sexta-feira, 19 de julho de 2013

Vidros de bancos valem mais do que vidas humanas?

Muito comovente o Jornal Nacional de ontem, 18 de julho de 2013. Não pude cronometrar o tempo dedicado ao tão alardeado vandalismo sofrido pelos prédios de lojas e vidros de bancos no bairro nobre do Leblon, no Rio de Janeiro. Mas foi impossível não perceber a prioridade absoluta à cobertura assustadoramente hegemônica do fato. Digo assustadora por que realmente tenho medo de viver em uma sociedade onde tijolos e vidros de bancos comovem mais do que sofrimentos causados a vidas humanas.

Há mais de um ano, o vigilante norte-americano George Zimmerman matou um adolescente negro que caminhava na rua, à noite, com um capuz na cabeça. Mas foi absolvido essa semana pelo juri da Flórida. Embora o adolescente estivesse desarmado, o juri considerou que o vigilante realmente agiu em legítima defesa. Em Los Angeles, 14 manifestantes indignados com a absolvição foram presos. O assassino foi absolvido, a população indignada foi presa. Alguém se comove? Claro que não, o que é um adolescente anônimo negro assassinado friamente em detrimento de vidros de empresas que patrocinam as emissoras de televisão?

Não tão longe daqui, no Chile, uma criança de 11 anos está grávida do padastro, que, segundo seu próprio depoimento, a estuprava desde que ela tinha nove anos. Nossa, e a mãe dela, fez o quê? Nominou a violência física, psicológica e emocional de “relações consensuais” entre vítima e estuprador e afirmou que todos estavam sendo injustos com seu marido. Então vamos recorrer ao Estado, ele certamente protege as crianças. “[A garota] surpreendeu a todos com sua profundidade e maturidade ao dizer que, apesar da dor causada pelo homem que a estuprou, ela quer ter e cuidar do bebê", declarou o presidente do Chile, Sebastian Pinera. Maturidade ou falta de escolha de uma criança que não tem apoio ou proteção familiar e institucional? Quantos viram essa notícia ser alardeada pelos veículos da imprensa? Alguém se comove?

O nome da paranaense Tayná Adriane da Silva, 14 anos, também não é tão famoso e poderoso como o do banco Itaú ou do Banco do Brasil, mas carrega consigo um 'mistério' chocante. Pouco depois de quatro trabalhadores de um parque serem presos sob a acusação de terem estuprado e assassinado a adolescente em Colombo, seu corpo foi encontrado em um matagal não muito longe dali. A Revista Veja, não satisfeita em julgar e condenar, anexou ainda na reportagem divulgada um histórico de casos que assustaram o Brasil pela crueldade envolvida. 

O que dizem os comentários nas redes sociais, as pessoas nos pontos de ônibus e bares da vida, estimuladas por reportagens como a da Revista Veja? “Mata os quatro”, “Bate até matar”. Mas a mesma mídia que julga e pune foi obrigada a noticiar posteriormente que o exame de DNA do sêmen encontrado no corpo da garota não conferia com o de nenhum dos quatro. E agora? Agora descobre-se que policiais e nomes não divulgados estão envolvidos em uma verdadeira armação que envolve a morte de uma adolescente, práticas de tortura contra pessoas inocentes para que elas assumissem a 'culpa', verdadeiros culpados soltos e protegidos pelo sigilo da polícia e duas mulheres agora perseguidas: Joice Hasselmann, a jornalista que divulgou o vazamento dessas informações até então mantidas em sigilo pela cúpula da Secretaria de Segurança Pública do Paraná, e a perita Jussara Joeckel, que chegou a ser pressionada por um policial civil a divulgar “resultado do exame com laudo inconclusivo”. Alguém se comove com Tayná, morta aos 14 anos? Alguém se comove com duas mulheres ameaçadas pela polícia por fazerem seu trabalho? Alguém se comove com quatro homens que foram violentamente torturados, expostos pela mídia e presos injustamente?

A tentativa de omissão do Estado do Paraná e da mídia nacional quanto ao verdadeiro culpado do caso Tayná não tem como intenção apenas proteger nomes poderosos e influentes envolvidos no crime. Ela reproduz uma lógica de criminalização de trabalhadores pobres (os guardas do parque) e de silêncio com relação às mulheres vítimas de violência. Quem está realmente preocupado em solucionar o caso de uma adolescente anônima que perdeu sua vida quando ia para casa em ruas escuras e desertas de uma cidade? “Quem mandou caminhar pelo parque à noite? Sabia o risco que corria”, é isso que muitas vítimas de violência sexual ouvem ao chegar em uma delegacia para prestar queixa, ao chegar em um instituto para fazer exame de corpo de delito, ao simplesmente pedir socorro. Pedir socorro a quem, quando não se é proprietária de um banco ou de uma grande loja no Leblon?

Mulheres são estupradas e assassinadas todos os dias em nosso território tão preocupado com “vandalismos” e “arruaças”, mas são silenciadas pelo descaso da imprensa, pela omissão do Estado e pela conivência de uma sociedade que prefere culpabilizar vítimas de violência sexual a ouvi-las, protegê-las, apoiá-las. Alguém se comove? Índios estão sendo dizimados e destituídos de direitos em todo o território nacional, índias são estupradas por jagunços de grandes fazendeiros. Alguém se comove? Pobres e negros têm suas casas arrombadas e invadidas por policiais nas favelas das grandes cidades. Alguém se comove? Pelo menos 10 pessoas foram mortas em uma operação do Bope na favela da Maré há menos de um mês. Alguém se comove? Em pleno século XXI, atletas cubanas são chamadas por brasileiros de “negras de merda” ao jogarem em Santa Catarina. Alguém se comove com o racismo? Mais de 20 crianças indianas foram internadas por comerem merenda envenenada na escola em que estudam. Alguém se comove com crianças indianas?

