sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Mi cuerpo, tu cuerpo

Nosso corpo tem uma carga simbólica muito maior do que simplesmente a carne e o osso que já pesam sobre ele. Recebe o peso do julgamento moral, apontamentos sobre a roupa que o reveste ("pobre", "elegante", "brega", "curta demais" etc.), sobre a maneira como ele desliza pelas ruas - seja através dos pés ou não -, julgamentos punitivos que o colocam como extremamente sexualizado (ou assexuado), avaliações estéticas ("gostosa", "bizarro", "tronxa", "gorda" etc.), entre outros. A todo momento os nossos olhares são direcionados a julgar e avaliar os corpos alheios a partir de referenciais e padrões um tanto problemáticos. Mas é claro que não gostamos quando isso acontece conosco. Queremos ter o direito de circular tranquilamente pelas ruas, sem olhares opressores ou moralistas sobre nossos corpos.

Para alguns, o "estar à vontade" é um sentimento que só pode ser possível na própria casa. Mas nem por isso, nem mesmo no âmbito familiar e/ou individual, estamos livres do julgamento alheio acerca da conduta de nossos corpos. Recentemente vi pelo mundo livre da internet algumas fotos de uma família que costuma ficar nua em casa. Adultos e crianças, homens e mulheres, todos nus e se fotografando, registrando a interação constante entre corpos sem a intermediação da roupa. Os registros são da fotógrafa russa Anastasia Chernyavsky, que mora nos Estados Unidos com suas filhas. São imagens lindas, de uma beleza que envolve a poesia do corpo em sua naturalidade, sem preocupações sexuais.



Mesmo assim, com a divulgação das fotos, ela foi taxada por muitos de "indecente" e suas fotos foram bloqueadas pelo Facebook. Será mesmo que o nosso corpo já nasce com essa carga de "indecência"? Será que o corpo humano, por si só, apenas pela ausência de roupas, já carrega consigo uma conotação sexual? Por outro lado, será mesmo que essa sexualidade não estaria mais concentrada no olhar de quem o vê? Será que a "indecência" não está no julgamento de quem não consegue ver o corpo para além de um objeto manuseado pela libido humana? Não é mesmo possível que um corpo nu não seja algo natural?

De imediato, me identifiquei com as fotos por agir como ela. Eu e minha filha ficamos ficamos à vontade em casa. Desde cedo, procuro mostrar a ela um corpo humano sem tabus, sem olhares de padronizações estéticas. A referência de corpo feminino que ela tem é o de mulheres normais, o meu, o das avós, o das minhas amigas, e não os corpos "perfeitos" da mídia. Ela sabe como urinamos, sabe que nossas vaginas têm pelos, que sai leite do nosso peito e que a única coisa que diferencia nossos corpos do dela é o tempo de amadurecimento. Tamanho da bunda, peito duro ou caído, barriga reta ou dobrada, celulite... nada disso ganha importância no nosso dia a dia, porque o que mostramos a ela a respeito do corpo humano são referenciais de naturalização: a eliminação de dejetos, a função de cada órgão e a beleza particular de cada corpo que se apresenta. E é justamente a maneira como lidamos com o corpo nu que nos ajuda nesse processo de educação.

"Não diria que eu sou uma naturista, mas prefiro ficar nua. Para mim, não há nada de surpreendente ou de anormal nisso"











*Fotos copiadas do blog de Anastasia Chernyavsky.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Reutilizando o berço

É difícil perceber que eles estão crescendo, mas temos que encarar de frente. E é nos momentos rotineiros que percebemos isso. Um deles, sem dúvida, é o momento de trocar o berço pela cama. Já adiei demais, mas tenho que reconhecer que passou da hora. Ganhamos de presente aquele berço que vira cama, então nem a desculpa de não ter dinheiro pra comprar cama cola mais. Precisamos apenas de uma chave de fenda. Só isso. E mesmo assim sempre deixei pra depois essa operação demarcadora de tempo. Mas a hora chegou.

Pensando cá com meus botões, olhava para as grades e a parte de trás que teremos que tirar e pensava: "o que raios vou fazer com isso?" A priori elas não têm utilidade nenhuma, então não em cabimento doar pra alguém. Mas estão tão novinhas, também não tenho coragem de jogar no lixo. E, como sempre, o mundo sábio e amplo dos blogs me dá um caminhão de ideias. Depois dessa mega pesquisa, decidi finalmente fazer meu sofá - o da foto 10. 

Estante para revistas.

Mesinha de estudos.

Mesinha de estudos.

Porta toalhas.

Estante para os livros.


Porta-revistas.

Sapateira.

Sofá de jardim.

Sofá de jardim.

Sofá de jardim.

