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sexta-feira, 18 de julho de 2014

Entre paredes e jardins

Ontem, na hora de dormir, minha pequena bateu a cabecinha na parede. Coisa leve, mas desabafou:

- Culpa dessa parede dura! Não sei pra que ela fica aí, era melhor um jardim!

Concordo! As crianças são muito sábias, poderíamos trocar as paredes duras por jardins.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Resolvendo os conflitos do seu jeito

Há poucos dias conversava com dois amigos sobre a mania que nós, adultos, temos de 'infantilizar' as crianças - por vezes, as enxergamos como incapazes de pensarem por elas mesmas ou de relacionarem as coisas ao seu redor. Tendemos sempre a resolver os problemas por elas, facilitar todos os obstáculos para que ela sofra o mínimo possível ou tenha menos trabalho do que poderia ter.

Mas confesso que, apesar de acreditar nessa premissa, sempre tive dificuldade de deixar minha filha resolver suas próprias situações de conflito com outras pessoas. Quando alguém falava ou fazia alguma coisa que ela não gostava pra testar os limites e as reações dela, eu imediatamente pedia pra parar. Ficava com raiva por ela, respondia por ela, resolvia por ela - só que do meu jeito. 

Quando nos mudamos para um apartamento, ela passou a conviver mais com crianças de diversas idades e os conflitos sempre foram inevitáveis. Brigas por brinquedos, pela descida na escorregadeira, e por aí vai. Passei a ficar apenas observando e vi que ela tinha capacidade própria de responder coisas do tipo "não, agora é minha vez", "não quero brincar com você", "vamos brincar disso e daquilo", "não faz isso senão você me machuca", e por aí vai. Me recolhi ao papel de observadora e depois perguntava a ela sobre as sensações, sobre seus pensamentos naquele momento e nada mais.

Mas persistia no hábito de responder por ela quando as pessoas em conflito se tratavam de adultos. Nem todos têm uma idade mental compatível com sua idade cronológica, então as crianças não estão livres daquelas que as perturbam para testar seus limites ou vê-las irritadas. Minha filha sempre odiou apelidos e um parente seu a chamava de 'menininha'. Ela nunca respondia e eu sempre mandava ela cumprimentar, dizia que era falta de respeito ignorá-lo. Até que um dia ela disse para toda a família, em alto e bom som: "Eu não gosto que ele me chame de menininha e toda vez que ele me chamar, eu não vou falar com ele". 

Então eu percebi o quanto estava ignorando os sentimentos dela ao dizer que ela tinha que cumprimentar, mesmo sem gostar da maneira como estava sendo tratada. Passei a não me intrometer mais e apenas observei o mesmo ritual de sempre: ela entra na casa, ele diz "oi, menininha" e ela passa direto. Não me intrometi mais e quando alguém comenta o assunto, eu apenas ressalto que ela já deixou clara a sua posição e que é um direito seu.

Mas ontem ela me surpreendeu ao se situar em uma situação na qual um adulto a importunava de maneira crescentemente invasiva. A rejeição dela foi muito clara do início ao fim e, ao invés de ela se irritar, a outra pessoa é que ficou angustiada com sua rejeição. A maneira como ela agiu naquela situação me mostrou duas coisas muito importantes. Em primeiro lugar, que ela era mais capaz de resolver seus problemas do que eu imaginava. Mais do que isso, me mostrou uma forma particular de controlar os impulsos com a qual eu deveria aprender. 

Fiquei surpresa e ao mesmo tempo super orgulhosa da grande mulher que ainda se forma. Diante da situação, a pessoa em questão, irritada, se virou para mim e disse: "Ela agiu como você nunca vai ser capaz de agir". Realmente, não seria capaz de agir como minha filha em uma situação como a de ontem. Mas aprender com as crianças é uma questão não só de humildade, como também de autocrítica, e esse é o primeiro passo para mudar. Se minha filha ainda tem três anos, então temos muito tempo pra que ela realmente me ensine a agir como ela em vários momentos. Estou pronta, de peito aberto e muito grata por ter uma grande professora de vida ao meu lado.

