“O venerado amor de mãe é muito
mais perigoso para a humanidade
que todo o arsenal de armas atômicas.”
Roberto Freire e Fausto Brito
em Utopia e Paixão – A Política do Cotidiano
Roberto Freire estava certo. Nada é mais autoritário e destruidor do que o amor de mãe. Ele é possessivo, incoerente e muitas vezes é colocado acima do bem e do mal.
O fato de agir "segundo o coração de mãe" parece ter o poder de anular qualquer senso de ética, de cautela, de justiça, de democracia, respeito ao espaço dos filhos e até mesmo de bom senso.
Cada vez tenho mais percepção de que uma mulher, pra ser mãe, tem que ter muito preparo psicológico. Tudo o que envolve seu filho desperta as emoções mais intensas, seja de muito amor ou de muita raiva (principalmente quando algo representa perigo).
Uma simples muriçoca que o pica no meio da noite ou o coleguinha que dá um tapa pra tomar um brinquedo da mão de seu filho viram inimigos mortais. É assim. O amor de mãe é superprotetor e, se não exercemos uma vigilância diária sobre nossos sentimentos e sobre nossas ações com relação aos filhos... o tempo será determinante em nos transformar em mães insuportáveis. Daquelas que encara como ameaça qualquer pessoa que chegue perto do filho. Esse mesmo tipo de mãe que tanto criticamos.
![]() |
Bolha de cristal não inspira companheirismo |
Assim que Maria Joana passou a crescer na minha barriga, idealizei uma criação independente pra ela. Um crescimento que fizesse com que ela fosse capaz de tomar suas próprias decisões, de pensar livremente sobre a vida, mas com a certeza de que sua mãe estaria sempre por perto para ajudá-la. Não para decidir por ela, mas para ajudá-la.
Nunca quis ser uma mãe do tipo que fica vasculhando as gavetas e sacolas e que tenta ouvir as conversas por telefone. Mas aquela mãe capaz de transmitir confiança o suficiente para, como uma amiga, servir de confidente e conselheira. E assim manter uma relação franca e aberta.
Nos primeiros dias no hotelzinho, Maria chorou muito e eu chorei muito mais. Mas me segurava no trabalho pra não telefonar várias vezes ao dia, pra tentar pensar em outras coisas e procurar entender que aquele processo doloroso fazia parte da rotina que eu mesma idealizei para minha filha.
![]() |
Uma filha "independente" não causa ciúmes... dá orgulho! |
Já não chora mais, interage com as outras crianças, brinca, se alimenta bem, dorme, participa dos momentos de lazer e se dá muito bem com as berçaristas. Tudo isso sem me ter por perto.
Se eu tenho ciúmes? Sou ser humano e mãe, lógico que uma pontinha de ciúme me incomoda... mas logo procuro ver o quanto essa rotina está fazendo bem a ela. Logo logo ela vai entrar na escolinha e passar por outros passos na vida que vão exigir dela a tomada de decisões, o trilhar de caminhos onde minha presença não será possível - felizmente e infelizmente.
Preparar minha filha para o mundo cruel, inseguro e desumano - e não para uma vida segura e cor de rosa dentro da minha bolha de cristal - é um grande desafio que eu adotei pra mim mesma. E a cada dia tenho mais convicção que isso ajudará a fazer de Maria Joana uma grande mulher independente.
![]() |
Maria Joana comendo biscoito sozinha. rsrsrs |