Estante de ateliê.


domingo, 5 de janeiro de 2014

Os homens e a família: mudanças culturais significativas

Ainda hoje, por incrível que pareça, acredita-se que muitas atribuições delegadas à mulher são relacionadas a "dons naturais" ou da "essência feminina". Muitos elementos entremeados nos papéis sociais de gênero são classificados como "coisa de homem" ou "coisa de mulher", sem levar em consideração as construções culturais imbrincadas em cada modo de vida ou em cada tipo de sociedade. Em países de cultura patriarcal e relações familiares hierárquicas como o Brasil, o lugar do homem e da mulher são muito bem separados e definidos na estrutura familiar. Enquanto a figura masculina representa a autoridade moral e financeira e o papel de mediador com o mundo externo, a autoridade feminina vincula-se à valorização da mãe como cuidadora do lar e da saúde e educação dos filhos. 

Esse modelo colocado de núcleo familiar ainda persiste em organizações sociais que chamamos de patriarcais - como no Brasil. Porém, longe de ser uma divisão de papeis com base em "dons naturais", essa organização familiar é uma construção cultural. Isso é facilmente perceptível quando nos deparamos com outros tipos de organização familiar em diferentes culturas e locais. Recentemente foi divulgada pelo Estado de São Paulo uma matéria que ilustra muito bem esse panorama comparativo.

Na Alemanha, cresce o percentual de homens que exigem condições de trabalho mais flexíveis para ter mais tempo para a família. Segundo a matéria, "A proporção de homens que trabalham meio período mais do que dobrou em dez anos, ao passo que a de mulheres cresceu em torno de 30%." Algo que parece impensável no Brasil, onde as mulheres tentam conciliar trabalho, estudo e família em uma jornada tripla, enquanto os homens permanecem nobremente em sua vida profissional. 


Mas um fator interessante destacado pela matéria é a centralidade da figura masculina como alvo das políticas públicas de família na Alemanha. Outra coisa impensável no Brasil. Quando se trata de políticas públicas para a família, pensa-se logo na mulher, principalmente com relação à reprodução e licença-maternidade. Licença-paternidade, então, nem se discute. E, pasmem, os homens alemães ainda acham pouco.

"Os homens avaliam as políticas corporativas para famílias de forma mais negativa do que as mulheres. Para 85% deles, as políticas das empresas nesse setor são mais direcionadas às colegas do sexo feminino. Foi o que revelou um estudo feito pela A.T. Kearney que será publicado este mês. "As empresas precisam agir. Necessitamos urgentemente de novos modelos de modo a reformular inteiramente o trabalho", disse Martin Sonnenschein, diretor da A.T. Kearney para a Europa Central."


Ou seja, se por um lado a concepção de família na Alemanha procura horizontalizar os papeis de gênero e diluir sua rígida divisão de tarefas, tudo isso está no âmbito de reivindicação dos homens. São eles que pedem por mudanças na legislação, são eles que pedem mais tempo com seus filhos e flexibilidade suficiente para conciliar trabalho, casa e família. Não são as mulheres que estão no seu pé, pedindo "ajuda" nas tarefas domésticas - pelo menos é o que revela o estudo da A. T. Kearney. 

No pacto de coalizão recentemente concluído pelo governo da Alemanha foi inserido, pela primeira vez na história do país, um capítulo que trata do papel dos "pais ativos" e um apelo no sentido de "melhores condições que permitam que pais e mães compartilhem as obrigações profissionais e familiares de modo equitativo".

Tudo isso acontece enquanto os programas da Fátima Bernardes e da Ana Maria Braga, as novelas da Globo os discursos familiares tentam te empurrar como a "devota rainha do lar" com o "dom natural" das habilidades de conciliar tudo.


Sugestões de leitura:

*ALMEIDA, Ângela Mendes de. Pensando a família no Brasil: da colônia à modernidade. Rio de Janeiro: Espaço e Tempo, 1987.

*BADINTER, Elisabeth. O Conflito - A mulher e a mãe. Rio de Janeiro: São Paulo: Editora Record, 2011.

*BADINTER, Elisabeth. Um amor conquistado - o mito do amor materno. São Paulo: Círculo do Livro, 1980.

*SARTI, Cynthia. A família como ordem moral. Cad. Pesq., São Paulo, n. 91, p. 46-53, nov. 1994.


sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Resolvendo os conflitos do seu jeito

Há poucos dias conversava com dois amigos sobre a mania que nós, adultos, temos de 'infantilizar' as crianças - por vezes, as enxergamos como incapazes de pensarem por elas mesmas ou de relacionarem as coisas ao seu redor. Tendemos sempre a resolver os problemas por elas, facilitar todos os obstáculos para que ela sofra o mínimo possível ou tenha menos trabalho do que poderia ter.