  

sexta-feira, 12 de julho de 2013

"Os animais são nossos amiguinhos"

Hoje à tarde, saíamos do condomínio e, de dentro do carro avistamos a uma certa distância uma porca que parecia estar prenha e um filhote ao lado dela - há um criadouro próximo ao condomínio e de vez em quando eles saem para passear. Pedi a Rafa que fosse mais devagar pra que Maria Joana pudesse observar melhor a mãe porca e seu filhinho passeando. Ela ficou encantada, deu boa tarde, acenou e depois deu tchau. E, como sempre fala quando vê um bicho na rua: "Cuidado, amiguinhos...". 

Fiquei impressionada com o tamanho da porca e não pude conter o bom e velho comentário carnívoro - já sei, tem gente pegando as pedras pra jogar em mim, mas na verdade saiu como um espirro. "Imagine quanta calabresa daria pra um churrasco...". Foi apenas uma questão de minutos para o arrependimento. 

- Nãããããooooo, mãe.... - sacudindo negativamente a cabeça.
- Não o quê?
- Você não pode comer a porquinha no seu churrasco, ela vai ficar com medo.
- É mesmo? 
- É sim! Não pode. Ela não vai gostar que você coma ela, porque ela tá com o filhinho dela, porque ela vai ter medo, porque ela é nossa amiguinha. Os animais são nossos amiguinhos.. e você não pode fazer isso.
- Tudo bem (segurando o riso). Me perdoe, não vou mais comer a porquinha. 

Rafa sorriu e disse que todas as crianças de certa forma eram vegetarianas porque, se aquelas que comem carne, soubessem associar o alimento ao bicho que elas tanto idolatram, deixariam de comer a carne. E, fingindo não estar prestando atenção na conversa, ela ainda fechou com chave de ouro esse momento tão revelador de minha desumanidade. 

- Tá vendo, mãe? Não pode... são nossos amiguinhos. Né, pai?
- É sim...

Lembrei daquele vídeo em que o garotinho se recusa a comer a moqueca de polvo porque diz que os animais são amigos e que ele os prefere "felizes e em pé". A diferença é que Maria Joana é a criança mais carnívora que conheço, sabe o que é carne de boi, frango e porco e mesmo assim come. Mas agora eu aprendi que uma coisa é ela ver a carne pronta no prato, e outra é ela ver o animal vivo e se mexendo.

Por coincidência (ou não), li há alguns dias um texto do Marshall Sahlins, onde ele busca abordar a cultura norte-americana a partir do papel central da carne em sua alimentação e o tabu dos animais domésticos americanos. Para ele, a comestibilidade está inversamente relacionada com a humanidade - ou seja, quanto mais próximo um animal está da nossa condição de sujeito, teremos menos vontade de comê-los. Cachorros e cavalos, por exemplo, são domesticados e ganham nomes, então não são comestíveis. Mas os bois, frangos e porcos não são "membros da família", todos já aceitam sua condição de "comida". Uma reflexão interessante...

Óbvio que eu não iria falar nada disso a Maria Joana. Limitei-me apenas a me retratar diante do seu olhar fuzilador e da sua lição de moral. E não se toca mais no assunto. 

segunda-feira, 8 de julho de 2013

"Você não é minha mãe!"

Quando minha filha nasceu, tive medo de várias coisas. Entre vários mais sérios, um deles era ouvir "Você não é minha mãe" ou "Não gosto mais de você" em um momento de raiva. Achava que, quando isso acontecesse, iria sofrer horrores uma possível rejeição. Eis que ontem, pela primeira vez, ouvi essas mesmas palavras. Depois de uma maratona de desenhos animados, já estava tarde quando a chamei pra dormir. Ela se recusou e então desliguei a televisão e não dei mais chance de escolha.

Foi quando ela abriu o berreiro e em meio ao choro disse essas mesmas palavras. E não quis me dar boa noite. Ao contrário do que eu imaginava, não sofri nada. Até achei engraçado. Comecei a rir e perguntei:

- Então eu não sou sua mãe?
- Não!
- E você saiu da barriga de quem?
- De ninguém! Ninguém é minha mãe!
- Tá bom. Então quando você tiver com fome, faz sua comida sozinha, já que não tem mãe, né...
- Eu peço a meu pai. Sou filha só dele! E não gosto de você nunca mais!