A Revista TPM de julho escolheu como tema principal de suas páginas a violência contra a mulher. Entrevistou a blogueira Lola Aronovich, da página "Escreva, Lola, escreva", uma das mais acessadas sobre feminismo e violência contra a mulher. Alguém se comove com os depoimentos das vítimas? A Carta Capital dessa semana destaca a falência do sistema de saúde pública no país e uma passeata que lembra os 20 anos da chacina da Candelária. Alguém se comove? A IstoÉ aborda o crescimento de mortes e assaltos em bancos no país. Alguém se comove com tantas mortes evitáveis? A Le Monde desse mês traz uma incrível reportagem sobre a geopolítica da saúde e a colonização moderna da Europa sobre a África (que muitos chamam de “investimentos econômicos”). Alguém se comove com africanos eternamente dependentes e colonizados por potências europeias? 

Ontem, a Radio Agência NP e o Jornal Brasil de Fato destacaram dados do Mapa da Violência 2013: Homicídio e Juventude no Brasil, segundo o qual há um crescimento de 207,9% de mortes não naturais e violentas entre os jovens brasileiros, entre os anos de 1980 e 2011. O Mapa destaca os jovens negros como maioria das vítimas de assassinatos. Alguém se comove com jovens negros que não são donos de bancos e que sequer podem pagar por uma publicidade nos intervalos do Jornal Nacional? Na última segunda-feira, o Jornal Cinform divulgou uma reportagem sobre estupros. Alguém se comove com os depoimentos das vítimas e de seus familiares?

Poderíamos passar um dia inteiro (ou mais) destacando casos de ataque à vida humana reproduzidos rotineiramente em cada país desse mundo moderno, que tanto se preocupa com a destruição de cimentos, tijolos e vidros de grandes empresas no bairro nobre do Leblon. As lágrimas de Patrícia Poeta, construídas sobre matérias que destacam um ataque ao patrimônio privado de ricos empresários lucrando sobre uma sociedade fortemente desigual me assustam. Me assustam muito mais do que lixeiras arremessadas e pessoas mascaradas. Me assustam muito mais do que o cara que vende drogas na esquina do meu bairro. Me assusta viver em uma sociedade onde se derrama muito mais lágrimas por bancos quebrados do que por vidas violentadas, mulheres e crianças cotidianamente estupradas, pobres e negros assassinados como traques de bebé estourados no São João. Todos se reduzindo a estatísticas. Me assusta criar uma filha em uma sociedade que vela por empresas quebradas, mas não se comove com histórias de vida. Tenho muito medo.


quinta-feira, 18 de julho de 2013

Questões de morte, etnia e gênero em "O Rei Leão"

Nunca me conformei com a morte de Mufasa. Sempre achei que se a gente pudesse falar com os criadores do 'Rei Leão' e dizer a eles o quanto aquela cena nos marcou, eles teriam voltado atrás e teriam deixado o Mufasa vivo - apenas ferido depois da debandada. Pensava o quanto era injusto Simba perder um pai tão bom e companheiro sendo tão pequenininho e depois ainda ter que se virar sozinho.

Depois de muitos anos e já mãe, me lembrei do Rei Leão e decidi baixar pra Maria Joana assistir. Na primeira vez que ela viu, observei atentamente sua reação à morte de Mufasa e percebi que ela ficou muito sentida. Mas não falou nada. A partir de então ela queria ver 'O Rei Leão' dia e noite. Mas, depois de algumas repetidas vezes, quando começava a fatídica cena, ela dizia: "Mamãe, não gosto mais desse filme". Então eu adiantava o DVD para a cena em que Pumba e Timão encontram Simba desacordado e perdido. E até hoje é o mesmo processo: ao começar a cena, ela já me chama com cara de choro pra que eu corte a tragédia do imaginário dela.

A fatídica cena da morte de Mufasa
Sempre acho que as animações e suas representações são grandes aliadas da pedagogia e do diálogo com as crianças. Conversando com elas sobre o que elas enxergam nas cenas, podemos perceber melhor sobre suas visões de mundo, de relações etc. Entre os desenhos a que ela assiste, o Rei Leão se destaca por conseguir transmitir a ela uma série de valores riquíssimos: a relação de amizade e admiração entre Simba e o pai, a coragem de lutar pela sua terra, a união das leoas num momento de fome e miséria, o respeito mútuo entre os animais (o maior ensinamento de Mufasa a Simba), a cadeia alimentar etc. E, claro, o estilo de vida Hakuna Matata.

No entanto, em se tratando de animações, precisamos ir um pouco além do fácil aparente e refletir sobre elementos mais subjetivos. Na trilogia do Rei Leão, outras coisas também me deixam inquieta, mas não consigo ainda dialogar com minha filha sobre isso: o que mais me incomoda é a relação de etnia com os conceitos de bem e mal. Enquanto Mufasa é claro, Scar, o malvado, é o único leão negro (no Rei Leão II, o filho dele é um leão negro, vivendo na terra dos exilados e proibido de entrar nas terras do reino). Enquanto o território é regido por Scar, tudo vive na escuridão; já quando Simba retorna para assumir o trono, "o reino dos bons" é bastante iluminado pelo sol. Seja como cor do pelo (ou da pele) ou do ambiente de vida, a dicotomia bem x mal está bastante associada a outra dicotomia: o claro x o escuro.

