terça-feira, 17 de julho de 2012

A contradição entre a saúde de um povo e a vontade dos grandes empresários

Pela primeira vez a América Latina sediará o Congresso Mundial de Ciência e Tecnologia de Alimentos. Em sua 16ª edição, o evento - que teria "como objetivos promover oportunidades de cooperação internacional, troca de informações e discussões entre cientistas e especialistas de alimentos de todo o mundo" - será realizado entre os dias 5 e 9 de agosto, em Foz do Iguaçu, no estado do Paraná. 

O tema "obesidade infantil" foi banido do evento 
No entanto, o que parece ser uma ótima oportunidade para abordar o problema da alimentação em todo o mundo camufla em si mesmo uma gritante contradição. Um dos debates programados para o evento foi cancelado. A mesa, que abordaria o preocupante "papel da mídia em relação à obesidade e a polêmica regulamentação da publicidade voltada às crianças"*, foi abortada pela professora da Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA) da Unicamp e presidente do congresso, Glaucia Pastore, sob a alegação de que o tema "causaria inconvenientes com os potenciais patrocinadores".


Ora, discutir a segurança alimentar é também procurar meios de solucionar os problemas referentes à saúde e à fome de uma população e das relações entre os povos. A partir do momento em que todas as pessoas no mundo inteiro têm acesso a uma alimentação suficiente, segura e nutritiva, muito avançaremos em relação às desigualdades existentes, refletidas em disparidades como o alto índice de crianças desnutridas nos países africanos e milhares de crianças obesas nos Estados Unidos, grande império do fast-food.

Se não temos a liberdade de abordar um tema tão preocupante e fundamental quanto a obesidade infantil, de que vale esse evento senão para movimentar dinheiro? Se a posição dos patrocinadores é mais importante do que combater a obesidade infantil, quem vai ser mais beneficiado com esse evento?

Os pesquisadores que terão a oportunidade de divulgar seus trabalhos, a população que sofre com as desigualdades sociais em diversos países ou as grandes empresas que já lucram o bastante com essas desigualdades?

O evento será sediado no Brasil, mas enquanto estudiosos e empresários do mundo inteiro fingem que estão preocupados com a segurança alimentar e enchem os bolsos de dinheiro, cerca de 10% das crianças e adolescentes brasileiros possui sobrepeso e 7,3% sofre de obesidade (de acordo com o IBGE). 
Glaucia Pastore, pesquisadora e presidente do Congresso
Será que a Glaucia Pastore (visivelmente acima do peso) sabe que o parlamento inglês quer banir o patrocínio de empresas como o MCDonald´s e a Coca-Cola nas Olimpíadas? Segundo os parlamentares, Londres já teria contabilizado 30% das crianças e 60% dos adultos acima do peso.

A diferença entre ambas as situações certamente está na preocupação central: a saúde da população x dinheiro dos patrocinadores de um evento com credibilidade duvidosa. 

* Informação publicada na coluna "Plural", de Rosângela Dória, no Jornal Correio de Sergipe.


quinta-feira, 5 de julho de 2012

Parto cesáreo: um crescimento que preocupa


Meu parto foi cesáreo e até hoje me pergunto se foi uma decisão correta. Lógico que ter minha filha viva e com saúde é mais importante que o tipo de parto a que me submeti. Mas ela foi retirada de meu útero tão fragilizada que parecia estar desmaiada. Passou a noite entubada para receber oxigênio e somente 10 horas após o parto, no dia seguinte, eu peguei minha filha pela primeira vez e amamentei.

E lembro que, no momento, uma das profissionais da equipe de saúde apoiou seu corpo sobre minha barriga para que minha filha pudesse ser retirada. É claro que na hora eu senti aquele gesto como invasivo e agressivo. Mas, em um momento de vulnerabilidade (como o do parto), pacientes sempre se questionam, se incomodam com alguma coisa, mas não sabem exatamente o que é normal e o que não é. É muito difícil questionar uma equipe médica.