Tive dificuldade de conter o riso, quando ela pegou uma revistinha e disse:

- E leia essa história pra mim! Agora!
- Não leio histórias pra quem não pede por favor e com carinho. Além disso, não sou sua mãe mesmo... 
- Leia, por favor...
- Mas eu não sou sua mãe. Você nem tem mãe... leia sozinha.
- Eu não sei ler sozinha... você é minha mãe, sim. Leia pra mim, mãe. Por favor.
- E voltou a gostar de mim? 
- É, mãe.. eu te amo.

E como toda criança interesseira, abriu um sorrisão, deu um grande beijo e ficou esperando a história. Lembrei de quando eu falava essas mesmas coisas com a minha mãe. Mas acho que não fui tão precoce quanto Maria Joana, que ainda vai fazer três anos.

terça-feira, 23 de abril de 2013

"Mãe, cadê Deus?"

Depois de duas semanas de molho em casa, por conta da catapora, percebi que Maria Joana estava ávida por passeios na rua. Só o fato de voltar à escola já era motivo de empolgação para ela, que já me chamava até para comprar pão. Então, numa dessas tardes em que fui buscá-la, decidi passar na praça pra dar uma volta e demos de cara com um pula-pula - R$ 2,00 a cada oito minutos. Deixei ela pulando por 16 minutos e então, a muito custo, consegui convencê-la a ir para casa.

No meio do caminho, passamos por uma igreja e ela imediatamente começou o diálogo:


- Mãe, o que é isso?

- É uma igreja, meu bem...
- E o que é uma igreja?
(Silêncio de 2 segundos)
- É a casa de Deus, minha filha.
- Eu queria tanto entrar na casa de Deus...

A porta estava aberta... pensei: "Não custa nada, né".


- Vamos, podemos entrar sim. Deus é bonzinho, ele deixa.


Entramos. Não satisfeita,


- Mãe, eu quero me sentar.

- Tá certo, vamos sentar.

Maria Joana então juntou as mãos como se fosse rezar, fechou os olhos, mas logo em seguida abriu. Olhou para os lados com ar de estranhamento e perguntou mais uma:


- Mãe, quem se senta aqui?

- Ora, todo mundo. Qualquer pessoa que quer conversar com Deus vem à casa dele, se senta aqui e conversa com ele.

Novamente ela olhou para os lados, olhou para o chão, levantou os pés e olhou para baixo do sapato e continuou procurando eternamente alguma coisa...


- Deus... Deus... Deus? DDEEEEEUUUUUUUSSSSSSS!!!!

- Minha filha, o que é isso? Você não pode gritar aqui, tem que falar baixinho...
- Mãe... eu tô procurando Deus. Cadê ele? Eu quero conversar com ele e não tô vendo ele...

Depois de uma crise de riso, eu realmente não sabia o que dizer e disse que estava na hora de irmos pra casa. A única coisa que me passou pela cabeça foi dizer a ela que ela realmente não podia ver Deus, mas sempre que ela quisesse conversar com ele, seria ouvida. Mas acho que não adiantou muito. Durante todo o caminho de volta, ela procurou por Deus em todos os lugares, em cada árvore, nas esquinas... 

sexta-feira, 12 de abril de 2013

As representações das relações e da vida

A correria do dia a dia raramente nos permite observar e compreender as impressões que as crianças adquirem do mundo ao seu redor e as diferentes maneiras com que elas representam e exprimem essa realidade. Há algum tempo, Maria Joana anda com o hábito de 'trocar os papéis'. Quando ela brinca com as bonecas, sempre se comporta como se fosse eu, pede pra ser chamada de 'mãe Priscila' e fala com as bonecas da mesma forma que eu falo com ela.

Dá comida, dá remédios, acalma o choro das bonecas, coloca para dormir... tudo como manda o roteiro materno diário. Então, passei a fazer parte dessa troca de papéis e comecei a agir como ela. Pedia à 'mamãe Priscila' para comer e, quando ela chegava com a comida, eu fazia um escândalo e dizia que não queria as batatas, gritava quando ela queria me dar remédios e sempre enrolava quando ela ia me colocar para dormir.

'Minha mãe' me colocando pra dormir
No início, eu achei que ela iria se chatear e não querer mais brincar. No entanto, me surpreendi. Até nos momentos mais 'críticos', ela procurava lidar com 'meus escândalos' da mesma maneira que eu falava com ela. Sempre que eles estão perdidos em meio à birra, achamos que eles não ouvem o que a gente fala na tentativa de acalmá-los, mas percebi que eles não só ouvem, como representam a cena.