Cenas protagonizadas por Scar são escuras e sombrias

As cenas de Mufasa são claras e bem iluminadas pelo sol
Outro ponto que me inquieta é a questão de gênero. Todos sabemos que são as leoas as responsáveis pela caça (no mundo real). Já no desenho, é Mufasa quem ensina Simba a caçar, enquanto as leoas têm um comportamento dócil, submisso e permissivo - muito diferente de qualquer cena que vemos em canais como o Discovery Channel. Contraditoriamente, apenas no reino de Scar, às leoas é delegada a tarefa da caça. Um filme não são apenas representações de mundo - são representações imaginárias das pessoas que o criam, com suas visões de mundo inseridas nesse processo.

Além disso, se pensarmos que os leões claros e bem alimentados vivem num reino próspero e amplamente iluminado, enquanto os leões escuros (como o filho de Scar e sua mãe) vivem na terra dos exilados, afastados das terras dos reinos e sem tanta possibilidade de alimentação, será que essa relação não tem nada a ver com a relação entre pobreza e a marginalidade? Existe uma diferenciação de classes na história do Rei Leão e ela é relativamente nítida.

Já o Rei Leão II traz uma nova roupagem. Além de ter uma fêmea na sucessão do trono (Kyara), a filha de Simba constroi uma relação de união com Kovu (o filho de Scar), dissolvendo assim a fronteira simbólica que separa as terras do reino e a terra dos exilados - mostrando talvez que homens e mulheres, branco e negros, ricos e pobres podem dissolver suas fronteiras e viver em harmonia. Será? Para que as diferenças sejam dissolvidas, uma das partes há que ceder. Em uma relação desigual de forças, quem sempre cede em prol da harmonia?

Kyara conhece Kovu na sombria terra dos exilados
Para que Kyara e Kovu pudessem ficar juntos, Kyara foi morar na terra dos exilados ou Kovu teve que se submeter a ser aceito nas terras do reino? Os desenhos animados não são apenas imagens e sons coloridos que usamos para que nossos filhos se distraiam. São representações ideológicas subjetivamente inseridas em cada cena, em cada cor, em cada relação, em cada música tocada em determinado momento. Se nos preocupamos com a forma como as crianças se relacionam e vivem em sociedade, é preciso refletir sobre os valores e ideias que eles apreendem através das animações e de que forma podemos dialogar com eles sobre isso.

Acho que ainda não é tempo de falar sobre esses elementos menos perceptíveis com minha filha, que tem apenas 2 anos. Procuro apenas observar a compreensão dela através do que ela fala sobre situações parecidas etc. E então vamos conversando.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

"Os animais são nossos amiguinhos"

Hoje à tarde, saíamos do condomínio e, de dentro do carro avistamos a uma certa distância uma porca que parecia estar prenha e um filhote ao lado dela - há um criadouro próximo ao condomínio e de vez em quando eles saem para passear. Pedi a Rafa que fosse mais devagar pra que Maria Joana pudesse observar melhor a mãe porca e seu filhinho passeando. Ela ficou encantada, deu boa tarde, acenou e depois deu tchau. E, como sempre fala quando vê um bicho na rua: "Cuidado, amiguinhos...". 

Fiquei impressionada com o tamanho da porca e não pude conter o bom e velho comentário carnívoro - já sei, tem gente pegando as pedras pra jogar em mim, mas na verdade saiu como um espirro. "Imagine quanta calabresa daria pra um churrasco...". Foi apenas uma questão de minutos para o arrependimento. 

- Nãããããooooo, mãe.... - sacudindo negativamente a cabeça.
- Não o quê?
- Você não pode comer a porquinha no seu churrasco, ela vai ficar com medo.
- É mesmo? 
- É sim! Não pode. Ela não vai gostar que você coma ela, porque ela tá com o filhinho dela, porque ela vai ter medo, porque ela é nossa amiguinha. Os animais são nossos amiguinhos.. e você não pode fazer isso.
- Tudo bem (segurando o riso). Me perdoe, não vou mais comer a porquinha. 

Rafa sorriu e disse que todas as crianças de certa forma eram vegetarianas porque, se aquelas que comem carne, soubessem associar o alimento ao bicho que elas tanto idolatram, deixariam de comer a carne. E, fingindo não estar prestando atenção na conversa, ela ainda fechou com chave de ouro esse momento tão revelador de minha desumanidade. 

- Tá vendo, mãe? Não pode... são nossos amiguinhos. Né, pai?
- É sim...

Lembrei daquele vídeo em que o garotinho se recusa a comer a moqueca de polvo porque diz que os animais são amigos e que ele os prefere "felizes e em pé". A diferença é que Maria Joana é a criança mais carnívora que conheço, sabe o que é carne de boi, frango e porco e mesmo assim come. Mas agora eu aprendi que uma coisa é ela ver a carne pronta no prato, e outra é ela ver o animal vivo e se mexendo.