O primeiro pediatra de Maria Joana, ao ouvir o relato sobre o parto, disse que crianças que são "forçadas" a sair antes do momento certo (como acontece no parto cesáreo anteriormente marcado) geralmente nascem fracas, porque não se esforçam como no parto normal. Vários médicos afirmam coisas diferentes, mas essa informação do pediatra me fez refletir bastante.

Hoje vemos que é muito comum os médicos induzirem - de forma invasiva, muitas vezes - as mães a realizarem o parto cesáreo. Sem sequer iniciar o procedimento natural. 

O fato inclusive preocupa o Ministério da Saúde, que aponta um crescimento no número de cesáreas no Brasil - em 2009, a proporção de partos cesáreos foi de 50%, enquanto em 2010 o número desse tipo de procedimento foi maior do que o normal. Em 2011, a taxa chegou a 52%.

Nas maternidades privadas, o índice chega a 82%!! E na rede pública, 37%. Mesmo assim, 37% não é pouco. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que as cesarianas não ultrapassem os 15% do total de partos. Mas em Sergipe, quase 25% dos partos realizados nos cinco primeiros meses deste ano foram cesarianas, de acordo com dados da Atenção Hospitalar da Secretaria de Estado da Saúde (SES). Foram 1.496 partos cesáreos em maternidades da rede pública e privada, de um total de 6.322.  

Para tentar compreender porque cada vez mais brasileiras tem optado pelo parto cesáreo, a Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz, ligada ao Ministério da Saúde, realiza a pesquisa "Nascer Brasil: Inquérito sobre Parto e Nascimento", através de entrevistas que serão realizadas com 24 mil mulheres que pariram recentemente.

Claro que não se trata de extinguir o parto cesáreo como alternativa médica. Mas de diminuir o número de procedimentos desnecessários e alertar as mães para a situação em que vivemos, onde obstetras preocupam-se cada vez mais com o valor monetário do parto e com a comodidade de realizar um parto com data e hora marcadas. Mas quem sofre na pele pela comodidade do obstetra são a gestante e o bebê.


Obs.: Com informações e dados do Jornal da Cidade desta quinta, dia 05/07.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Aprendendo o ritmo natural das coisas

Acompanhar e participar do desenvolvimento da criança é muito gostoso. A cada semana, a cada mês ela coloca em prática os novos aprendizados e fica atenta, observando a reação de todos ao redor. Hoje Maria Joana tem perfeita noção de quando reprovamos ou estimulamos alguma atitude dela.

Se antes eu sentia que ela percebia a situação pelo nosso tom de voz, hoje eu percebo que ela entende perfeitamente as palavras. Mesmo que não as repita integralmente, ela sabe localizar os objetos quando falamos o nome sem apontar, entende que é hora de arrumar os brinquedos na caixa, trocar de roupa, dormir, comer... quando anunciamos "Vamos tomar banho"? ou "Hora de comer", ela prontamente se posiciona para a tarefa. 


À medida que a criança cresce e seu desenvolvimento mental facilita o diálogo e a compreensão, percebo que ela adquire mais noção de respeito ao ritmo natural das pessoas e das coisas. Quando os gatos estão dormindo ou comendo, ela tende a se afastar mais do espaço deles - pelo menos na presença de um adulto.

Ela entende que, quando fechamos a torneira, não há mais água para o banho (e não chora mais); quando alguém sai de casa, vai ao banheiro ou dorme, ela não chora mais como se as pessoas tivessem que estar com ela sempre que ela quer. Ela se contenta com "Fulano está no banho, vem já", "Cicrano foi fazer xixi", "Papai saiu, mas volta" etc. Ouve, faz cara de quem compreendeu e espera. Vai se distrair com outra coisa.


Não tem mais o mesmo 'desespero' quando as coisas não são do jeito que ela quer ou quando as pessoas não agem como ela quer. Lógico que às vezes ela reclama, mas percebo que, quando dialogamos, ela tende a ser menos intransigente.