Era difícil conter o riso quando ela dizia comigo:

- Calma, Maria Joana.. tem que tomar tudo pra melhorar.

Passei então a exercer essa inversão de papeis para que ela pudesse compreender as emoções, os dilemas e até mesmo o estresse que permeiam a nossa relação. Acho que é saudável para exercitar o 'se colocar no lugar do outro', para ambas.

No entanto, essa semana eu me surpreendi. Com a chegada da catapora e o molho de vários dias em casa, ela demonstrou bastante inquietação. Me chamava pra ir à escola, pra andar de bicicleta, passear etc. É difícil distrair uma criança de 2 anos e meio quando ela está em casa entediada e agoniada para voltar à rotina de antes.

'Tia Renata' dando aula
Quando eu entregava alguns livrinhos, cadernos e materiais de pintura pra ela brincar, ela então encarnava a representação das relações escolares - claro que no papel da autoridade. Ela me dizia que era a 'tia Renata' (a pedagoga da turminha dela) e que eu era Clarinha (uma das colegas de turma que ela mais gosta).

Passei horas sendo cobaia das vontades da 'tia Renata'. Ela me mandava fazer fila para o lanchinho - sempre atrás dela -, tomar remédios, fazer corações e estrelas, pintar na linha, escrever meu nome etc. É claro que eu não simplifiquei. Me recusei a fazer as atividades, a tomar os remédios, a todo momento dizia que queria falar com a minha mãe, que queria ir embora e cheguei a 'bater no coleguinha' - um sapo verde que estava ao meu lado na turma.

Que pena que eu não consegui filmar. A 'tia Renata' era realmente uma pedagoga. Me chamou pra conversar num canto e disse que eu não podia bater no coleguinha, me fez pedir desculpas e dar um abraço. Disse pacientemente que não era o momento de eu falar com a minha mãe e que ela iria me pegar depois do almoço. Quando eu me recusei a fazer a atividade,  forcei um choro e propositalmente disse:

- Tia, eu não consigo, eu sou uma burra.

E, para meu espanto, ela realmente havia encarnado a pedagoga:

- Não, não diga isso... (balançando a cabeça para os lados). Você não é burra, você vai conseguir. Vamos, eu te ajudo.

'Tia Renata' ensinando a atividade.
Logo atrás, a fila do lanche
Pegou na minha mão e fez um coração comigo no papel (meio torto, claro).

Mas o que mais me espantou foi a maneira como ela falava e os gestos - totalmente iguais aos da tia da escola. A partir de então eu compreendi o quanto é saudável esse exercício de trocar os papéis, até mesmo para perceber de que maneira a criança está percebendo o mundo e as pessoas ao seu redor. É nessa brincadeira que ela se expressa e expressa os acontecimentos à sua maneira. 

Além disso, é uma oportunidade para conhecer melhor também as relações que seu filho mantém fora de casa - na escola, com os amigos etc. Não sei o que os psicólogos infantis dizem com relação a isso, mas estou gostando dessa experiência e sempre que brincamos, interpretamos personagens ao nosso redor. E tem sido muito bom para as duas.


segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

A "furmiga" encrencada

Estávamos na cozinha e, enquanto eu lavava os pratos, Maria Joana estava sentada no chão, comendo um brigadeiro. De repente, ela se levantou gritando e, quando eu perguntei o que havia acontecido, ela disse indignada:

- A "furmiga" quer roubar meu chocolate!!

Eu disse: 

- Manda ela embora, ué.

Segundos de silêncio...

- Sai daqui!! Vá embora. Você "tá" encrencada, mocinha.


hahahahaha =)

terça-feira, 22 de maio de 2012

A 'crise' dos 2 anos

Há algumas semanas, vinha percebendo em minha filha uma necessidade de impor, de contestar gratuitamente, gritar e por vezes fazer birra. Situações que ela antes aceitava tranquilamente hoje são motivo para fortes conflitos. Às vezes ela passa horas chorando por um desejo bobo que não pode ser atendido.