Por coincidência (ou não), li há alguns dias um texto do Marshall Sahlins, onde ele busca abordar a cultura norte-americana a partir do papel central da carne em sua alimentação e o tabu dos animais domésticos americanos. Para ele, a comestibilidade está inversamente relacionada com a humanidade - ou seja, quanto mais próximo um animal está da nossa condição de sujeito, teremos menos vontade de comê-los. Cachorros e cavalos, por exemplo, são domesticados e ganham nomes, então não são comestíveis. Mas os bois, frangos e porcos não são "membros da família", todos já aceitam sua condição de "comida". Uma reflexão interessante...

Óbvio que eu não iria falar nada disso a Maria Joana. Limitei-me apenas a me retratar diante do seu olhar fuzilador e da sua lição de moral. E não se toca mais no assunto. 

segunda-feira, 8 de julho de 2013

"Você não é minha mãe!"

Quando minha filha nasceu, tive medo de várias coisas. Entre vários mais sérios, um deles era ouvir "Você não é minha mãe" ou "Não gosto mais de você" em um momento de raiva. Achava que, quando isso acontecesse, iria sofrer horrores uma possível rejeição. Eis que ontem, pela primeira vez, ouvi essas mesmas palavras. Depois de uma maratona de desenhos animados, já estava tarde quando a chamei pra dormir. Ela se recusou e então desliguei a televisão e não dei mais chance de escolha.

Foi quando ela abriu o berreiro e em meio ao choro disse essas mesmas palavras. E não quis me dar boa noite. Ao contrário do que eu imaginava, não sofri nada. Até achei engraçado. Comecei a rir e perguntei:

- Então eu não sou sua mãe?
- Não!
- E você saiu da barriga de quem?
- De ninguém! Ninguém é minha mãe!
- Tá bom. Então quando você tiver com fome, faz sua comida sozinha, já que não tem mãe, né...
- Eu peço a meu pai. Sou filha só dele! E não gosto de você nunca mais!

Tive dificuldade de conter o riso, quando ela pegou uma revistinha e disse:

- E leia essa história pra mim! Agora!
- Não leio histórias pra quem não pede por favor e com carinho. Além disso, não sou sua mãe mesmo... 
- Leia, por favor...
- Mas eu não sou sua mãe. Você nem tem mãe... leia sozinha.
- Eu não sei ler sozinha... você é minha mãe, sim. Leia pra mim, mãe. Por favor.
- E voltou a gostar de mim? 
- É, mãe.. eu te amo.

E como toda criança interesseira, abriu um sorrisão, deu um grande beijo e ficou esperando a história. Lembrei de quando eu falava essas mesmas coisas com a minha mãe. Mas acho que não fui tão precoce quanto Maria Joana, que ainda vai fazer três anos.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Novo espaço, nova rotina

Nas últimas semanas têm acontecido diversas mudanças na nossa rotina. Nos mudamos de uma casa enorme para um apartamento de dois quartos. Dessa forma, tento substituir o amplo quintal da casa onde Maria Joana se divertia pelo parquinho do condomínio. E até que ela tem aproveitado bastante e, no sentido de espaço, não cria grandes questionamentos.

Ainda estamos sem televisão, mas colocando os fatores positivos e negativos na balança, tendo a pender para os primeiros. Apesar de sentir falta de assistir ao jornal de manhã cedinho, me desvinculei da programação "aberta" e consigo me concentar muito mais nos estudos. Além disso, aproveitar o silêncio é outro ponto positivo que eu destacaria - tem me feito conversar bastante comigo mesma (mas isso é um assunto que rende vários outros posts). Quanto a Maria, ela também não pede pra assistir TV, mas sempre coloco alguns DVDs no notebook para ela assistir. E acho que, pelo fato de ela ter se desacostumado com a "onipresença" da TV, os DVDs conseguem fixar mais atenção dela, e então aproveito as brechas pra ler mais.

Sei que posso ser taxada de estimular o individualismo, mas reservei um quarto só para ela - pela primeira vez ela tem um cantinho pra chamar de 'seu'. Na verdade, ainda dormimos juntas no meu quarto. O que eu quero mesmo é mostrar pra ela a sensação de termos um espaço para brincar à vontade e que tenha a imagem do mundinho dela. Organizei os brinquedos numa estante, improvisei uma banquinha para apoiar seus livros, coloquei um quadro de giz na parede e compramos uma mesinha de plástico com duas cadeirinhas, para ela comer e fazer as atividades da escola. Assim, tendo seu próprio espaço, sinto que posso transmitir a ela a importância de mantê-lo organizado após as brincadeiras.

Tudo bem, nem sempre ela arruma tudo, mas percebo que até mesmo as brincadeiras mudaram. Com o quadro no lugar e a mesa no quarto, ela agora brinca bastante de escolinha. Os "alunos" são os bonecos e bichos de pelúcia da estante e ela criou até o "cantinho da reflexão", para onde direciona quase toda a "turma" toda ao final da tarde. Peço para tirá-los do "castigo", mas ela me diz que um bate, o outro morde e que ninguém quer pedir desculpas. Enfim, não vou me intrometer na 'pedagogia' dela. Mas o que eu percebo é que o novo espaço, configurado com "a cara" dela, tem dado mais autonomia e liberdade, além de privacidade relativa (sim, às vezes a criança quer sentir que não está sendo observada, mesmo que estejamos olhando atrás da parede).