Mas confesso que, apesar de acreditar nessa premissa, sempre tive dificuldade de deixar minha filha resolver suas próprias situações de conflito com outras pessoas. Quando alguém falava ou fazia alguma coisa que ela não gostava pra testar os limites e as reações dela, eu imediatamente pedia pra parar. Ficava com raiva por ela, respondia por ela, resolvia por ela - só que do meu jeito. 

Quando nos mudamos para um apartamento, ela passou a conviver mais com crianças de diversas idades e os conflitos sempre foram inevitáveis. Brigas por brinquedos, pela descida na escorregadeira, e por aí vai. Passei a ficar apenas observando e vi que ela tinha capacidade própria de responder coisas do tipo "não, agora é minha vez", "não quero brincar com você", "vamos brincar disso e daquilo", "não faz isso senão você me machuca", e por aí vai. Me recolhi ao papel de observadora e depois perguntava a ela sobre as sensações, sobre seus pensamentos naquele momento e nada mais.

Mas persistia no hábito de responder por ela quando as pessoas em conflito se tratavam de adultos. Nem todos têm uma idade mental compatível com sua idade cronológica, então as crianças não estão livres daquelas que as perturbam para testar seus limites ou vê-las irritadas. Minha filha sempre odiou apelidos e um parente seu a chamava de 'menininha'. Ela nunca respondia e eu sempre mandava ela cumprimentar, dizia que era falta de respeito ignorá-lo. Até que um dia ela disse para toda a família, em alto e bom som: "Eu não gosto que ele me chame de menininha e toda vez que ele me chamar, eu não vou falar com ele". 

Então eu percebi o quanto estava ignorando os sentimentos dela ao dizer que ela tinha que cumprimentar, mesmo sem gostar da maneira como estava sendo tratada. Passei a não me intrometer mais e apenas observei o mesmo ritual de sempre: ela entra na casa, ele diz "oi, menininha" e ela passa direto. Não me intrometi mais e quando alguém comenta o assunto, eu apenas ressalto que ela já deixou clara a sua posição e que é um direito seu.

Mas ontem ela me surpreendeu ao se situar em uma situação na qual um adulto a importunava de maneira crescentemente invasiva. A rejeição dela foi muito clara do início ao fim e, ao invés de ela se irritar, a outra pessoa é que ficou angustiada com sua rejeição. A maneira como ela agiu naquela situação me mostrou duas coisas muito importantes. Em primeiro lugar, que ela era mais capaz de resolver seus problemas do que eu imaginava. Mais do que isso, me mostrou uma forma particular de controlar os impulsos com a qual eu deveria aprender. 

Fiquei surpresa e ao mesmo tempo super orgulhosa da grande mulher que ainda se forma. Diante da situação, a pessoa em questão, irritada, se virou para mim e disse: "Ela agiu como você nunca vai ser capaz de agir". Realmente, não seria capaz de agir como minha filha em uma situação como a de ontem. Mas aprender com as crianças é uma questão não só de humildade, como também de autocrítica, e esse é o primeiro passo para mudar. Se minha filha ainda tem três anos, então temos muito tempo pra que ela realmente me ensine a agir como ela em vários momentos. Estou pronta, de peito aberto e muito grata por ter uma grande professora de vida ao meu lado.

  

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Tirem suas normas da nossa cabeça!

Desde o momento em que nascemos, aprendemos a nos adequar a uma série de imposições estéticas, reafirmadas principalmente pela família. O corpo deve ser afinado, o cabelo deve ser alisado, o rosto deve ser maquiado e por aí vai. Muitas de nós se adequa facilmente e passa a vida sem questionar nenhum desses padrões, gastando cada vez mais tempo e dinheiro para mantê-los. Por outro lado, muitas não conseguem (e não querem) se adaptar e passam a vida acumulando uma série de frustrações, angústias e baixa autoestima. Não só a família, como também os desenhos animados, e vários outros produtos midiáticos que fazem parte de nossa infância ajudam a construir identidades frustradas, consideradas fora da normalidade. 

Um elemento aparentemente sem importância, mas fortemente regulado e constantemente disciplinado no corpo feminino é o cabelo. O tempo todo aprendemos como "baixar o volume", como "domar os cachos rebeldes", como "transformar os fios crespos em lindos cabelos lisos", em dar mais "praticidade" ao cabelo. E então nos é apresentada uma série de químicas e chapinhas "milagrosas" que prometem transformar nossa cabeça em um outdoor, que tem como única função propagandear todo o mercado cosmético que nos oprime a todo momento. 

Aprendemos desde cedo que o cabelo crespo é "ruim", é "feio", é "volumoso", "feio", "assanhado" e que dá muito trabalho. A solução? Alisar! Incorporamos essa lógica de uma maneira tão forte que passamos a nos preocupar com aquele fio que não fica no lugar, com aquele volume todo, com os cachos que estão fora do padrão etc. Há poucos dias, acompanhamos a marginalização que a novela "Amor à Vida" tem destinado ao cabelo rasta. Acompanhamos diálogos fortemente preconceituosos com relação ao novo penteado da personagem Paulinha (e olhe que aquelas tranças não são jamais um dreadlock, como anunciado pelo diretor da novela).