Lendo sobre o assunto na internet, percebi que minha filha chegou à difícil fase da "adolescência do bebê", que é quando a criança chega perto dos dois anos e sente que pode reafirmar suas vontades. E o faz de modo mais impositivo.
Demonstrar desdém à birra é uma
forma de lidar com a situação
Pensei várias formas de lidar com o problema e hoje mesmo me passou pela cabeça dar uns tapas. Mas logo percebi que, se eu batesse nela, seria um descarrego de minha própria raiva da situação. Coisa que não educa de jeito nenhum.

É preciso uma paciência de Jó pra enfrentar a situação, mas manter o autocontrole é fundamental, bem como ter em mente algumas 'sugestões':

- Não há como evitar as birras nem fazer a criança parar de chorar imediatamente. Ela vai chorar sempre que contrariada e o ideal é encarar de frente e tentar resolver o problema com paciência.

- Conter uma birra com atitudes agressivas como surra, gritos etc. só fazem piorar a situação e deixar a criança mais nervosa ainda. Confesso que por vezes me passou pela cabeça aderir aos 'tapas'.

- A insistência do diálogo é sempre a melhor alternativa. Olhar nos olhos e mostrar, com paciencia, que a criança está errada e que você não vai ceder por causa de um escândalo.  

- Se disser que a criança vai ficar de castigo, por exemplo, e ela repetir o gesto reprovável, deve-se cumprir o 'prometido' e deixá-la de castigo. Não agir como havia demonstrado antes retira a autoridade de pais.

- O 'desprezo' à birra às vezes funciona - coisa que sempre defendo. Garantindo que a criança não irá se machucar, deixá-la fazer a birra sozinha e pedir que ninguém dê atenção é uma saída que quase sempre funciona. Ela percebe que não é assim que vai conseguir o que quer e aprende a lidar com a frustração. 

    

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Buscando um ponto de equilíbrio

Minha filha tem uma personalidade forte e, embora eu tenha noção do trabalho que dá uma criança 'geniosa', tenho certo orgulho. Não quero que minha filha seja uma mulher submissa ou que se adeque facilmente às imposições do 'mundo adulto'. Me dá orgulho ver que ela questiona, mesmo com gestos ou resistências.  

Não quero que ela mude, mas acho tão delicado encontrar o equilíbrio que separa uma personalidade forte de uma 'criança cheia de mimos e vontades'. Ao mesmo tempo, não quero formar uma criança chata, cheia de ataques de birra e que só brinca e age da forma que quer.


Confesso que, para encontrar esse equilíbrio, às vezes é preciso muito jogo de cintura e uma certa rigidez. É óbvio que eu a ensino a respeitar e ouvir o que os adultos falam sem 'rebeldias gratuitas', mas também tento respeitar o jeito dela, os momentos em que ela quer brincar ou não e os momentos de mau humor (sim, crianças também sentem, principalmente na hora do sono ou da fome). 


Quem nunca teve que amenizar um ataque de birra?
Sou adepta da teoria que não existe um manual de condutas na criação dos filhos. A não ser que esse 'manual' seja uma fusão entre o coração e a consciência dos pais (ou de quem cria). Então, é nos momentos rotineiros que tento encontrar um ponto de equilíbrio entre o ato de ensiná-la a respeitar o que eu digo (e faço) e o cuidado para não reprimir demais o que pode ser da própria personalidade dela.


Procuro estimular quando ela quer conversar, interagir, mostrando que ela tem espaço livre para manifestar suas sensações boas e ruins, mas sem violências, sem agressões e imposições com outras crianças ou até mesmo com os adultos. Confesso que uma das partes mais difíceis é estimulá-la a dialogar e perdoar, mesmo quando se chateia com alguma criança ou algum fato normal do 'mundo infantil' (como a raiva que ela tem quando um brinquedo não encaixa no outro).


Educar também é um trabalho de persistência. Mas nos últimos meses, eu já consigo ver alguns resultados. Hoje ela já não bate mais nas bonequinhas. Ainda as joga no chão quando está com raiva de algo, mas também se arrepende do erro e procura contornar, 'pedindo desculpas'. Mesmo que eu ainda tenha que dizer algo como 'Olha a nenê chorando pelo que você fez. Pega ela no braço e pede desculpas'. Mas esse ainda é um 'trabalho' em andamento. 
Diálogo ainda é a melhor forma de educar
Quando percebo que há uma birra ou um escândalo gratuito no meio da história, não dou atenção. É difícil, mas deixo ela chorar até se calar. Ela tem que aprender a lidar com o não e com o sentimento de frustração. E com o tempo eu percebo que as birras vão diminuindo, à medida que ela percebe que não funcionam e também porque passa a lidar melhor com as 'proibições'.   