No início, achei que as mudanças não seriam assimiladas tão facilmente por ela, mas me surpreendi. Durante uma semana (antes da mudança), conversamos bastante e expliquei que iríamos para uma nova casinha, com novos vizinhos e que as mudanças fazem parte da vida, mas que a gente continuaria sendo feliz no novo espaço. Ela simplesmente respondia: "Tá bom...". E depois que nos mudamos, ela encarou o novo espaço com uma naturalidade surpreendente para uma criança de dois anos. Entrou, observou os cômodos e adorou o quarto novo. Sem grandes problemas ou questionamentos.

terça-feira, 23 de abril de 2013

"Mãe, cadê Deus?"

Depois de duas semanas de molho em casa, por conta da catapora, percebi que Maria Joana estava ávida por passeios na rua. Só o fato de voltar à escola já era motivo de empolgação para ela, que já me chamava até para comprar pão. Então, numa dessas tardes em que fui buscá-la, decidi passar na praça pra dar uma volta e demos de cara com um pula-pula - R$ 2,00 a cada oito minutos. Deixei ela pulando por 16 minutos e então, a muito custo, consegui convencê-la a ir para casa.

No meio do caminho, passamos por uma igreja e ela imediatamente começou o diálogo:


- Mãe, o que é isso?

- É uma igreja, meu bem...
- E o que é uma igreja?
(Silêncio de 2 segundos)
- É a casa de Deus, minha filha.
- Eu queria tanto entrar na casa de Deus...

A porta estava aberta... pensei: "Não custa nada, né".


- Vamos, podemos entrar sim. Deus é bonzinho, ele deixa.


Entramos. Não satisfeita,


- Mãe, eu quero me sentar.

- Tá certo, vamos sentar.

Maria Joana então juntou as mãos como se fosse rezar, fechou os olhos, mas logo em seguida abriu. Olhou para os lados com ar de estranhamento e perguntou mais uma:


- Mãe, quem se senta aqui?

- Ora, todo mundo. Qualquer pessoa que quer conversar com Deus vem à casa dele, se senta aqui e conversa com ele.

Novamente ela olhou para os lados, olhou para o chão, levantou os pés e olhou para baixo do sapato e continuou procurando eternamente alguma coisa...


- Deus... Deus... Deus? DDEEEEEUUUUUUUSSSSSSS!!!!

- Minha filha, o que é isso? Você não pode gritar aqui, tem que falar baixinho...
- Mãe... eu tô procurando Deus. Cadê ele? Eu quero conversar com ele e não tô vendo ele...

Depois de uma crise de riso, eu realmente não sabia o que dizer e disse que estava na hora de irmos pra casa. A única coisa que me passou pela cabeça foi dizer a ela que ela realmente não podia ver Deus, mas sempre que ela quisesse conversar com ele, seria ouvida. Mas acho que não adiantou muito. Durante todo o caminho de volta, ela procurou por Deus em todos os lugares, em cada árvore, nas esquinas... 

sexta-feira, 12 de abril de 2013

As representações das relações e da vida

A correria do dia a dia raramente nos permite observar e compreender as impressões que as crianças adquirem do mundo ao seu redor e as diferentes maneiras com que elas representam e exprimem essa realidade. Há algum tempo, Maria Joana anda com o hábito de 'trocar os papéis'. Quando ela brinca com as bonecas, sempre se comporta como se fosse eu, pede pra ser chamada de 'mãe Priscila' e fala com as bonecas da mesma forma que eu falo com ela.

Dá comida, dá remédios, acalma o choro das bonecas, coloca para dormir... tudo como manda o roteiro materno diário. Então, passei a fazer parte dessa troca de papéis e comecei a agir como ela. Pedia à 'mamãe Priscila' para comer e, quando ela chegava com a comida, eu fazia um escândalo e dizia que não queria as batatas, gritava quando ela queria me dar remédios e sempre enrolava quando ela ia me colocar para dormir.

'Minha mãe' me colocando pra dormir
No início, eu achei que ela iria se chatear e não querer mais brincar. No entanto, me surpreendi. Até nos momentos mais 'críticos', ela procurava lidar com 'meus escândalos' da mesma maneira que eu falava com ela. Sempre que eles estão perdidos em meio à birra, achamos que eles não ouvem o que a gente fala na tentativa de acalmá-los, mas percebi que eles não só ouvem, como representam a cena.

Era difícil conter o riso quando ela dizia comigo:

- Calma, Maria Joana.. tem que tomar tudo pra melhorar.

Passei então a exercer essa inversão de papeis para que ela pudesse compreender as emoções, os dilemas e até mesmo o estresse que permeiam a nossa relação. Acho que é saudável para exercitar o 'se colocar no lugar do outro', para ambas.

No entanto, essa semana eu me surpreendi. Com a chegada da catapora e o molho de vários dias em casa, ela demonstrou bastante inquietação. Me chamava pra ir à escola, pra andar de bicicleta, passear etc. É difícil distrair uma criança de 2 anos e meio quando ela está em casa entediada e agoniada para voltar à rotina de antes.

'Tia Renata' dando aula
Quando eu entregava alguns livrinhos, cadernos e materiais de pintura pra ela brincar, ela então encarnava a representação das relações escolares - claro que no papel da autoridade. Ela me dizia que era a 'tia Renata' (a pedagoga da turminha dela) e que eu era Clarinha (uma das colegas de turma que ela mais gosta).

Passei horas sendo cobaia das vontades da 'tia Renata'. Ela me mandava fazer fila para o lanchinho - sempre atrás dela -, tomar remédios, fazer corações e estrelas, pintar na linha, escrever meu nome etc. É claro que eu não simplifiquei. Me recusei a fazer as atividades, a tomar os remédios, a todo momento dizia que queria falar com a minha mãe, que queria ir embora e cheguei a 'bater no coleguinha' - um sapo verde que estava ao meu lado na turma.