Acho importante estimular esse respeito desde cedo nas crianças. Respeito à natureza, às pessoas, às atividades, aos coleguinhas, aos animais. Ensinar que tudo tem o seu ritmo natural é difícil - e estressante, por muitas vezes. Sinto-me como se estivesse o tempo todo regulando, o tempo todo brigando ou contrariando as vontades dela.

Mas entendemos que, como ela tem a personalidade forte, esse aprendizado pode evitar que ela se torne uma pessoa umbiguista, cheia de vontades, incompreensiva e 'dona' de espaços que, na verdade, não são dela. Mas é claro que ela tem que sentir que há respeito da nossa parte também.


Entender que ela tem seus momentos de bom humor, de não querer conversar, de não querer assistir televisão, de querer brincar sozinha ou comer é o nosso papel. Quando ela percebe que tem seu espaço e seu momento respeitados, o diálogo tem mais abertura. 

São exercícios de troca que valem a pena!


terça-feira, 26 de junho de 2012

Maternidade Segura, ações humanizadas*


Apesar das limitações financeiras e estruturais nos hospitais e maternidades em vários países, ações eficazes e humanizadas de atenção à saúde materna e neonatal têm se destacado cada vez mais como exemplos a serem seguidos.  E foi para estimular e divulgar ações como essa que a Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) e a Organização Mundial de Saúde (OMS) criaram a Iniciativa Maternidade Segura, uma premiação que visa estimular cada país a reduzir seus índices de mortalidade materna e alcançar o acesso universal à saúde reprodutiva.

Divulgado no último dia 29 de maio em Washington, nos Estados Unidos, o concurso de fotografias e de boas práticas em saúde materna premiou as melhores imagens e ações sobre a promoção e proteção dos direitos das mulheres, mães e recém-nascidos, de acessar o mais alto padrão de atendimento em saúde disponível. 

Parabéns às experiências destacadas e que sirvam de inspiração para instituições, governos e profissionais no Brasil, em busca de soluções – a longo e curto prazo – para as superlotações nas maternidades. Atendimento de qualidade à gestante é um benefício que se reflete em toda a população. 

Imagens

Entre mais de 2000 imagens avaliadas, três se destacaram: a Argentina ficou em primeiro lugar, seguida pelo México e por Honduras. 

Primeira posição: "Parir", de Tali Elbert, Argentina.

Segundo lugar: "Maternidad Digna"
de Cecilia Monroy, México.

Terceiro lugar: "Pobreza económica, riqueza de amor maternal",
de Gustavo Raúl Amador, Honduras.
Boas práticas

No concurso sobre as boas práticas, foram premiadas as melhores experiências em nível comunitário, estatal e institucional (serviços de saúde), que obtiveram redução eficaz da mortalidade materna e melhoraram o atendimento à gestante e aos recém-nascidos. Entre mais de 120 experiências de 22 países, o Brasil foi premiado nas três categorias:

- Concurso de boas práticas na comunidade: terceira posição para o Programa Mãe Curitibana (Curitiba-PR), pelo aumento no atendimento ao pré-natal e partos institucionais, entre outras realizações.

Programa Mãe Curitibana 
Foto: Prefeitura de Curitiba-PR.
- Concurso de boas práticas institucionais, promovidas pelos serviços de saúde: terceira posição para a Casa de Gestantes Zilda Arns, do Hospital Sofia Feldman (Belo Horizonte-MG). Um programa que mostrou os benefícios da implementação de casas maternas para a redução das mortes maternas e infantis.

Mães acolhidas na casa da gestante Zilda Arns.
 - Concurso de boas práticas governamentais, de Estado: terceira posição para a Comissão Perinatal de Belo Horizonte - Gestão da qualidade e da integralidade do cuidado para a mulher e a criança no SUS (Belo Horizonte-MG). Pela redução da mortalidade materna, aumento de consultas no pré-natal, e uma mudança na relação dos serviços com os direitos das mulheres e dos bebês.