A vida de mãe tem suas diversas fases, assim como os maiores dilemas de um mês já não são mais os mesmos no mês seguinte. Então, esse é meu maior dilema atual: encontrar o equilíbrio entre respeitar a personalidade dela e não dar espaço para que ela seja uma criança mimada com ataques de histeria.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

A fase papagaio


Há cerca de duas semanas, venho percebendo que Maria Joana anda imitando tudo! Tudo o que a gente faz ou fala perto dela, ela repete. Sempre em tom de graça. Se alguém espirra, se coça, pula, coloca a língua para fora... outro dia ela me imitou até mesmo quando eu assoei o nariz! Claro que é engraçadinho e a gente tem vontade de sorrir o tempo todo.


Eu não sei mais o que inventar pra ela imitar. Já fiz tantos trejeitos, caretas, gracinhas... que nem tenho mais criatividade. É divertido demais! E a sensação que tenho é que, quanto mais os risos saem, há mais vontade de sorrir. Mas é justamente aí onde entra a noção de delicadeza e cautela.

Muita cautela com as atitudes na frente deles 
Às vezes me sinto como se estivesse "servindo de espelho" e é inevitável ter um certo receio. A cada passo que eu dou, tudo o que eu falo e faço... ela está aprendendo e se preparando para repetir. Não só eu, como também o pai, as avós, outros parentes, os amiguinhos da escola etc.


E ao mesmo tempo, temos que fazer o papel de chato para reprimir algum trejeito que não aceitamos. Por exemplo, quando Maria Joana vê os primos maiores sentados sozinhos nas cadeiras, subindo algum degrau ou segurando um objeto que ela não pode segurar, ela quer fazer tudo igual.


E eu percebo que, quando eu não deixo ela fazer ou brigo, ela se irrita  não compreende por que ela não pode, se todos os outros estão fazendo. Haja paciência pra "reprimir" e ainda tentar convencer de que fazer aquilo não é legal. Às vezes é preciso ser mais rígido mesmo.


Não é normal uma criança se comportar como adulto
E tenho um certo receio também de ela se apegar a trejeitos ou linguagem de adulto. Mas não teria uma fórmula para colocar em prática... vou agindo pelo coração, à medida que os momentos vão acontecendo.


E vocês, o que fazem? Conta aê! =] 

sábado, 21 de janeiro de 2012

A hora do não

O dedinho do "não" de Maria Joana é igualzinho a esse.
Foto: Rara Cena.
Eu sempre digo que é impressionante a forma como Maria Joana me imita tanto nos gestos quanto no jeito de falar e alguns trejeitos que são só meus. Um desses trejeitos eu fotografei essa semana, quando ela estava paradinha, de costas, com o pé esquerdo posicionado na pontinha e balançando.. eu nunca me toquei, mas percebi que tenho essa mania só depois de ver Maria Joana fazendo igual.

Mas, enquanto algumas coisas são bonitinhas e irresistíveis, outras são mais delicadas. Ontem eu chamei Maria Joana para tomar banho e ela me respondeu um sonoro "Não!". Mas o "não" dela foi tão igual ao que eu digo quando ela pega algo que não pode, que eu fiquei sem ação. Ainda por cima, ela balançou o dedinho, igualzinho como eu faço para enfatizar o "não".

E agora, o que fazer? Bom, a primeira ação é prender o riso. Não dá pra mostrar que achou graça da teimosia, embora dê vontade de dar a maior gargalhada. Conversei com algumas mães e li algumas coisas a respeito e percebi que nessa fase (1 ano e meio) eles começam a expressar com mais autoridade as suas vontades. 

Mas ter paciência e diplomacia são fundamentais. Gritar, além de ser feio, mostra descontrole e repassa nervosismo à criança. Bater então, eu sou contra. A questão é encontrar equilíbrio entre a rigidez e a tranquilidade para mostrar à criança como resolver um problema com diálogo.