Que pena que eu não consegui filmar. A 'tia Renata' era realmente uma pedagoga. Me chamou pra conversar num canto e disse que eu não podia bater no coleguinha, me fez pedir desculpas e dar um abraço. Disse pacientemente que não era o momento de eu falar com a minha mãe e que ela iria me pegar depois do almoço. Quando eu me recusei a fazer a atividade,  forcei um choro e propositalmente disse:

- Tia, eu não consigo, eu sou uma burra.

E, para meu espanto, ela realmente havia encarnado a pedagoga:

- Não, não diga isso... (balançando a cabeça para os lados). Você não é burra, você vai conseguir. Vamos, eu te ajudo.

'Tia Renata' ensinando a atividade.
Logo atrás, a fila do lanche
Pegou na minha mão e fez um coração comigo no papel (meio torto, claro).

Mas o que mais me espantou foi a maneira como ela falava e os gestos - totalmente iguais aos da tia da escola. A partir de então eu compreendi o quanto é saudável esse exercício de trocar os papéis, até mesmo para perceber de que maneira a criança está percebendo o mundo e as pessoas ao seu redor. É nessa brincadeira que ela se expressa e expressa os acontecimentos à sua maneira. 

Além disso, é uma oportunidade para conhecer melhor também as relações que seu filho mantém fora de casa - na escola, com os amigos etc. Não sei o que os psicólogos infantis dizem com relação a isso, mas estou gostando dessa experiência e sempre que brincamos, interpretamos personagens ao nosso redor. E tem sido muito bom para as duas.


terça-feira, 2 de abril de 2013

Tudo azul!



Imagem: Blog Psicologia em desfoco
Há cerca de cinco anos, monumentos do mundo inteiro se iluminam de azul no dia 2 de abril, quando é celebrado o Dia Internacional da Conscientização sobre o Autismo. Símbolos mundiais como o Empire State Building (EUA), a Opera House (AUS) e monumentos brasileiros como o Cristo Redentor (RJ), o Teatro Amazonas (AM), a Basílica de Nossa Senhora de Aparecida (SP) e a Ponte Estaiada (SP) são iluminadas com a cor oficial do evento, para chamar atenção a um transtorno que atinge milhões de pessoas em todo o mundo. 

O autismo é uma palavra de origem grega (autós), que significa “por si mesmo” e é um termo utilizado para denominar comportamentos humanos voltados para o próprio indivíduo. O transtorno de desenvolvimento se manifesta na infância e afeta a comunicação e o comportamento da criança, trazendo, principalmente, dificuldades na fala e na interação com outras pessoas. 

Com a crescente disseminação das informações relacionadas ao transtorno, o preconceito vem dando lugar ao diagnóstico e consequente tratamento. Dados do Centro Nacional de Saúde e Estatística dos Estados Unidos mostram que de 2011 para cá, o número de crianças diagnosticadas com a desordem do espectro autista (DEA) é de uma em cada 50. No Brasil, não existem medições oficiais, mas a estimativa é de que haja mais de um milhão de pessoas com o problema. 

Elevador Lacerda, na BahiaFoto: Blog Psicologia em desfoco
De acordo com o “Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders” (DSM IV), as características essenciais do Transtorno Autista são: presença de um desenvolvimento acentuadamente anormal ou prejudicado na interação social e na comunicação, e um repertório marcantemente restrito de atividades e interesses. As manifestações do transtorno variam imensamente, dependendo do nível de desenvolvimento e idade cronológica do indivíduo.

De acordo com a fundadora da Associação de Amigos do Autista de Sergipe (AMAS), existem no Estado cerca de 300 autistas, “que precisam de melhorias urgentes na qualidade do tratamento ofertado”. Segundo informações do Jornal da Cidade, a AMAS atende hoje 19 autistas, de 17 a 47 anos, “mas poderia atender muito mais se possuísse uma ajuda financeira constante”. 


Símbolo do STF pintado de azul
Foto: Blog Psicologia em desfoco
Eventos e palestras marcam a semana da Conscientização sobre Autismo 2013

Para quem quer saber mais sobre o autismo, uma série de eventos e palestrar vão acontecer nas principais capitais brasileiras ao longo da semana. Abaixo você confere alguns deles: 


SE – ARACAJU


- Passeio de trenzinho, dia 2/04, a partir das 9h, no bairro Coroa do Meio. Realização: Associação de Amigos do Autista de Sergipe (AMAS)


SP - SÃO PAULO 


- Caminhada na Av. Paulista, dia 7/abril, a partir das 9h00. Realização: Movimento Pró Autista e ABRACEI. 


- “A realidade do Autismo no Brasil”, uma discussão sobre temas atuais e de fundamental importância para o Autismo no Brasil: “Inclusão e Legislação”. Evento gratuito, dia 5/abril, das 8h30 às 12h00, na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo – Auditório “Paulo Kobayashi”. Informações sobre inscrições neste link. Realização: Autismo & Realidade. 


- Encontro do "Movimento Anjos Azuis" no shopping SP Market, dia 23/março. 


- Iluminação azul da caixa d'água da Casa de David, dia 2/abril (mais informações. Realização: Casa de David - Centro de Estudo e Atendimento à Pessoa com Autismo. 