Acredito na maternidade como um ato político e por isso decidi que não iria reproduzir com a minha filha as mesmas imposições das quais fui vítima e que por muito tempo ajudei a compartilhar ao meu redor. Como já esperávamos, devido à mistura étnica, minha filha nasceu com o cabelo cacheado e os fios grossos. Difícil de "domar", como costumam dizer de maneira normativa. Sim, já ouvimos dicas de como "baixar o volume", dos melhores cremes para "domar os fios" etc. Não, obrigado. Recusamos todas. Desde cedo compramos faixas e presilhas que ajudam a fortalecer os cachos e a deixá-los mais soltos ainda. E, como eu acho que não seria diferente, minha filha adora os cabelos cheios e soltos. Selvagens.

Diante da cena bizarra em que a Paulinha aparece com o novo penteado em casa e é fortemente rechaçada pelo pai, perguntei a minha filha se ela achava o penteado bonito. Como eu esperava, ela disse que sim e que gostaria de ter um igual. Levei-a à Oficina de Penteados Afro, organizada pelo Coletivo de Mulheres de Aracaju (do qual faço parte) no Dia da Consciência Negra. Mas ela logo deu sinais de uma virose e não se sentiu bem, tivemos que voltar para casa.

A oficina foi um sucesso e muitas pessoas transformaram sua visão com relação ao próprio cabelo. Uma delas é a Brisa que, depois de tantos anos de química destruidora, resolveu assumir a negritude e finalmente desenvolver uma relação de amor e autoafirmação com seus cabelos. Mais do que um enfeite ou um elemento estético, o cabelo é um instrumento de reafirmação identitária e é apenas uma das armas que continuaremos utilizando contra uma sociedade preconceituosa, racista e normativa. 

Brisa e seu retorno às origens. Mais bela e mais feliz!



domingo, 20 de outubro de 2013

Desculpas pra não pedir desculpas

Sempre foi difícil convencer minha filha a pedir desculpas. Ela cruzava os braços, fazia bico e nada. Eu brigava, gritava e até cheguei a bater nela por conta disso. Chegamos em uma etapa em que eu não sabia o que fazer, mas de uma coisa eu tinha certeza: algo que eu fazia estava aumentando a recusa dela em pedir desculpas a outras pessoas. Mas quando somos mães ou pais, parece que temos dificuldade de admitir que estamos errando e que aquela estratégia não está dando certo. Às vezes preferimos persistir no erro e piorar a situação do que voltar atrás e "perder a autoridade".

O clima entre nós duas estava piorando e ela sempre me enfrentava. Mas a partir do momento em que pude tirar dois minutos pra refletir francamente sobre a situação, lembrei que, desde criança, eu também tinha dificuldades de pedir desculpas. Se entrava em conflito com alguém, eu simplesmente excluía aquela pessoa do meu convívio e pronto. Quando não queremos admitir os próprios erros, é mais simples desprezar quem magoamos do que encarar as coisas de frente.

Como em vários aspectos da personalidade e do jeito de falar de minha filha, essas atitudes dela só estavam refletindo a minha conduta. Como é que eu posso exigir dela que tenha humildade e sensibilidade pra pedir desculpas a alguém, se nem eu mesma consigo ter autocontrole e admitir meus erros? Eu gritava com ela, eu ameaçava e por vezes batia. Como ela vai agir diferente em um momento de conflito? Essas e outras reflexões apareceram na minha cabeça tão rápidas como um raio de luz em um dos nossos momentos de conflito. Em questão de segundos, me toquei da gravidade do meu comportamento quando vi a forma como ela me olhava - com raiva, com vontade explícita de sair de perto de mim.

Ora, pedir desculpas é uma questão de sensibilidade, e não de imposição ou obrigação. Que importância tem ela repetir a palavra "desculpa" sem estar plena do sentimento de arrependimento, de autocrítica e, mais importante, de humildade? Foi no meio dessa briga que parei tudo o que estava falando, me abaixei na altura dela e pedi desculpas. Disse que queria conversar com ela, que se a gente continuasse gritando, iria se magoar e a peguei no colo. 

Enquanto ela soluçava, eu disse que estava arrependida de ter gritado tanto e que queria que a partir desse dia nós pudéssemos conversar como amigas sempre que houvesse um problema. Ela me confessou que ficava chateada quando eu gritava com ela, mas também deixei claro que o comportamento dela não estava me agradando. E propus um pacto: eu evitaria ser grossa e gritar daquele jeito e ela prometeria me ouvir e me respeitar. É óbvio que ela tem que me respeitar, mas procurei uma maneira de enfatizar isso não com imposições, mas sensibilizando-a de que mães também têm sentimentos, mães também erram e que somente juntas poderíamos encontrar as soluções dos conflitos que não poderíamos evitar - como as divergências.

