sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Mi cuerpo, tu cuerpo

Nosso corpo tem uma carga simbólica muito maior do que simplesmente a carne e o osso que já pesam sobre ele. Recebe o peso do julgamento moral, apontamentos sobre a roupa que o reveste ("pobre", "elegante", "brega", "curta demais" etc.), sobre a maneira como ele desliza pelas ruas - seja através dos pés ou não -, julgamentos punitivos que o colocam como extremamente sexualizado (ou assexuado), avaliações estéticas ("gostosa", "bizarro", "tronxa", "gorda" etc.), entre outros. A todo momento os nossos olhares são direcionados a julgar e avaliar os corpos alheios a partir de referenciais e padrões um tanto problemáticos. Mas é claro que não gostamos quando isso acontece conosco. Queremos ter o direito de circular tranquilamente pelas ruas, sem olhares opressores ou moralistas sobre nossos corpos.

Para alguns, o "estar à vontade" é um sentimento que só pode ser possível na própria casa. Mas nem por isso, nem mesmo no âmbito familiar e/ou individual, estamos livres do julgamento alheio acerca da conduta de nossos corpos. Recentemente vi pelo mundo livre da internet algumas fotos de uma família que costuma ficar nua em casa. Adultos e crianças, homens e mulheres, todos nus e se fotografando, registrando a interação constante entre corpos sem a intermediação da roupa. Os registros são da fotógrafa russa Anastasia Chernyavsky, que mora nos Estados Unidos com suas filhas. São imagens lindas, de uma beleza que envolve a poesia do corpo em sua naturalidade, sem preocupações sexuais.



Mesmo assim, com a divulgação das fotos, ela foi taxada por muitos de "indecente" e suas fotos foram bloqueadas pelo Facebook. Será mesmo que o nosso corpo já nasce com essa carga de "indecência"? Será que o corpo humano, por si só, apenas pela ausência de roupas, já carrega consigo uma conotação sexual? Por outro lado, será mesmo que essa sexualidade não estaria mais concentrada no olhar de quem o vê? Será que a "indecência" não está no julgamento de quem não consegue ver o corpo para além de um objeto manuseado pela libido humana? Não é mesmo possível que um corpo nu não seja algo natural?

De imediato, me identifiquei com as fotos por agir como ela. Eu e minha filha ficamos ficamos à vontade em casa. Desde cedo, procuro mostrar a ela um corpo humano sem tabus, sem olhares de padronizações estéticas. A referência de corpo feminino que ela tem é o de mulheres normais, o meu, o das avós, o das minhas amigas, e não os corpos "perfeitos" da mídia. Ela sabe como urinamos, sabe que nossas vaginas têm pelos, que sai leite do nosso peito e que a única coisa que diferencia nossos corpos do dela é o tempo de amadurecimento. Tamanho da bunda, peito duro ou caído, barriga reta ou dobrada, celulite... nada disso ganha importância no nosso dia a dia, porque o que mostramos a ela a respeito do corpo humano são referenciais de naturalização: a eliminação de dejetos, a função de cada órgão e a beleza particular de cada corpo que se apresenta. E é justamente a maneira como lidamos com o corpo nu que nos ajuda nesse processo de educação.

"Não diria que eu sou uma naturista, mas prefiro ficar nua. Para mim, não há nada de surpreendente ou de anormal nisso"











*Fotos copiadas do blog de Anastasia Chernyavsky.

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