- Iluminação azul do Palácio 9 de Julho, a Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp), dia 2/abril 


- Iluminação azul do Bar Aurora e o Boteco Ferraz, dai 2/abril. 


- Encontro sobre Autismo ,a Câmara Municipal de SP, dia 20/abril, com diversas palestras, das 9h00 às 17h00. Apoio: Crosp, Unicsul, Revista Autismo. O evento será transmitido ao vivo pela TV Câmara. 


RJ - RIO DE JANEIRO 

- Cristo Redentor estará iluminado de azul 


- Projeto Acesso à Cultura para os Autistas, no CCBB - Centro Cultural Banco do Brasil, dia 2/abril, às 9h00, com participação das crianças da AAPA no projeto Musicando e da exposição Movie-se: No Tempo da Animação. Realização: AAPA 


- Evento Práticas e Reflexões, como tema Üm Novo Conceito Familiar — Aceitação e Superação Pós-Diagnóstico, no CCBB – Centro Cultural Banco do Brasil, dia 6/abril, às 9h00. Realização: AAPA 


- Trilha na Floresta da Tijuca: Trilhando Caminhos em Prol do Autismo com o grupo "Trilhas dos Amigos", dia 6/abril, às 14h00. Realização: AAPA 


CE - FORTALEZA 


Dia 2/abril, 14h30 – Audiência Pública na Câmara Municipal de Fortaleza (R. Dr. Thompson Bulcão, 830 - Conjunto Luciano Cavalcante, Fortaleza - CE, 60810-460). 

Dia 5/abril, 15h00 – Ato público na Praça do Ferreira (Centro de Fortaleza). 
Dia 10/abril, 15h00 – Roda de Conversa na Fundação Projeto Diferente (Rua José Vilar, 938 – Aldeota, Fortaleza – CE, 60125-000). Realização dos eventos: Casa da Esperança, Projeto Diferente e ABRAÇA. 

MG - BELO HORIZONTE 


"Deficiência em Debate", palestrante: dr. Romeu Kazumi Sassaki, sobre políticas públicas para atendimento à pessoa com Transtorno do Espectro Autista (TEA), e os direitos da pessoa com deficiência, no Auditório Universidade FUMEC - Rua Cobre, 200 - Cruzeiro, dia 2/abril. Realização: Prefeitura de Belo Horizonte e entidades. 


PE - RECIFE 


- Campanha de Sensibilização nas Escolas, Divulgação nos meios de comunicação, Iluminação azul na Torre da Rede Globo (Rua da Aurora), OAB e Tribunal de Justiça na semana de 1 a 7/abril. Realização: AMA-Getid. 


- Ação de Cidadania no Parque 13 de Maio, dai 2/abril, às 17h30. Realização: AMA-Getid. 


- Caminhada Azul (Parque Dona Lindu até o 2º Jardim de Boa Viagem), dia 6/abril, às 15h30. Realização: AMA-Getid.


*Com informações da Revista Crescer e do Jornal da Cidade.


sexta-feira, 1 de março de 2013

Recomendações para publicidade em programas infantis

Uma ótima notícia que foi publicada na Agência Brasil:


Novas recomendações para publicidade em programas infantis começam a valer hoje

01/03/2013 - 6h23
Thais Leitão

Repórter da Agência Brasil

Brasília – A partir de hoje (1º), estão proibidas ações de merchandising (publicidade indireta colocada em programas, com a exposição de produtos) dirigidas ao público infantil em programas criados ou produzidos especificamente para crianças em qualquer veículo. A norma faz parte das novas recomendações para a publicidade que envolve crianças e adolescentes, definidas no Código Brasileiro de Autorregulamentação Publicitária.