Somos ensinadas a não admitir os erros, a não falar sobre eles, não pedir desculpas aos filhos, porque seria uma espécie de "dar o braço a torcer" e "perder a autoridade". Eu pensava muito assim até perceber que isso é só mais um dos elementos de nossa criação que reproduzimos sem refletir. Por incrível que pareça, em um momento em que eu já estava angustiada por não conseguir ensinar minha filha a pedir desculpas, ela me mostrou de uma maneira muito simples que eu é que precisava aprender a pedir desculpas. E a partir do momento que eu dei essa abertura e me abri pra ela, as desculpas dela passaram a sair com mais facilidade.

Então procurei colocar menos imposições e mais explicações, menos ordens e mais argumentos, menos dedos na cara e mais compreensão. E foi só a partir do momento em que eu aprendi a pedir desculpas a uma criança de 3 anos é que ela passou a pedir desculpas a outras crianças, como uma corrente do bem se espalhando numa grande ciranda. 

sábado, 31 de agosto de 2013

Será que não estamos ajudando a formar Michelines?

Sou muito chata com o que minha filha assiste. Muitos desenhos animados produzidos para as crianças atualmente têm um conteúdo extremamente preconceituoso, segregador, racista e que ensinam que há um papel específico para o menino e outro para a menina. Não poucas vezes, uma total reprodução das relações viciadas que busco combater. Já aniquilei vários da caixinha de minha filha por detalhes aparentemente 'bobos'. 

Os piores de todos eu cortei sem que ela nem pudesse assistir: a Barbie e as princesas da Disney. Fui e sou muito criticada por isso, na opinião dos que dizem que simplesmente não deixo ela assistir o que não gosto. E repito que a questão não é o meu gostar ou não, mas há animações que são um completo desserviço à formação cultural de qualquer criança. Sempre tive problemas com as princesas do Disney por compreender de forma muito clara que é um desenho que há anos tenta padronizar um modelo de mulher dócil, submissa, sempre disposta a abrir mão de tudo por conta de um príncipe que "a salve", o "casamento dos sonhos" e os tão "sonhados" filhos. Como posso permitir que minha filha crie como referência uma princesa que nada conhece além de seu castelo e de seus servos imigrantes de aparência indiana? A realidade de uma mulher brasileira é dura pede muito mais. O mundo em que merecemos viver pede muito mais.  

Por isso, fiquei chocada ao acompanhar o depoimento de uma colega de profissão que, indignada, compara a aparência das médicas cubanas à de empregadas domésticas e, por conta disso, desacredita e desqualifica o profissionalismo e a capacidade das médicas. Não é que me espante viver em um país de ranço escravocrata e racista, pois seus sinais são muito nítidos. Ora, se a jornalista em questão tem uma imagem determinada sobre os negros em seu imaginário, o que me chama atenção em casos como esse é que pouco se atenta à questão de que essas imagens, muitas vezes fixadas e irredutíveis, também são construídas durante a infância. Quantas princesas ou médicas negras essa mulher deve ter visto em algum desenho animado, filme ou qualquer outro lugar na televisão? Que tal perguntar a ela quantas vezes na vida ela sonhou em ser a Cinderela, a Bela Adormecida ou a Branca de Neve? Não podemos nos espantar se ela disser que nunca sonhou em ser a Diana, da Caverna do Dragão (a única negra do desenho que, "coincidentemente", usa roupas que remetem à imagem do selvagem).

A "branca dócil" e a "negra selvagem"
Qual das duas alimenta mais sonhos nas crianças?
Nenhuma criança nasce racista, isso é óbvio. Então, de que maneira o racismo se constrói na construção de sua personalidade, de seu imaginário? Esse é o tipo de pergunta que nunca terá uma resposta simples e objetiva. Mas é preciso reconhecer a força do que as crianças assistem para a fixação dessas imagens sobre os "tipos" e "perfis" que elas criam sobre as pessoas. Por conta disso, também cortei a Turma da Mônica. Já havia percebido uma série de diálogos entre o Cebolinha e a Mônica extremamente machistas e que depois não eram desconstruídos. Mas esperei o DVD acabar. Foi quando me deparei com um episódio em que Mônica dava conta do desaparecimento de seu coelho, Sansão e logo ia tirar satisfação com o Cebolinha. Para seu espanto, não tinha sido ele. Cebolinha então se propõe a investigar o sumiço do coelho e depois descobre que a empregada que trabalha na casa da Mônica o havia levado para a lavanderia. Qual não foi meu espanto ao ver uma mulher nitidamente mais gorda que todos os outros personagens, com sotaque fortemente nordestino e negra. O que me espantou não foram os traços físicos e regionais da mulher, mas a ridicularização com que ela se apresentava. Troquei o DVD na hora e disse a minha filha que o da Mônica havia quebrado.