Curso de doulas na Comissão Perinatal de Belo Horizonte. 
Foto: Anderson Martins

*Texto publicado no caderno "Revista da Cidade", do Jornal da Cidade de domingo, dia 17/06/2012.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Os crimes contra as crianças e a responsabilidade dos pais

Casos de abuso e violência sexual contra crianças e adolescentes são sempre chocantes e repudiados pela sociedade. Claro que não poderia ser diferente. Mas sempre que tenho conhecimento de uma situação desse porte, me questiono a cautela que o pai ou a mãe têm com a criança.

Não se trata de retirar a culpa do agressor, mas de chamar os pais à responsabilidade. Todos os dias vejo crianças pequenas andando de ônibus sozinhas, brincando nas praças sem a supervisão de um adulto, em volta de bares e lanchonetes, entre uma série de situações similares. "Gente, cadê os pais dessa menina?". É inevitável pensar isso. Por isso, por trás dos perigos a que são expostas nossas crianças, está também a nossa responsabilidade pela cautela, proteção, orientação e o básico: com quem deixamos nossos filhos?

Pensei muito nisso ontem, quando fui buscar minha filha no hotelzinho e uma das coordenadoras estava visivelmente nervosa após desligar o celular. Segundo ela, o pai de uma das 'hóspedes' - de apenas 1 ano e 1 mês - teria telefonado e disse que não poderia pegar a filha naquele horário. Pediu então que uma das funcionárias levasse a filha em casa, de táxi. Quando a coordenadora disse que não poderia fazer isso, ele então solicitou que ela colocasse a criança em um táxi e ensinasse o endereço para o motorista.

"Meu Deus! Como é que eu vou colocar uma criança de apenas 1 ano sozinha em um táxi? Com uma pessoa que ninguém conhece? Não posso fazer isso com sua filha, senhor. Me desculpe". Depois de ouvir isso, o pai da menina teria se irritado e pediu pra ela resolver 'o problema' com a mãe da menina.

Todas as funcionárias e mães que se encontravam ali no momento ficaram estarrecidas! Inclusive eu, que na hora olhei para minha filha e estremeci. Quando uma atitude como essa parte do próprio pai, é inevitável nos questionarmos que tipo de cuidado a criança recebe no dia a dia. 

Todos sabemos que a maioria dos casos de violência sexual contra crianças é cometido por pais, padrastos, vizinhos, amigos etc. Pessoas próximas à família. E nas mãos de um desconhecido então? Além de outros riscos que se corre como sequestro, comercialização de crianças etc.

Voltei para casa com essa história na cabeça, me perguntando várias coisas. Será que a mãe também é assim com a criança? Será que esse pai é carinhoso com a filha? Pega no colo? Brinca? Dá atenção? O que aconteceria se a coordenadora do hotelzinho acatasse o pedido do pai? Será que o taxista iria aceitar levar a criança sozinha?

Eu fiquei tão espantada com a atitude desse pai que não quis saber o nome dele nem da criança. Por mais que evitemos, alguns julgamentos são inevitáveis. 

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Saudades de uma época mal aproveitada

Sempre que vejo uma criança de colo, sinto saudades da época em que minha filha era bebê. "Mas, já? Sua filha ainda é tão pequena...", a maioria das pessoas logo responde quando esboço minha nostalgia. Até da gravidez tenho saudade.. sinto isso sempre que vejo uma gestante na rua. Contraditório, não?!

Sim, bastante. Durante a gravidez, reclamamos de dores, cansaço, noites mal dormidas, urina incessante... uma boa parcela da ansiedade pelo parto, inclusive, deve-se ao desejo de 'se livrar logo' do barrigão. 

E quando a criança nasce? Não existe cansaço maior... eu encarava a amamentação quase como uma escravidão - apesar da importância indiscutível do aleitamento. Mas hoje sinto falta de amamentar.

Acordar de três em três horas, sentir dores no peito e o inchaço ajudam ainda mais na perda do bom humor - além da posição secundária que é reservada para o relacionamento do casal (inclui-se aí a questão sexual também, pudores à parte).