Segundo o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar), a publicidade de produtos e serviços direcionada a esse segmento deve se restringir aos intervalos e espaços comerciais.
As alterações, incorporadas à Seção 11 do código, que reúne as normas éticas para a publicidade do gênero, também preveem que as ações de merchandising em qualquer programação e veículo não empreguem crianças, elementos do universo infantil ou artifícios publicitários com o objetivo de captar a atenção desse público específico.
Segundo o Conar, a nova redação é fruto de um pedido da Associação Brasileira de Anunciantes, reconhecendo a necessidade de ampliar a proteção a públicos vulneráveis, e representa um aperfeiçoamento das normas anteriores. O órgão ressalta que, ainda que seja de adesão voluntária, o documento é unanimemente aceito e praticado no país por anunciantes, agências de publicidade e veículos de comunicação.
Ao defender regras mais restritivas para o setor, o Conar destaca ser contrário à proibição total da publicidade infantil, por entender que se trata de parte essencial da educação. “Privar crianças e adolescentes do acesso à publicidade é debilitá-las, pois cidadãos responsáveis e consumidores conscientes dependem de informação", disse, em nota, o presidente do conselho, Gilberto Leifert.
Para definição do público infantil, o código adota os parâmetros do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). De acordo com o ECA, são consideradas crianças meninos e meninas até 12 anos de idade incompletos e adolescentes, os que têm entre 12 e 18 anos de idade.
Na avaliação de Ana Cláudia Bessa, uma das fundadoras do movimento Infância Livre de Consumismo, coletivo formado por pais e mães inconformados com os estímulos da publicidade infantil ao consumo excessivo, é preciso esperar para verificar como as novas regras serão colocadas em prática e de que forma o Conar vai lidar com possíveis descumprimentos.
A ativista, que defende o consumo consciente, teme que a incorporação das recomendações seja um “movimento de bastidores” para  evitar que o Brasil tenha uma lei específica que regulamente o assunto.
“O Projeto de Lei 5.921/01, que proíbe a publicidade dirigida à criança e regulamenta a publicidade dirigida a adolescentes, tramita há mais de dez anos no Congresso Nacional. Tenho receio que, diante da grande pressão da sociedade, o Conar tenha feito essa alteração para evitar mudanças mais profundas, previstas no projeto”, disse.
Ela lembrou que a autorregulamentação do setor, exercida pelo Conar, é importante, mas não é suficiente, uma vez que o código em que se baseia não tem força de lei. “O Conar apenas recomenda. A lei é fundamental porque é preciso haver alguém que puna, que aplique multas pesadas em caso de descumprimento”, destacou.
Segundo especialistas, as crianças não têm desenvolvimento psicológico suficiente para identificar estratégias de persuasão utilizadas nas peças publicitárias e facilmente confundem o cenário e os resultados produzidos com a realidade.
É disso que a assistente de direção de arte Thaiane Pinheiro, 23 anos, se queixa. Mãe de um menino de 5 anos, ela diz que é preciso haver “muita conversa” e firmeza nas decisões para driblar o impulso consumista despertado pela propaganda nas crianças.
“Normalmente, ele quer todos os brinquedos que aparecem nos comerciais. Eu converso muito com ele e sempre dou [presentes] em datas comemorativas, como Natal e aniversário”, disse, destacando que é comum que o carrinho ou o boneco tão pedido perca a graça em pouco tempo.
“Muitas propagandas iludem as crianças. São sempre coloridas, mágicas e trazem a sensação de que, com o brinquedo, a criança pode ser um super-herói. Quando elas ganham o brinquedo ficam felizes por umas duas horas até descobrir que ele [o brinquedo] não faz tudo o que estava no comercial e logo passam a querer mais e mais”, disse.
Edição: Lílian Beraldo
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A atuação do enfermeiro na Educação Infantil

Os berçários e hoteizinhos têm sido importantes aliados na educação infantil das crianças. Enquanto os pais trabalham, estudam ou realizam outras atividades, têm a confiança de que há profissionais não apenas tomando conta, trocando fraldas ou colocando para dormir, mas principalmente desenvolvendo atividades pedagógicas capazes de estimular a coordenação motora e cognitiva das crianças. 

Enfermeira mostra primeiros cuidados em casos de acidente
Para que o projeto pedagógico implementado na instituição atenda às necessidades das crianças, é necessário que o berçário ofereça uma equipe multidisciplinar, composta por pedagogos, monitores, nutricionistas que elaborem um cardápio saudável e outros profissionais adequados para atuar na educação infantil. Por isso, os berçários que possuem em seu quadro funcional profissionais da área de saúde se destacam por transmitir segurança e tranquilidade aos pais. 

Quando os familiares não estão por perto, são esses profissionais que promovem atividades realmente benéficas à mente e ao corpo da criança e previnem acidentes e machucados. E, mesmo quando os acidentes ocorrem, estão perfeitamente qualificados para tratar dos primeiros cuidados. Esse é o caso do Berçário Hotelzinho Primeiros Cuidados, fundado e gerido por uma equipe de enfermeiras. Para a enfermeira e gestora da instituição, Vilma Pereira, a presença desse profissional na equipe é fundamental não só para cuidar da saúde da criança, mas também para coordenar, orientar e supervisionar os outros profissionais que estão em contato direto com as crianças. 

“Nessas instituições, o enfermeiro executa treinamento com as cuidadoras - que no nosso caso são todas auxiliares de enfermagem -, capacitando-as a avaliar a criança sob um olhar profissional direcionado, avaliando sua frequência respiratória, cardíaca, sinais vitais e se o desenvolvimento está condizente com a idade cronológica. Em caso de qualquer alteração, administramos os primeiros cuidados, prevenindo assim uma maior complicação, com base nos conhecimentos de puericultura”, afirma Vilma.


Profissionais de saúde atuam na Educação Infantil
Em sua grade curricular, o enfermeiro tem conhecimentos técnicos e científicos a respeito de cuidados com crianças saudáveis e hospitalizadas. Por isso, nos berçários, eles têm autonomia para aplicar cuidados de enfermagem em todas as circunstâncias que se fizer necessário. Além disso, a orientação direcionada aos pais e o esclarecimento de suas dúvidas são elementos fundamentais para que eles se sintam tranquilos e seguros com relação aos seus filhos. 

No entanto, Vilma enfatiza que os cuidados frequentes com a criança não devem ser deixados de lado por conta disso. “A presença do enfermeiro no berçário não substitui outros papeis. Não isenta os pais, por exemplo, das consultas periódicas e/ou emergenciais com os pediatras de seus filhos e outros profissionais quando necessário”, destaca a enfermeira.


Aula de massagem shantala com mães e profissionais
Por todas essas e outras razões, instituições que têm em seu quadro equipes de enfermagem vão além de um bom lugar para as crianças passarem o dia. O diferencial é notório, graças ao olhar clínico do enfermeiro, capaz de identificar qualquer alteração a tempo de tomar as devidas providências. “O espaço deixa de ser um lugar onde a criança tem seus cuidados de higiene e sono preservados para ser algo muito além disso. Parece chiclê, mas antes prevenir do que remediar”, acrescenta Vilma. 

*Texto originalmente publicado na coluna sobre maternidade, no Jornal da Cidade de domingo, 24/02.