Representação da empregada doméstica na Turma da Mônica
Fiquei chocada! Depois me lembrei de um desenho que ela assistia muito na época em que tínhamos TV a cabo: a Dra. Brinquedos (Doc McsStuffins). Embora seja um desenho da Disney, é um dos nossos preferidos. Trata-se de uma menina super simpática, que tem uma clínica de brinquedos, onde conserta rasgões, arranhões, quebradiços etc. dos seus brinquedos,sempre conversando e "clinicando" de maneira bem humanizada. A Dra. Brinquedos é negra, assim como toda a sua família. Outro elemento que me chama a atenção é que seu pai é quem cozinha (ele é cozinheiro), enquanto a mãe vai trabalhar (ela é médica). Através desse desenho, minha filha percebe uma médica negra, sua filha negra que sonha em ser médica e um homem que cozinha para a família (diferente da maioria dos desenhos, onde apenas a mãe exerce trabalhos domésticos, inclusive na Turma da Mônica). 

Dra. Brinquedos - uma pequena médica negra e
que trata seus pacientes de maneira humanizada
Inclusive, em um dos episódios, um dinossauro de brinquedo fica com mau hálito por conta de um pedaço de comida que fica nos dentes. Para resolver o problema, a Dra. Brinquedos escova seus dentes. Depois desse episódio, minha filha, que nunca queria escovar os dentes, sempre me diz que tá com mau hálito e pede pra escovar. São esses detalhes me fazem perceber a diferença que faz um desenho na formação de uma criança. Por isso, se eu fosse amiga dos pais da Micheline, diria com toda segurança: "Gente, apresenta a Dra. Brinquedos pra ela, e não a Turma da Mônica". 

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

O Renascimento do Parto

Cena do filme "O Renascimento do Parto"
Foto: Além D´Olhar
Sempre digo que, se na minha época de gravidez, tivesse tido acesso às informações e discussões que tenho hoje, teria parido naturalmente - e recusado a cesária, tão fortemente recomendada pela obstetra. No final das contas, minha filha segue bem e saudável, mas depois que vi um trecho do filme "O Renascimento do Parto" - sob a direção de Eduardo Chauvet e roteiro/produção de Érica de Paula -, me deparei seriamente com a situação de ter sido levada pela corrente do que os outros determinam para o seu parto, e não você. E o pior, operando com a desinformação.

Crescemos sem perceber o protagonismo que nos foi retirado em algum momento e acabamos sendo levadas por recomendações médicas (tão inquestionáveis) que muitas vezes estão repletas de interesses pessoais e financeiros. Quando a obstetra me disse que o parto cesáreo seria melhor porque minha filha estava muito grande e talvez não tivesse dilatação, não pensei duas vezes: pode marcar! Mas depois você aprende que isso é uma justificativa vazia e que os profissionais que deveriam te tranquilizar, na verdade te impõem o medo para depois apresentar algo que parece uma grande solução. 


Parto em banheira de hospital
Foto: Carol Dias
O número de partos cesáreos realizados sem necessidade cresce assustadoramente e nos faz questionar o porquê de transformar um momento tão humano, maravilhoso e único em uma reunião de negócios, na qual todos marcam o horário, cada um faz a sua parte e a mãe sequer sente a emoção de parir. Em algum momento, percebi até que uma das profissionais da equipe de parto colocou seus braços em minha barriga e apoiou seu corpo com muita força, como se estivesse empurrando minha filha até o corte feito no final da barriga. Quando minha filha nasceu, eu não vi seu rosto, não amamentei, não segurei no braço. Fiquei horas esperando algum sinal de vida enquanto levavam ela com urgência para uma sala de UTIN e ninguém me informava nada direito. Somente 15h após o parto tive a oportunidade de vê-la, amamentar, abraçar, sentir seu cheiro, conversar... e hoje sei que poderia ter sido diferente, pois um dia de tanta emoção na verdade se transformou em uma lembrança traumática. Sempre pode ser diferente. Conversando com outras mães, percebo que essas angústias não são somente minhas. Muito pelo contrário. 

Por isso que estamos acompanhando o surgimento de cada vez mais discussões, matérias e vídeos sobre parto humanizado, sobre a importância de você perceber e sentir seu corpo na hora do parto, de transformar a dor em emoção, estimular a participação ativa do pai (que lhe é negada na maternidade) em um momento que na verdade é dos dois. Há vários tipos de partos e na consulta com o obstetra essas alternativas não nos são apresentadas e esclarecidas. Por isso que no dia 6 de setembro todos temos um compromisso com nossos corpos, nossos filhos (que vieram e que virão), nossa saúde e, mais importante, nossa felicidade e bem-estar. 