Cansaço dificulta os prazeres da maternidade
Nos primeiros meses após o parto, a gente mal sai de casa. Eu sentia-me feliz em ir à esquina comprar o pão ou colocar o lixo na porta, verdade seja dita. Era a oportunidade que eu tinha de ver a rua. Claro que receber o tão esperado bebê no colo é gratificante e os dias que se seguem são emocionantes. 

Mas quase não aproveitamos. E acho que é por isso que sentimos tantas saudades de quando nossos filhos eram bebês. Estava conversando com uma amiga minha essa semana, cujo filho é da mesma idade de Maria Joana, e nos identificamos. A gente sente tanta falta porque não aproveita. Os outros babam a nossa barriga, mas somos nós que sentimos todos os desconfortos. Todos admiram o bebê, mas a carga mais 'pesada' nos cuidados acaba ficando para a mãe. 

Quando essa fase passa, sentimos saudades de não ter sorrido tanto, de não ter tido tanta disposição para aproveitar, de não ter podido passear tanto com o bebê. Enfim, de não ter tido a leveza suficiente para curtir cada momento, pois o cansaço físico e mental não deixavam. 

Alguns fatores que levam à sobrecarga da mãe são naturais e inevitáveis - como o parto, a necessidade da amamentação etc. Ninguém pode fazer isso por nós. No entanto, é possível haver mais empenho e solidariedade por parte da família nesses momentos. 

Extrair e armazenar o leite do peito é uma boa opção para que a mãe durma mais e o pai também se acorde de madrugada. Dividir a troca de fraldas, a lavagem das roupas, as tarefas domésticas... tudo isso faz uma diferença enorme. E olhe que, mesmo assim, o desgaste existe - ele só é amenizado. 

Pais devem ajudar as mães e dividir tarefas
Claro que não se trata de extinguir da mãe as obrigações e os dilemas da maternidade. Mas de pensar formas de tornar a maternidade em si um exercício mais humanizado e prazeroso - para o bem da criança e da própria mãe. Afinal de contas, pais com equilíbrio emocional e psicológico têm condições muito melhores de educar seus filhos.

   

quinta-feira, 31 de maio de 2012

"Quando nasce um bebê, nasce uma mãe"

Ouvi essa frase em uma propaganda da Johnson´s Baby e me emocionei, embora ela parece ser uma frase simples. Primeiro porque defendo a tese de que a mulher não nasce para ser mãe ou com o 'dom' de ser mãe - ou algo parecido que muita gente fala. Ser mãe é uma opção, um desejo que pode ou não se manifestar ou se concretizar. E quem deve decidir é a própria mulher.

Segundo, porque ela me faz lembrar dos momentos que me fizeram nascer enquanto mãe - a confirmação da gravidez, os exames de ultrassonografia, os chutes e principalmente o parto. E das transformações psicológicas e emocionais que a vida de mãe tem me proporcionado. 

Jamais imaginava ter um filho, por isso a notícia da gravidez me causou choque. Como não sabia quase nada, busquei informações pelo mundo virtual. Foi então que conheci vários blogs de mães que trocam experiências, compartilham seus dilemas e conhecimentos e mostram também que existem formas diferentes de criar e educar, com valores e ensinamentos muito próprios. No mundo virtual das mães blogueiras não há espaço pra manuais padronizados. E isso me encantou de  tal forma que decidi criar o meu próprio canto, para dividir e registrar minha experiência como mãe - que mais aprende do que ensina. 


Hoje, fico mega-feliz quando os amigos comentam as publicações, dão sugestões de textos e me cobram atualizações. E é graças a esse cantinho que me emociono ao dividir experiências com as pessoas, independente de serem mães ou não. Por isso fiquei tão animada quando fui convidada pra assinar uma coluna sobre maternidade em um novo caderno de variedades do Jornal da Cidade - o "Revista da Cidade", de Frank Menezes. E o tema da primeira edição é o trabalho das doulas, mulheres que auxiliam as gestantes antes, durante e depois do parto. 