Eu aprendi (com Maria Joana) que é bom sempre enfatizar as coisas que são dela, que ela não pode "se apropriar" do que é de outras pessoas e que ela tem que entregar os objetos dos outros sem que seja preciso "tomar" da mão dela. Eu percebi que, mesmo que ela insista um pouco antes de entregar, ela entende o que deve ser feito e reclama. Às vezes chora um pouquinho, mas entrega e logo se cala. 

Em um texto que li no site Bebe.com, vi uma recomendação muito parecida com o que faço e fiquei mega-contente! Segundo o texto, o ideal é oferecer possibilidades de escolha e conversar para que ela opte por um outro objeto que pode pegar.

Então é no dia a dia que reafirmo o que sempre pensei: que o diálogo e o ato de mostrar exemplos é a melhor forma de educar. Mesmo que não pareça, eles entendem o que a gente fala e faz. Mesmo quando desobedecem, muitas vezes eles sabem que estão errados.   

Além disso, vi no mesmo texto que a criança nessa fase já tem a noção de quando um adulto precisa de ajuda. Lembram que escrevi sobre isso no post anterior? Pois é, Maria Joana adora me ajudar e eu acho lindo! 

Muito legal o texto, e ainda me mostrou que estou agindo bem com o tipo de diálogo que estabeleci para nós duas. A gente nunca vê nossa mãe dessa forma, mas acho que toda mãe no fundo é bastante insegura. Encontrar palavras de especialistas que dêm suporte às nossas ações e decisões passa muita tranquilidade. ;-)


quinta-feira, 7 de julho de 2011

Solidariedade

Eu estava assistindo o jornal na companhia de meus sobrinhos Riquinho (6 anos) e Clarissa (4), além de Maria Joana, quando passou uma reportagem sobre um recém-nascido que havia sido abandonado em uma viela, numa cidade que não me lembro agora. Quando a reportagem acabou, Riquinho cruzou os braços com indignação e balançou a cabeça num movimento negativo:

Riquinho: "Rapazz..."
Eu: "Que foi?"
Riquinho: "Isso 'devia' ser crime.. deixar um bebezinho.."
Eu: "Tadinho né, Quinho? Com fome, frio..."
Clarissa: "E se ele 'cholar'?"
Eu: "Ele tava chorando.. você não viu na TV ele chorando? Mas a mulher pegou ele, levou pra casa, deu comida.. ele tá bem"
Riquinho: "Poxa, um bebezinho.. tão pequenininho.."

Percebendo a tristeza deles, preferi não explorar o assunto. Mas, quando pensei que as coisas estavam encerradas... depois de uma meia hora voltaram à tona:

Riquinho: "Rapazz.. essa mulher 'devia' ser processada"
Eu: "Quem, Quinho?"
Riquinho: "A mulher que deixou o bebê na rua. 'Num' se faz não!"
Clarissa: "Cadê o bebê, 'Piscila'?
Eu: "O bebê já tá bem, outra mulher levou ele pra casa, deu comida, deu banho e ele não está mais com frio."
Riquinho: "Eu sei, mas.. poxa, é um bebezinho. Tudo bem, eu não gosto de bebezinhos, eles choram muito... mas deixar na rua..."
Clarissa: "Por que ela fez isso, 'Piscila'?

E aí, galera? Quem tem coragem de responder à pergunta sem incitar o ódio neles, sem estimular o julgamento a uma pessoa que nem conhecem, mas ao mesmo tempo sem naturalizar a situação? É complicado..

Quem pode com esses três?
Eu: "Eu não sei, meu amorzinho.. acho que ela não podia ficar com o bebê e ficou nervosa.. não tinha com quem deixar"
Riquinho: "Sim, mas.. deixar na rua?"
Eu: "É errado.. não pode. Mas a gente não sabe porque ela fez isso.." 

Clarissa logo esqueceu o assunto, mas Riquinho ainda ficou um bom tempo parado, com os braços cruzados e aquela carinha de indignação. E eu sem saber mais o que dizer. E agora, quando Maria Joana crescer? Acho que eu não tô preparada não... rsrs. 

Mas uma coisa eu acho impressionante: a capacidade desses pequeninos de se indignarem e tomarem as dores e o sofrimento de outra criança. Isso é incrível. Por que muitos perdem essa capacidade depois que viram "adultos" e, como diz O Pequeno Príncipe, "se esquecem que um dia foram crianças"?