É nesse dia que o Cine Vitória receberá "O Renascimento do Parto", depois de muita luta e mobilização da Casa Curta-se e de grandes mulheres de nosso Estado que insistem para que retomemos o protagonismo de nosso próprio parto. É grave saber, por exemplo, que 70% das gestantes expressam desejo pelo parto normal no início da gravidez e no último trimestre apenas 30% mantém essa vontade, segundo levantamento da Agência Nacional de Saúde (ANS) - como foi o meu caso, inclusive. Em uma das entrevistas que li com a Érica de Paula, ela disse trabalhar com gestantes há quatro anos e nesse tempo percebeu "um alto grau de desinformação das mulheres, que deixavam nas mãos dos médicos as decisões sobre os partos e acabavam submetidas a cesárias desnecessárias". Vamos lá? Nos encontramos no Cine Vitória!

Convidamos você a assistir o filme e trocar sua opinião e experiência conosco.

Quando:
06/09 - 16h30
08/09 - 15h
10/09 - 19h

Público-alvo: Pais, mães, gestantes, educadores, doulas, terapeutas, estudantes e profissionais da saúde. A todos nós que nascemos e aos bebês que virão.

Classificação: 10 anos.

Valor
R$ 5,00 - meia-entrada
R$ 10,00 - inteira

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segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Hostilidade dos médicos brasileiros: já estamos acostumados

Após muita polêmica, chegam ao Brasil os primeiros médicos estrangeiros - cubanos, mais especificamente - , como parte de um convênio com a Organização Mundial da Saúde (OMS). Segundo o próprio programa criado pelo Governo Federal - Mais Médicos -, esses profissionais seriam escalados para atuar em áreas onde há carência de profissionais da saúde. Segundo o Ministério da Saúde, o atual déficit de médicos no país é de 54 mil – número contestado por organizações médicas brasileiras.

Não quero aqui entrar no mérito de ser a favor ou contra o programa. O que me chama atenção nesse momento é a hostilidade com que esses profissionais têm sido recebidos nas cidades de Salvador, Brasília, Recife e Fortaleza. Mesmo com um número irrisório de 1,8 médico para cada mil habitantes no Brasil, os médicos brasileiros jogam a responsabilidade na falta de estrutura das unidades de saúde da rede pública e na ausência de planos de carreira consistentes. O presidente do Conselho Federal de Medicina, Roberto Luiz d´Avila, disse ainda que "[Os médicos brasileiros] não estão no interior do país porque o governo nunca teve uma política pública de interiorização da assistência".

Sei que é difícil para o presidente de um conselho federal conhecer a realidade de cada povoado em cada interior desse país, mas essa afirmação é, no mínimo, contraditória. Não falo isso por especulações ou adivinhações, mas por experiência própria. Trabalhei alguns meses no caderno de Municípios de um jornal semanal local e não foram poucas as vezes que me desloquei com uma equipe de reportagem para povoados no interior de Sergipe onde a população reclamava da falta de médicos nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) - toda semana tínhamos pelo menos um caso desse pra apurar. Em todos os casos (todos sem exceção) em que nos deslocamos para esses locais, a ausência de médico não era por falta de contratação. Tínhamos acesso à folha de pagamento dos respectivos municípios e os documentos comprovavam que havia profissionais escalados e salários depositados em suas contas. 

A população desses povoados ficava sem atendimento unicamente porque esses profissionais não iam trabalhar - em alguns casos, contatávamos que eles estavam atendendo em clínicas particulares em dias e horários em que deveriam atender e clinicar a população que depende do Sistema Único de Saúde (SUS). Há falta de estrutura na rede pública de saúde? Há. Há problemas com relação ao plano de carreira? Com certeza. Mas será que problemas estruturais justificam o recebimento dos salários, para deixar na mão pacientes mais carentes do mínimo de assistência em detrimento de pessoas que podem pagar uma consulta particular?  

Lembro-me também que a maioria das reclamações que recebíamos vinha de mulheres e mães, que necessitavam de exames pré-natais e outras especificidades ginecológicas e obstetrícias. Não precisa nem ser médico pra saber que mulheres e crianças têm especificidades no atendimento à saúde e que são as mais prejudicadas com a falta de atendimento. Principalmente as gestantes e parturientes. Pouco tempo depois de fazer essas matérias, descobri que estava grávida e agora era a minha vez de sentir na pele o que aquelas entrevistadas passavam. Fiz todo o meu pré-natal pelo SUS, pois não tinha mais plano de saúde e depois de grávida não há como contratar um plano - por exemplo, uma mulher que assina um plano de saúde só tem direito à cobertura do parto depois de 10 meses. 