Muito empolgada com esse novo desafio e espero amadurecer mais ainda nesse sentido, sempre aprendendo e melhorando. E você, o que achou da coluna? Opine e me mande sugestões de pautas. :-)

terça-feira, 22 de maio de 2012

A 'crise' dos 2 anos

Há algumas semanas, vinha percebendo em minha filha uma necessidade de impor, de contestar gratuitamente, gritar e por vezes fazer birra. Situações que ela antes aceitava tranquilamente hoje são motivo para fortes conflitos. Às vezes ela passa horas chorando por um desejo bobo que não pode ser atendido.

Lendo sobre o assunto na internet, percebi que minha filha chegou à difícil fase da "adolescência do bebê", que é quando a criança chega perto dos dois anos e sente que pode reafirmar suas vontades. E o faz de modo mais impositivo.
Demonstrar desdém à birra é uma
forma de lidar com a situação
Pensei várias formas de lidar com o problema e hoje mesmo me passou pela cabeça dar uns tapas. Mas logo percebi que, se eu batesse nela, seria um descarrego de minha própria raiva da situação. Coisa que não educa de jeito nenhum.

É preciso uma paciência de Jó pra enfrentar a situação, mas manter o autocontrole é fundamental, bem como ter em mente algumas 'sugestões':

- Não há como evitar as birras nem fazer a criança parar de chorar imediatamente. Ela vai chorar sempre que contrariada e o ideal é encarar de frente e tentar resolver o problema com paciência.

- Conter uma birra com atitudes agressivas como surra, gritos etc. só fazem piorar a situação e deixar a criança mais nervosa ainda. Confesso que por vezes me passou pela cabeça aderir aos 'tapas'.

- A insistência do diálogo é sempre a melhor alternativa. Olhar nos olhos e mostrar, com paciencia, que a criança está errada e que você não vai ceder por causa de um escândalo.  

- Se disser que a criança vai ficar de castigo, por exemplo, e ela repetir o gesto reprovável, deve-se cumprir o 'prometido' e deixá-la de castigo. Não agir como havia demonstrado antes retira a autoridade de pais.

- O 'desprezo' à birra às vezes funciona - coisa que sempre defendo. Garantindo que a criança não irá se machucar, deixá-la fazer a birra sozinha e pedir que ninguém dê atenção é uma saída que quase sempre funciona. Ela percebe que não é assim que vai conseguir o que quer e aprende a lidar com a frustração. 

    

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Quem não denuncia também violenta!

A cada dia vemos mais notícias e dados sobre a violência sexual de crianças e adolescentes em vários países. Por ser difícil de quantificar, é praticamente impossível saber se a repercussão do tema e a exposição dos casos são maiores porque o abuso realmente tem aumentado ou se é porque as pessoas estão denunciando mais. É uma discussão parecida com a questão da violência contra a mulher: as mulheres estão sofrendo mais agressões ou estão denunciando mais?

A quantidade de matérias publicadas a respeito do assunto me faz questionar se estão aumentando a quantidade de atos de violência, a quantidade de denúncias ou a quantidade de campanhas. Ou se uma mistura dos três fatores.

Em Sergipe, o município de Malhada dos Bois, a 85 quilômetros de Aracaju, é a cidade que concentra o maior índice de exploração sexual de crianças e adolescentes. Outros municípios, como Maruim, já estão preparando uma programação alusiva ao Dia de Enfrentamento à Violência Sexual de Crianças e Adolescentes, comemorado no próximo 18 de maio.  



Confiança (?)


Muitas pesquisas indicam que a desigualdade social e a pobreza são aspectos de significativa influência sobre a violência sexual - a pobreza torna as crianças mais vulneráveis ao aliciamento. Mas outros fatores também devem ser considerados, como a violência familiar, o turismo sexual, a cultura machista que vende a ideia da mulher/criança como um objeto de prazer, o mal uso da internet etc. 

No entanto, em qualquer lugar do mundo, o contexto é relativamente parecido: a maior parte dos atos de violência sexual acontece dentro da casa onde mora a criança ou é feita por parentes e/ou pessoas de confiança da família. Mas, o que fazer para evitar?

