Acompanhar e participar do desenvolvimento da criança é muito gostoso. A cada semana, a cada mês ela coloca em prática os novos aprendizados e fica atenta, observando a reação de todos ao redor. Hoje Maria Joana tem perfeita noção de quando reprovamos ou estimulamos alguma atitude dela.

Se antes eu sentia que ela percebia a situação pelo nosso tom de voz, hoje eu percebo que ela entende perfeitamente as palavras. Mesmo que não as repita integralmente, ela sabe localizar os objetos quando falamos o nome sem apontar, entende que é hora de arrumar os brinquedos na caixa, trocar de roupa, dormir, comer... quando anunciamos "Vamos tomar banho"? ou "Hora de comer", ela prontamente se posiciona para a tarefa. 


À medida que a criança cresce e seu desenvolvimento mental facilita o diálogo e a compreensão, percebo que ela adquire mais noção de respeito ao ritmo natural das pessoas e das coisas. Quando os gatos estão dormindo ou comendo, ela tende a se afastar mais do espaço deles - pelo menos na presença de um adulto.

Ela entende que, quando fechamos a torneira, não há mais água para o banho (e não chora mais); quando alguém sai de casa, vai ao banheiro ou dorme, ela não chora mais como se as pessoas tivessem que estar com ela sempre que ela quer. Ela se contenta com "Fulano está no banho, vem já", "Cicrano foi fazer xixi", "Papai saiu, mas volta" etc. Ouve, faz cara de quem compreendeu e espera. Vai se distrair com outra coisa.


Não tem mais o mesmo 'desespero' quando as coisas não são do jeito que ela quer ou quando as pessoas não agem como ela quer. Lógico que às vezes ela reclama, mas percebo que, quando dialogamos, ela tende a ser menos intransigente.

Acho importante estimular esse respeito desde cedo nas crianças. Respeito à natureza, às pessoas, às atividades, aos coleguinhas, aos animais. Ensinar que tudo tem o seu ritmo natural é difícil - e estressante, por muitas vezes. Sinto-me como se estivesse o tempo todo regulando, o tempo todo brigando ou contrariando as vontades dela.

Mas entendemos que, como ela tem a personalidade forte, esse aprendizado pode evitar que ela se torne uma pessoa umbiguista, cheia de vontades, incompreensiva e 'dona' de espaços que, na verdade, não são dela. Mas é claro que ela tem que sentir que há respeito da nossa parte também.


Entender que ela tem seus momentos de bom humor, de não querer conversar, de não querer assistir televisão, de querer brincar sozinha ou comer é o nosso papel. Quando ela percebe que tem seu espaço e seu momento respeitados, o diálogo tem mais abertura. 

São exercícios de troca que valem a pena!