Posso dizer que não foi nada fácil. Não foram poucas as vezes que voltei pra casa me sentindo humilhada e e até mesmo culpada por uma gravidez. O menor tempo que esperei pra ser atendida por um obstetra foi cinco horas. E em um desses dias eu e mais uma dezena de gestantes tivemos que esperar o médico chegar por duas horas - duas horas de atraso para atender gestantes. E, depois de esperar por horas para uma simples consulta, o que recebíamos era um tratamento muito diferente da humanização proposta pelo Governo Federal. Por vezes invasiva e humilhante, inclusive. Lembro-me muito bem que em uma das consultas o médico falou para mim que o mal da gestante é querer escolher o tipo de parto que ela vai ter - porque quem sabe o tipo de parto a ser realizado é o médico. Disse que as mulheres hoje em dia são muito "frescas" para parir e que ninguém quer sentir mais dor. Topa em você como se seu corpo - e a sua barriga - fosse um botão de elevador.

Foi então que hoje eu li uma notícia que informava a hostilidade com que os médicos cubanos foram recebidos em Fortaleza na noite de ontem, 26. Aí eu pergunto: qual a novidade? Nada muito diferente para quem já está acostumado a receber com hostilidade os pacientes do SUS - isso me remete até a uma história que ouvimos da agente de saúde que ia à minha casa. Segundo ela, por vezes uma mulher que acaba de ser estuprada ou violentada chega à Unidade de Saúde para fazer a coleta e muitos médicos têm nojo de fazer o exame. Simplesmente mandam ela voltar pra casa e tomar banho ou encaminham ao Instituto Médico Legal (IML).

Sala improvisada para atendimento em hospital de Fortaleza,
chamada por pacientes e visitantes de "piscinão" (Foto: André Teixeira/G1)
Então eu pergunto: são esses os médicos que estão preocupados com a saúde pública? Ou estão preocupados com a reserva de mercado? Ou estão revoltados porque percebem que agora será mais difícil assinar a folha pra receber o salário do município e abandonar a população pobre para atender pacientes ricos em uma clínica particular? Se há preocupação com a população brasileira e a saúde pública, não há porque fazer esse escarcéu - quanto mais profissionais, melhor. E questionar a qualidade da formação de medicina em Cuba é extremamente contraditório, ao passo que "estudaram em Cuba e lá se formaram, entre outros, dois filhos de Paulo de Argollo Mendes, presidente há 15 anos do Sindicato Médico do Rio Grande do Sul e critico ferrenho do programa Mais Médicos". Sem falar nos índices extremamente contrastantes com a realidade caótica do Brasil. 

Por isso, eu pergunto: essa recepção dos médicos brasileiros aos médicos cubanos é algo muito diferente do tratamento que recebem os pacientes do SUS?  



domingo, 18 de agosto de 2013

Quem nunca... reproduziu uma ordem sem sentido?

Volta e meia me pego nas contradições que envolvem a tentativa de ser uma mãe moderna, libertária, e o ranço da criação conservadora que tanto criticamos. Quebrar velhos paradigmas é um exercício bem difícil, mas a autocrítica também nos ajuda a colocar os pés no chão que queremos pisar. É muito raro eu incluir biscoitos recheados na alimentação de Maria Joana, mas hoje acabei cedendo. Justamente por ser um fato raro, achei que não teria problema ela comer alguns biscoitos doces com recheio. Normal.

A questão é que assim que dei o biscoito, a vi separando as partes com o dedo e comendo apenas o lado do biscoito que tem recheio. Imediatamente, reclamei e disse que ela teria que comer o biscoito todo, senão eu não daria mais. Ela disse que tudo bem e foi para o quarto. Depois voltou e pediu outro. Foi comer no quarto. Voltou e pediu mais outro. Foi comer no quarto. Depois de três vezes indo e voltando do quarto, eu percebi que ela já estava fechando a porta. Quando me levantei e fui até lá, vi todas as metades-sem-recheio do biscoito encostadas num canto. Me senti vendo um filme da minha infância: eu fazia a mesma coisa e minha mãe dizia a mesma coisa. Então me veio um insight: "Por que cargas d´água ela tem que comer a parte sem recheio?".


Uma coisa é servir o almoço com arroz, feijão, carne, salada, batata frita etc. e a criança comer apenas a batata frita. Nesse caso, existe um sentido em tentar fazer com que ela coma a parte mais saudável, e não só a fritura. Mas, se ela já está comendo um biscoito recheado, qual o sentido de forçá-la a comer a parte sem recheio? Não há. Ainda mais lembrando quantas vezes eu mesma fazia isso e nunca fui convencida da importância de comer a parte que eu não queria - escondia embaixo do colchão, jogava no lixo, mas não comia.

Quando vi Maria Joana subvertendo minha ordem sem me enfrentar, percebi o quanto reproduzimos detalhes de nossa criação sem ao menos nos perguntarmos qual o real sentido e se realmente queremos fazer daquele jeito. Coisas de mães-pseudo-modernas.