O primeiro passo é indiscutivelmente a vigilância. Prestar atenção nos filhos, sobrinhos e outras crianças com quem se convive é fundamental. Saber com quem elas estão, deixá-las apenas com pessoas de extrema confiança é importante e acho que é o dever de qualquer responsável legal pela criação. Mas, e quando nossas crianças ficam vulneráveis diante de pessoas que justamente têm a nossa confiança? O ideal é prestar atenção nos sinais físicos e emocionais da criança todos os dias.

Crianças que sofrem algum tipo de violência sexual geralmente apresentam quadros de depressão, baixa auto estima, dificuldade de relacionamento, instrospecção, tristeza, agressividade, entre outros impactos negativos.

Crianças precisam ser protegidas, precisam ser compreendidas e têm o direito de viver em um ambiente calmo, sem agressões. E é nosso dever proporcionar isso e zelar pelas nossas crianças e, mais importante que tudo, ouvi-las. 

Araceli

O dia 18 de maio tornou-se uma referência na luta contra a violência sexual de crianças e adolescentes depois da repercussão de um dos casos de violência mais assustadores que já aconteceram no Brasil: o caso Araceli. Com apenas 9 anos, a capixaba Araceli Cabrera Crespo desapareceu da escola onde estudava para só depois ter seu corpo encontrado seminu e desfigurado, com sinais de uma imensa crueldade.
Os culpados pelo crime faziam parte de uma das famílias mais poderosas do Espírito Santos, o o que transformou o caso em um grande 'mistério' e em uma rede de corrupção e impunidade. A mãe da menina, Lola - boliviana radicada no Brasil -, é apontada até hoje como culpada indireta pela tragédia, ao mandar a menina entregar um envelope (com drogas) em um prédio em construção, onde os culpados pela violência estavam instalados.

Depois da descoberta do corpo - e do crime -, algumas pessoas que 'sabiam muita coisa' foram assassinadas, policiais e magistrados foram subornados pelas famílias dos culpados, a mãe de Araceli se mudou para outro estado e uma série de acontecimentos se desenrolaram para que a verdade não fosse descoberta. Até hoje existem detalhes inexplicados desse caso, abordado pelo escritor José Louzeiro em 1975 no livro "Araceli, Meu Amor".



quarta-feira, 16 de maio de 2012

Uma nova adaptação

Adaptação no berçário é a fase mais difícil.
Foto: Alejando Zambrana
Há pouco mais de um ano eu chorava copiosamente por ter que deixar minha filha em um hotelzinho pra ir trabalhar. Na primeira semana, ela chorava de um lado e eu do outro. Me sentia culpada e pensava em pedir demissão e ficar em casa com ela. Mas logo as coisas tomaram um rumo bom e ela se acostumou rapidinho. 

Em pouco tempo ela aprendeu a caminhar, a comer no pratinho, ganhou amiguinhos, aprendeu a pintar, a se socializar com as crianças e com o tempo vários outros passinhos inesquecíveis foram dados. Mesmo ficando no berçário em tempo integral, ela por vezes não queria ir pra casa e apontava para os coleguinhas, chorando. 

Embora a mãe por vezes se sinta 'excluída' ou 'esquecida' pela criança nesses momentos, ao mesmo tempo dá uma certa tranquilidade perceber que o filho gosta do lugar onde estuda, se sente bem e às vezes quer ficar lá até por mais tempo. Mas agora a situação mudou. 

Há uma semana, Maria Joana mudou de hotelzinho e estamos naquela fase de adaptação. Como acontecia antigamente, uma chora de um lado e a outra chora do outro. As tias do hotelzinho me dizem que ela participa bem das atividades e que já não chora mais durante o dia. Mas ainda chora muito na hora que vou deixá-la.

Hoje já tivemos um avanço. Quando fui deixá-la, ela chorou, mas foi para o braço da tia voluntariamente, sem se agarrar na minha roupa. Vamos aos próximos dias. :-)